Governo desqualifica denúncia de Nisman

Governo desqualifica denúncia de Nisman

Secretário-geral da Presidência diz que o promotor, morto no domingo, não escreveu a denúncia contra presidente. Testemunha revela desconfiança por segurança

postado em 24/01/2015 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)





Em meio a inúmeras incertezas que permeiam a morte do promotor federal Alberto Nisman, cuo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça no último domingo, o governo de Cristina Kirchner defendeu que o relatório com denúncias ; o qual seria apresentado por Nisman ao Congresso, dois dias após sua morte ; não teria sido escrito por ele. O promotor foi alvo de duras críticas desde o momento em que tornou pública a sua conclusão de que a presidente e membros da equipe governamental firmaram um acordo para encobrir a participação do Irã no maior atentado da história do país. Em 18 de julho de 1994, um carro-bomba explodiu diante da sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), deixando 85 mortos e mais de 300 feridos. Depois de afirmar que Nisman tinha cometido suicídio e de voltar atrás, mudando repentinamente de posição, o governo Kirchner tentou desvalorizar os documentos deixados por ele. Em carta publicada no site oficial, a presidente afirmou que o promotor foi vítima de uma operação contra o governo e que foi usado para desacreditá-lo.

;A denúncia do promotor nunca foi, em si mesma, a verdadeira operação contra o governo;, escreveu Kirchner. ;A verdadeira operação era a morte do promotor, depois de acusar a presidente, seu chanceler (Héctor Timerman) e o secretário geral de La Cámpora (o deputado Andrés ;Cuervo; Larroque) de serem encobridores;, defendeu ela no texto. Na manhã de ontem, ao chegar à Casa Rosada, o secretário-geral da Presidência, Aníbal Fernández, reforçou a ideia que o promotor não seria o responsável pelo documento da denúncia. ;Não pode ter escrito essa burrada, cheia de erros jurídicos;, disse Fernández. ;Não pode ter escrito, é um espanto;, defendeu. O chefe de gabinete de Kirchner, Jorge Capitanich, seguiu a mesma linha da presidente. ;Não há dúvidas de que alguém no serviço de inteligência divulgou informações falsas. Precisamos esperar a investigação judicial e determinar quem foram os culpados.;

A reação do governo provocou manifestação de repúdio da Associação de Promotores e Funcionários da Argentina. ;Ele está sendo atacado. A intenção é ridicularizar, como se fosse um fantoche qualquer;, alertou Carlos Donoso Castex, presidente da associação. ;É vergonhoso;, acrescentou ele. A entidade pediu que a equipe de Nisman e as provas recolhidas no apartamento do promotor tenham a integridade assegurada. Para o procurador-geral do Tribunal Nacional de Apelações, Ricardo Sáenz, as declarações de Cristina interferem nas investigações. ;Não é o mesmo ler a opinião de qualquer cidadão no Facebook e ler o que opina a presidente;, destacou ele, em entrevista a um programa de rádio.

Medo
Durante testemunho, o técnico de informática Diego Ángel Lagomarsino, dono da pistola automática calibre .22 usada na morte do promotor, disse que Nisman desconfiava dos 10 policiais federais responsáveis por sua escolta. Lagomarsino, que prestava assistência à promotoria, afirmou ter entregue a arma desmontada ao promotor, depois de ele pedir ajuda e revelar que se sentia inseguro. ;Você sabe como é quando suas filhas não querem ficar com você porque têm medo?;, teria dito ele, de acordo com o funcionário, que está sob proteção em um hotel da capital e foi proibido de deixar o país.

A imprensa argentina divulgou imagens da chegada do promotor à Buenos Aires. Vídeos das câmeras de segurança do Aeroporto Internacional de Ezeiza mostram Nisman passando apressado pelo controle migratório. Aparentemente agitado, ele olha de um lado para o outro enquanto espera as malas, confere o telefone diversas vezes e faz algumas ligações. O promotor interrompeu as férias na Europa e retornou antes do esperado a Buenos Aires. Dois dias após sua chegada, ele denunciou a presidente e aliados.


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