Emprego e renda vão ditar ritmo de calote

Emprego e renda vão ditar ritmo de calote

De cada R$ 10, R$ 4,5 são destinados ao pagamento de empréstimos. Comprometimento do orçamento doméstico com esse tipo de despesa pode aumentar

» DIEGO AMORIM
postado em 08/06/2014 00:00
 (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)



Com a economia enfraquecida, os trabalhadores não poderão contar com aumentos reais significativos daqui por diante para acomodar dívidas no orçamento. A inflação insistentemente acima de 6% e os novos patamares dos juros mexeram na prioridade das famílias, que trocaram o consumo pela administração de dívidas recordes. A perspectiva é de que o comprometimento da renda com débitos aumente nos próximos meses e sufoque ainda mais o poder de compra dos brasileiros, sobretudo se o desemprego subir e a recessão no país se concretizar.

Atualmente, R$ 4,5 de cada R$ 10 do rendimento das famílias, em média, estão reservados para o pagamento de empréstimos bancários, incluindo a casa própria. A escalada da taxa básica de juros (Selic), de 7,25% para 11% ano, levou as instituições financeiras a cobrarem os maiores encargos em dois anos da clientela, o que, na opinião do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, deve tornar a vida dos devedores ainda mais difícil.

A segurança no emprego, sustenta o especialista, será uma variável determinante para o nível de calote nos bancos. ;O problema é que as pessoas se endividaram muito com o crédito longo;, comenta Freitas Gomes. O contraponto positivo nesse cenário, acrescenta, é que as famílias estão mais prudentes com as finanças e, endividadas até o pescoço, passaram a demandar menos crédito. Na casa de Cícera Souza, 78 anos, por exemplo, a regra, sem qualquer chance de negociação, é fugir de qualquer tipo de empréstimo.

Nos últimos dois anos, de acordo com os dados do Banco Central, o endividamento dos brasileiros em relação à renda acumulada em 12 meses apresenta uma trajetória crescente: saltou, no período, de 42,08% para 45,73%, uma variação de 3,65 pontos percentuais. ;Em algumas famílias, o consumo caiu apenas porque o crédito perdeu força. Os bancos ficaram mais seletivos, temendo a inadimplência;, observa o educador financeiro Álvaro Modernell. ;Se tivessem dinheiro disponível, muitos continuariam gastando;, acrescenta.

Para os que, na empolgação do consumo, se penduraram no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito ; as modalidades com as maiores taxas do mercado ;, o drama para se livrar dos débitos se intensificará, sublinha o economista Ricardo Rocha, professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). ;Nesses casos, não tem jeito: o endividamento certamente ficará maior, justamente por conta da recente alta dos juros;, diz. Ele lembra que, com o encarecimento do crédito, os gastos dos brasileiros com juros dispararam e somaram R$ 87,9 bilhões nos primeiros quatro meses de 2014, 17,4% a mais ante igual período do ano passado.

No entender de Rocha, o nível de endividamento do Brasil preocupa bastante, embora muitos economistas ponderem que boa parte desse comprometimento se explica pela aquisição da casa própria, o que seria algo louvável. As previsões só não são piores, acredita ele, porque os juros básicos da economia não devem subir mais antes das eleições presidenciais, em outubro.

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