Cinebiografias estão em alta nas salas do DF

Cinebiografias estão em alta nas salas do DF

Brasília recebe boa safra decinebiografias, que contam histórias de figuras da política à moda, passando por esportistas e músicos

Ricardo Daehn
postado em 27/05/2014 00:00
 (foto: Ana Stewart/Divulgação)
(foto: Ana Stewart/Divulgação)


Seja abertamente atreladas à realidade, como no caso do documentário Dominguinhos, seja em doses escamoteadas e sujeitas à ação da ficção, assimiladas, por exemplo, na comédia francesa Eu, mamãe e os meninos, as cinebiografias estão em alta nas programações de cinema da cidade. São seis obras que desfilam dados em torno de figuras reconhecidas tanto na política quanto no meio artístico, além de representantes da alta-costura (Yves Saint Laurent) e do esporte (A grande vitória e Jogada de rei).

Vale registrar, ainda, a narrativa de personagens históricos cuja crença na existência depende da religião de cada um, como é o caso de Noé, interpretado pelo sempre explosivo Russell Crowe. Para esclarecer intenções, métodos e dificuldades com o gênero, leia mais sobre essas produções exibidas em Brasília.


Getúlio
;Estou muito feliz com o alcance do filme e com o interesse por uma produção focada entre quatro paredes e protagonizada por um cara de 70 anos;, celebra o diretor João Jardim, ao falar da perspectiva de Getúlio chegar à casa dos 500 mil espectadores. ;Em Getúlio, cuidamos para não receber críticas à toa. Cinema é sempre uma recriação; então, quanto mais ficção, melhor o filme fica. Mas não é estimulante que a opinião pública sustente o acréscimo de poucas liberdades poéticas. É um entrave absurdo isso de ter que ser fiel à história;, opina o documentarista premiado com obras como Pro dia nascer feliz e Lixo extraordinário.

Passados os quatro anos reservados para a construção do roteiro, João Jardim se diz emocionado ao comentar as pressões enfrentadas. Nem foi o aval de Celina e Edith, netas do ex-presidente, que pesou. ;Não podemos exercer muito a criatividade. Nunca há problemas, desde que se salientem dados positivos das pessoas. Não podíamos criar cenas, por exemplo, de Carlos Lacerda, sem correr risco de processo. Do mesmo modo, havia implicações jurídicas ao se falar do Estado;, assinala.


Olho nu
Um filme em tom de autorretrato e que não desemboca em respostas. Assim foi concebido o documentário Olho nu, em que o diretor Joel Pizzini propõe um enfoque ;com; Ney Matogrosso, em vez de configurar um produto audiovisual ;sobre; o cantor. Além do registro de 30 apresentações do show Inclassificáveis, mais de 500 horas de material de arquivo foram reviradas e saíram do acervo particular do artista. Da fuga de casa ao pleno domínio cênico. ;O desafio foi conceber um claro enigma em que o Ney pudesse, ao final, se reconhecer no filme, ao mesmo tempo que eu assinasse embaixo;, explica Pizzini.

Como grande parte das imagens de entrevistas foram apagadas ou sumiram do acervo de emissoras de tevê, o filme se sustentou na fitas em VHS guardadas por Ney. Uma performance espontânea do cantor, em Bela Vista (MS), a cidade natal dele, demarca um dos pilares do filme.

;Ney é um ser humano em expansão, que se reinventa. Ele é protagonista de uma narrativa capaz de transcender sua biografia. O filme dialoga com contextos históricos pelos quais passou;, conclui Pizzini.


Yves SaInt Laurent
Baseado-se em livro de Laurence Bena;n, o diretor Jalil Lespert comanda a produção Yves Saint Laurent, em cartaz em Brasília. Recentemente integrado à extensa programação do Festival Varilux de Cinema Francês, o longa repercutiu positivamente para um dos protagonistas do filme, o executivo Pierre Bergé, um dos maiores estimuladores da fita estrelada por Pierre Niney (de Românticos anônimos). Em Cannes, na competitiva recém-encerrada, o diretor Bertrand Bonello, curiosamente, apresentou outro Saint Laurent, estrelado por Gaspard Ulliel.

Em dramaturgia balizada por presenças de personagens amplamente conhecidos, como Karl Lagerfeld, o filme parte do ano de 1957, quando, aos 21 anos, Saint Laurent é acionado para dar prosseguimento à obra iniciada por Christian Dior. A partir de roteiro coletivo, com direito a participação de Jacques Fieschi (do erótico Noites felinas), Yves Saint Laurent explora a relação amorosa entre o estilista (morto em 2008) e o industrial argelino Bergé. Na pele de Bergé, Guillaume Gallienne ; o novo queridinho do cinema francês ; chama a atenção, a exemplo do que fez em Eu, mamãe e os meninos, cheio de toques autobiográficos.


; Três perguntas / Vicente Alves do Ó
A dor de viver com a criação é uma das vertentes da cinebiografia Florbela, focada na vida da poeta portuguesa Florbela Espanca; prestes a estrear na cidade e comandada por Vicente Alves do Ó. ;É um paradoxo que Florbela tenha escrito tanta dor antes da dor verdadeiramente atingi-la, quando da morte do irmão;, destaca o diretor nascido em Setúbal (Portugal). Ele mesmo completa: ;Só depois desse acontecimento é que ela se aprimora na produção. Mas isso já não me interessava no filme. Chamava-me a atenção esse processo de viver a dor e a morte, e de ela tirar aquilo que nós podemos ser;.

Qual a maior dificuldade em uma cinebiografia?
O maior desafio é resistir àquilo que o público espera, às ideias feitas, aos caprichos. A vida da escritora Florbela Espanca é conhecida por tanta gente. E depois, quando estudamos, avançamos no desconhecido, percebemos que aquilo que é conhecido é, afinal, mito. Puro mito, sem consistência, sem prova. Percebemos, daí, a dificuldade de destruir uma verdade falsa para nos aproximarmos da verdade.

Houve a necessidade de negociar com a família?
A família, sim, colaborou no processou, agradeceu, apoiou. Fiquei muito sensibilizado com isso. Também tivemos a sorte de encontrar uma pessoa que conheceu e foi amiga da Florbela e que ainda é viva: uma fonte de conhecimento direto e fundamental.

Que perspectiva deu base ao filme?
O que mais me surpreendeu na biografia de Florbela não foram os escândalos, mas esse tempo estéril de poemas em que ela tenta ser uma pessoa como as outras: alguém normal. E isso, pensei, não só era um elemento que pouca gente conhecia, como era um assunto que poderia aproximar as pessoas desta mulher especial que, ainda assim, trocaria tudo para ser menos especial e mais feliz.

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