"Mobilidade urbana é um inferno no país"

"Mobilidade urbana é um inferno no país"

Ministro de Assuntos Estratégicos vê a população insatisfeita com os serviços prestados pelo governo e com a demora dos investimentos

postado em 16/06/2014 00:00
 (foto: Antonio Cruz/CB/D.A Press - 11/5/13)
(foto: Antonio Cruz/CB/D.A Press - 11/5/13)
; PAULO SILVA PINTO

O economista Marcelo Neri tem uma das missões mais espinhosas na Esplanada: explicar o descontentamento dos brasileiros à sociedade e ao próprio governo. Alçado ao cargo de ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) após presidir o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), ele busca justificativas não apenas com números. ;Se quisermos entender o Brasil e os brasileiros, temos que entender não o aspecto objetivo, mas também o subjetivo;, comenta. Para ele, os ganhos dos brasileiros vão muito além do padrão de consumo: alcançam a habitação e o mercado de trabalho. Mas, depois de 10 anos, tais conquistas já são dadas como garantidas pelas pessoas. As aspirações cresceram, o que acaba, muitas vezes, alimentando queixas. E elas se juntam a um tipo de insatisfação bem mais forte, o das pessoas de renda mais alta. Elas computaram ganhos menores, estreitando a diferença entre seu padrão de vida e o dos mais pobres. Assim, a etapa seguinte do desenvolvimento, apostou Neri, está longe de ser simples. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio.





Tornou-se comum dizer que a situação no Brasil melhorou da porta para dentro, mas não da porta para fora. É o que ocorreu?
A própria presidente Dilma disse isso. Por que isso ocorre? Estamos em um país grande, diverso e desigual. Então, é difícil dar uma resposta que contemple o país inteiro. Um grande ganho que houve foi no mercado de trabalho fora de casa. As pessoas conseguiram mais empregos formais. E há cada vez mais famílias com casa própria, o que é muito importante. O problema é que, entre essas duas conquistas, entre a casa e o trabalho, a vida está mais complicada. As pessoas vivem o inferno da mobilidade urbana. Muita gente comprou carro, mas há carência de políticas públicas e de investimentos públicos. A infraestrutura demora, há defasagens, enquanto o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo têm efeito instantâneo. Mesmo o VLT (veículo leve sobre trilhos), que é mais rápido do que o metrô, demora muito para ser implantado.

Quem está mais insatisfeito?
A nova classe média não está mais insatisfeita pelas pesquisas que tenho visto. Houve conquistas, e as pessoas buscam mais. Querem ser notadas também, o que explica o rolezinho. Mas não vêm daí os manifestantes que, inicialmente, ocuparam as ruas em junho do ano passado. Essas são pessoas dos grupos de maior renda, que tiveram menor ganho. A analogia da Belíndia, criada pelo Edmar Bacha (segundo o qual o Brasil convivia com a riqueza belga e miséria indiana nos anos 1980), continua atual, com um sentido diferente. O lado indiano do Brasil cresce tanto quanto a Índia hoje. E o lado belga do Brasil anda tão devagar quanto a Bélgica. Os 5% mais pobres tiveram, de 2001 a 2012, aumento da renda por pessoa de 138%, já descontada a inflação. Já os 5% mais ricos computaram alta de 26%. Essas pessoas não gostam tanto da situação, por motivos compreensíveis.

Os números são suficientes para explicar as diferenças?
Se quisermos entender o Brasil e os brasileiros, temos que entender não o aspecto objetivo, mas também o subjetivo. Vejo na situação de hoje, de um lado, o efeito aspiração, que é mais importante para essa nova classe média. E há o que a literatura chama de efeito comparação, que é olhar para o vizinho, algo mais sociológico. Isso também ajuda a explicar o que ocorre. A classe média tradicional se acostumou com a altíssima desigualdade. Mas a distância em relação à empregada e ao peão de obra hoje não é a mesma de antes. Há também a globalização, a internet, a conectividade, que permitem comparações das pessoas com o resto do mundo. As informações circulam com muito mais velocidade.

Esse tipo de mudança é inédita no país?
Ao olhar a história brasileira nos últimos 60 anos, é possível ver que, de 10 em 10 anos, o Brasil vive uma grande mudança, com mobilização seguida por transformação. É possível lembrar pelas efemérides deste ano. Vivemos os 50 anos do golpe, 40 anos do início do processo de abertura, com a Revolução dos Cravos (em Portugal) e a derrota do governo (o regime militar brasileiro) nas urnas. Em 1984, houve o auge da luta pela democratização, com as Diretas Já. Em 1994, tivemos o Plano Real. E faz uma década que estamos crescendo com redução de desigualdade. Depois de 10 anos, as pessoas se adaptam à nova realidade, passam a ter novas aspirações. E os que não ganharam tanto ficaram com demandas e frustrações acumuladas. Neste ano, temos Copa e eleições, que são eventos catalisadores.

Como se explicam as queixas em relação a serviços públicos tradicionais, como a educação?
É o efeito aspiração da nova classe média. No Pisa (exame internacional) de 2003, o Brasil tinha a pior nota do mundo de matemática. Quando se pega a mudança de 2003 a 2013, é o que deu o maior salto. Agora, há seis ou sete países piores. Não é nada para celebrar, mas houve a mudança. Entre as prioridades das pessoas, a educação estava em sétimo lugar na lista. Hoje, está em segundo. Só perde para a saúde. Antes, as pessoas achavam que a educação, para a qual não davam importância, era boa. Agora, aprenderam o que é educação decente, algo que a gente ainda não tem.


"O brasileiro quer um caminho do meio, não quer uma situação muito extrema. Quer crescimento. Quer Estado forte, mas quer um setor privado forte também;


O Estado será capaz e responder a esses anseios?
Sozinho, não. Sou defensor de parcerias público-privadas (PPP). É preciso aproveitar o que há de bom dos dois lados para tentar diminuir as dificuldades. O setor privado não é particularmente bom para promover equidade, mas sim para a eficiência. O brasileiro quer um caminho do meio, não quer uma situação muito extrema. Quer crescimento. Quer Estado forte, mas quer um setor privado forte também. O grande caminho para isso é a democracia. Teremos eleições neste ano, e as aspirações poderão se materializar em políticas.

Há divergências nos números de redução da miséria que o próprio governo usa. Como isso se explica?
São métricas diferentes. A redução de 22 milhões no número de pessoas em pobreza extrema no governo Dilma tem como base o cadastro único, que é mais completo. Outros números mostram outros resultados. A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE)) apresenta outro dado. Mas também traz resultados bastante auspiciosos: redução, entre 2011 e 2012, de 15,9% da pobreza extrema e de 18% da pobrez

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