O coração falou mais alto

O coração falou mais alto

O discurso encontrado nas ruas do Distrito Federal mostra que a vergonha pelo placar de 7 x 1 diante da Alemanha não vai passar, mas os fãs preferem apoiar a Seleção na disputa pelo terceiro lugar, hoje, diante da Holanda, no Mané Garrincha

» MARYNA LACERDA
postado em 12/07/2014 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)



Após a amarga derrota para a Alemanha, a Seleção Brasileira volta à capital federal para disputar o terceiro lugar na Copa do Mundo. Essa é a segunda passagem da equipe pelos gramados do Mané Garrincha, durante o Mundial, e o clima é bem diferente do daquele 23 de junho. A euforia verde e amarela da partida contra Camarões deu lugar a um sentimento mais contido, quase cauteloso, de torcedores que ainda digerem o luto pela goleada de 7 x 1 sofrido diante da Alemanha. Ainda assim, para muitas pessoas, este tem sido um momento de demonstração de respeito aos jogadores e à equipe técnica, apesar de todas as falhas táticas apresentadas.

Na avaliação do analista de sistemas Felipe Silva, 28 anos, a revolta, mesmo que tímida ; expressa em recolhimento de bandeiras das janelas e dos carros e decorações desfeitas ;, é sinal de pouco entendimento do esporte. Felipe veio para a cidade a fim de acompanhar a decisão e, em momento algum, pensou em vender o ingresso ou cancelar a passagem de São Paulo para cá. ;As pessoas reclamaram muito porque o Brasil perdeu daquela forma, mas eu não me irritei. Já sabia que o time estava fraco e mal preparado. Quem ficou triste ou bravo demais não acompanha futebol e se preocupa só com a vitória;, conta. Para Silva, o comportamento derrotista reflete um falso amor pelos símbolos nacionais. ;Isso é coisa de quem é patriota só durante a Copa do Mundo;, afirma.

Vestir a camisa

Nas primeiras horas após a derrota, Márcia Dias da Silva, 33, sentiu raiva e decepção. ;Hoje, no entanto, vou torcer para a Seleção Brasileira. Vou vestir minha camisa e apoiar os jogadores para vencermos a Holanda;, garante a vendedora ambulante. Por mais humilhante que tenha sido o resultado da última terça-feira, ela considera que o desastre é algo natural. Márcia acredita na falta de reflexão como motivo para tantos ataques direcionados à equipe. ;A derrota abalou, mas a gente se recupera. Quem xingou e condenou os jogadores não teve coração, não pensou;, arrisca.

Ainda que o futebol seja um tema levado muito a sério, no país há outros motivos com os quais se indignar, na opinião do fotógrafo Valdir Gonçalves, 43. ;Como brasileiro, eu me sinto lesado em relação à forma com que a Copa do Mundo foi organizada, mas não com o evento em si. Houve corrupção, desvio de verbas, mau planejamento. Essas são razões mais fortes para se indignar do que com o placar de 7 x 1;, defende. O paulistano assistiu à eliminação do Brasil na semifinal, em Pirenópolis (GO) e se entristeceu com o jogo. No entanto, percebeu mais constrangimento por parte de estrangeiros que estavam na mesa ao lado do que entre os brasileiros. ;Eles não debocharam e, depois que a Alemanha fez três gols seguidos, se retiraram do restaurante em respeito a nós;, lembra.

Carinho

Uma das formas de reconhecer a dedicação da equipe é proporcionar a acolhida calorosa na chegada à cidade. Um grupo de amigos se mobilizou para se encontrar na porta do hotel Brasília Palace, onde o time está hospedado e, lá, expor cartazes de incentivo. A iniciativa surgiu de uma conversa informal da qual participava a publicitária Renata Checha, 31 anos. ;Nós discutíamos o fato de os brasileiros serem vira-casaca, só apoiam quando o time está ganhando. Se perde, é motivo para reclamar que estava tudo errado;, critica. Segundo ela, a recepção é uma forma de tentar reduzir o sentimento de derrota. ;A gente quis dar uma animada no espírito de todos;, conta (Leia mais sobre a recepção dos jogadores na página 18).

A turma também vai à porta do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, hoje, antes do jogo, a fim de reforçar o agradecimento. ;Nós queremos mostrar que a cidade está pronta para recebê-los e que apoiamos o futebol;, afirma outra organizadora do evento, Polliana Prado, 27. ;Não temos ingresso para amanhã (hoje), então vamos à Feira da Torre de TV para assistir à partida;, explica. Em caso de reações contrárias, Polliana pretende apenas agir com respeito. ;Se houver quem se irrite com a atitude, nós só vamos respeitar. Sempre existe quem critique, mas é direito reclamar;, defende.

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