O grande Chico místico

O grande Chico místico

O compositor carioca, que celebra 70 anos de vida na próxima quinta-feira, ficou mais discreto com o passar do tempo. Amigos e familiares ajudam a compreender a personalidade do artista, um dos maiores nomes da música brasileira

DIEGO PONCE DE LEON GABRIEL DE SÁ
postado em 16/06/2014 00:00

Quando completou 60 anos de vida, uma década atrás, Chico Buarque de Hollanda espalhou que comemoraria a data em Paris, onde tem apartamento. Não haveria repórter capaz de importuná-lo na capital francesa, ele deve ter ponderado. O compositor e violonista Guinga passeava pelo Alto Leblon, no Rio de Janeiro, próximo ao dia do aniversário do amigo, quando, subitamente, o viu se exercitando por ali. Tomou um susto. ;Uai, Chico, você não estava viajando?;, questionou. ;Que viajando o quê;, gargalhou o artista.


O bom humor é um traço marcante da personalidade de Chico Buarque, assim como a discrição. Criador de mais de 400 canções, o artista é um dos principais expoentes da música popular brasileira. Na próxima quinta, o cantor e compositor carioca chega aos 70 anos e, ao que tudo indica, dessa vez ele deve realmente passar a data em Paris. Pelo menos foi o que disseram alguns amigos do artista ao Correio. Na capital parisiense, Chico anda de bicicleta pelas ruas e não abre mão das tão estimadas peladas com os amigos.


É possível que o compositor esteja se dedicando, também, a escrever um romance ; que seria o quinto da carreira literária. Ele tem intercalado os shows de seus discos com o ofício da escrita. A última turnê foi a de Chico, finalizada em 2012. Mas são tudo especulações. ;Ele é muito reservado, não dá chance de ninguém vasculhar a vida dele. Todo mundo quer saber de algum detalhe, mas nós mesmos, os músicos, não sabemos de nada;, conta o baterista Wilson das Neves, que acompanha Chico há mais de 30 anos.


Guinga acredita que o compositor lida muito bem com a questão da idade. Diz isso porque, quando comentou com Chico sobre sua preocupação com o passar do tempo, ouviu do amigo, seis anos mais velho, para se espelhar nele, que continuava a jogar futebol com assiduidade. ;A natureza foi pródiga com Chico: bonito, saudável e filho de uma família de vida longa;, destaca o parceiro.

Velinhas

Os familiares do compositor evitam utilizar palavras como ;recluso;, mas ratificam a discrição que envolve o artista. E a endossam. A ex-ministra da Cultura e cantora Ana de Hollanda, irmã de Chico, atendeu o Correio, mas advertiu, logo de cara: ;Olha, ele prefere a discrição, como se sabe. Se eu revelar qualquer história recente, seria uma maneira de desrespeitar essa opção. Não poderia fazer isso. As antigas, no entanto, já são bem conhecidas;.


Ana não estará em Paris na data, mas disse que ;vai ligar;. Miúcha, em contrapartida, deve se juntar ao irmão na hora de apagar as 70 velinhas. Na casa da também cantora, quem atende o telefone é a sobrinha Maria. ;Miúcha está viajando pela Europa. Não deve voltar por agora;, contou sem maiores detalhes. Segundo ela, o aniversário ;deve ser comemorado de forma íntima, apenas com pessoas muito próximas;.


A mãe de Maria, Cristina, talvez tenha sido a Buarque de Hollanda que mais flertou com a música, depois de Chico. Como o irmão, Cristina parece ter optado por um cotidiano mais tranquilo. Recentemente, largou a atribulada capital carioca e fixou residência na Ilha de Paquetá, ainda no Rio de Janeiro. Ao atender o celular, avisa que o ;sinal é péssimo;. Coincidentemente (ou não), logo após ser informada sobre o cunho da matéria (os 70 anos de Chico), a ligação cai. As tentativas seguintes não deram resultado.


O genro Chico Diaz, celebrado ator casado com Sílvia Buarque (fruto da relação de Chico Buarque e Marieta Severo), desconversou e mostrou certa irritação ao ser questionado sobre o célebre sogro. ;Não tenho muito o que dizer;, alertou. Ainda assim, informou que ele e Sílvia não irão a Paris por ;compromissos de trabalho;. Questionado sobre o que diria ao cantor no dia da celebração, Diaz se limitou a dizer: ;Parabéns;, em um tom pouco simpático. E desligou em seguida.


A experiência provoca uma sensação de que o próprio Chico talvez tenha orientado os mais próximos a não revelar nada. No entanto, o excesso de prudência acaba por aguçar uma maior curiosidade. Movido por ela, o Correio, até quinta-feira, adentra os bastidores da vida do compositor, na tentativa de esbarrar com o homem por trás do mito. No Leblon, em Paris ou, até mesmo, em Brasília.


1966
Ano em que Chico Buarque lançou o primeiro disco, após enorme sucesso da canção A banda

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