Sonho, fé e paz em campo

Sonho, fé e paz em campo

No país do futebol, a paixão pelo esporte pulsa em todos os cantos: nas ruas, em ambientes religiosos e em unidades de ressocialização. Entre as quatro linhas, mais importante do que as rivalidades é levar a bola para além das traves

ARIADNE SAKKIS
postado em 18/06/2014 00:00
 (foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)







Que futebol é uma paixão nacional, ninguém duvida. Em tempo de Copa do Mundo sediada no Brasil, o esporte é todo o assunto. No país do futebol, qualquer coisa é bola, o gol é um acerto no espaço entre as traves, as pedras, as chinelas, e o jogador é todo mundo. Se o talento nacional ostenta cinco títulos e completa os melhores times do mundo, o amor pelo jogo pulsa em lugares pouco prováveis. Está nos pés de crianças, de futuros padres, de gangues rivais.

A regra é clara: futebol só depois de terminar a tarefa de casa. Assim os meninos do Conjunto E da QNN 21, no P Norte, Ceilândia, podem ganhar o beco no final da rua. Na imaginação deles, o jogo é disputado num gramado de primeira, sob o olhar inflamado de uma torcida gigante. Pobre do beco e do chão de cimento. Durezas à parte, ainda hão de inventar uma condição que consiga tirar a graça de uma partida de futebol para um apaixonado.

Um cavalete de obra, doado por um pedreiro, faz as vezes de trave. A bola já viveu dias melhores, mas ainda respeita os habilidosos pés do dono, o craque da rua, Maykon Weber, 11 anos. É um especialista em dribles. Entorta o eixo dos adversários. Pedem uma demonstração. ;Aí, não vale. Eles já sabiam que iam ser driblados;, argumenta o atacante, desarmado antes do previsto. Lucas Carvalho é a outra estrela do beco. Carrega fama regional pelo dom das embaixadinhas. ;Já fiz 86 em casa uma vez;, jura. Nas folgas do treino na Vila Olímpica de Ceilândia, ele é um dos capitães que escolhem os times.

Isaac Liberato, 11 anos, diz que é bom centroavante. Os colegas corrigem: é um zagueiro nato. ;Ele não deixa ninguém fazer gol. Também fica abaixado tampando as traves;, ilustra Matheus de Araújo Praciano, 11. Informalmente, Isaac é o presidente da pelada. Cabe ao menino protestar quando um carro passa, um franco dissabor de bater bola na rua. Segundo ele, tem alma ruim que vai lá pelo simples prazer de atrapalhar o jogo. ;Só para encher o saco, os carros ficam dando volta. Ninguém precisa passar aqui;, reclama Isaac.

Se deixar, a escalação da Seleção Brasileira é assunto que come o tempo hábil das partidas ; necessariamente encerradas com o acender da luz dos postes. De todos os nomes convocados por Felipão, aparentemente, apenas Neymar é unanimidade. O ex-menino da Vila, atual atacante do Barcelona, é a inspiração dos garotos. A fama, quando acontecer, vai ajudar outros meninos a nunca mais jogar num beco. ;Vou fazer um campo de grama, cercado, aqui na frente de casa. Talvez um clube, também;, diz Isaac. No fundo, todo o elenco quer ser jogador profissional. ;É meu sonho. Sempre foi, desde pequeno;, confessa Eliel Víctor Ferreira da Silva, 9 anos. ;E por acaso você é grande?;, pergunta Matheus. É o fim do papo. Começa o primeiro tempo.

Religiosos

;Ó Jesus, quem me dera ser goleador!”, suspira o seminarista Raynner Leonardo Ferreira Flor, 23 anos. O goiano de Uruaçu não se entende com o futebol society, jogado na grama. Diz que seus dotes aparecem na estreita quadra do futebol de salão, onde é pivô. Por isso, ele se senta sob os pinheiros que margeiam um dos quatro campos do Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília (Smab) e espera com paciência infinita a vez de substituir um companheiro. ;Sabe que nunca tinha me interessado por futebol até entrar para o seminário? É uma parte importante da nossa convivência em comunidade;, explica o aspirante a padre.

Então quer dizer que em futebol de futuros padres não tem briga? ;Até tem, mas mais como uma discussão, um desentendimento. Acho que a diferença é que a gente se perdoa na hora;, garante o goiano, que cursa o quinto ano de formação religiosa. Às vezes, alguém deixa escapar um palavrão. ;Acontece. Afinal, também somos humanos;, minimiza Thaisson da Silva Santarém, 23 anos. Mais comum é, num erro de passe ou na perda de um gol feito, a repreensão vir na forma de ;minha Nossa Senhora;.

Quem pensou que os religiosos eram fracos de bola se enganou redondamente. Em 2012, num campeonato entre paróquias e empresas, organizado pelo seminarista Marcus Venícios, não apenas o Smab saiu campeão, como não perdeu uma só partida. ;Os adversários acham a gente estranho, pensam que vão ganhar fácil;, diz Venícios. Eles têm um trunfo na batina. Rafael da Silva Costa, 26 anos, estava na trilha do futebol profissional antes de escolher a vida religiosa.

Não houvesse reviravoltas na vida, talvez os campos percorridos por ele poderiam ser os mesmos que ovacionam David Luiz, zagueiro da Seleção Brasileira e do Paris Saint-Germain. ;Jogamos juntos no time juvenil do Vitória. Ele é muito gente boa. Grande jogador e pessoa;, elogia Rafael, que também foi da base do Vasco e jogador do Gama.

A Copa do Mundo será simultânea à época de provas. Na brecha dos estudos, os 90 seminaristas poderão acompanhar o mundial em um telão montado numa sala do Smab. ;Pelo menos os jogos do Brasil;, espera Thaysson.

Internos

Na Unidade de Internação de Planaltina, as peladas na quadra esportiva sempre fizeram parte da rotina do centro onde 99 meninos cumprem medida socioeducativa. A chegada da Copa do Mundo, entretanto, inspirou a trégua entre membros de gangues rivais internados na instituição. Os garotos sugeriram a criação de um torneio nos moldes do Mundial. Cada equipe escolheu representar uma seleção.

Para desespero de quem acredita em coincidência, o time que representava a Seleção Brasileira não passou da primeira fase. Na decisão, a França derrotou a Nigéria por 3 a 2. O resultado foi o menos importante. O significado do campeonato ultrapassou o entretenimento. Pela primeira vez, adolescentes infratores integrantes de gangues rivais de Planaltina participaram juntos de uma atividade.

A final do torneio foi disputada por internos de módulos diferentes ; eles são separados para evitar brigas ; e, mesmo assim, nenhum incidente foi registrado. O vice-diretor da unidade, Fernando Marques Gonçalves, admitiu ter receio de promover uma torneio com encontros entre grupos que se odeiam, mas se sentiu obrigado a dar um voto de confiança. ;Foi uma surpresa agradável assistir aos rivais disputando uma partida de futebol e se respeitando. Para quem não vive essa realidade, parece pouco, mas, para nós, é uma evolução imensa;, afirmou.

Colaborou Saulo Araújo

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