Contra o relógio

Contra o relógio

Termina hoje à noite o prazo para Irã e potências do grupo P5+1 chegarem a um consenso sobre o programa atômico de Teerã. EUA admitem "questões difíceis". Duração do pacto e sanções estão entre principais entraves

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Fabrice Coffrini/AFP)
(foto: Fabrice Coffrini/AFP)





Após meses de encontros e de diálogos, o prazo para a conclusão das negociações sobre o programa nuclear iraniano chega ao fim hoje. Enquanto diplomatas do grupo P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) tentam impedir que Teerã desenvolva condições de fabricar uma arma atômica, a República Islâmica ; que nega qualquer finalidade militar para o projeto nuclear ; pede a queda das sanções que estrangulam sua economia. Reunidos ontem na cidade suíça de Lausanne, diplomatas envolvidos na negociação afirmaram que ainda existiam divergências para a assinatura de um acordo. ;Ainda há questões difíceis;, admitiu John Kerry, secretário de Estado americano. O chanceler Mohammad Javad Zarif, líder da delegação iraniana, disse acreditar que as partes poderiam ;fazer o progresso necessário para resolver todos os temas;.

Os atores engajados na negociação têm até a meia-noite de hoje (19h em Brasília) para concluir os trabalhos. A data foi estabelecida pelos próprios negociadores, depois de estenderem o prazo para a conclusão do processo, em novembro passado. Em entrevista à rede de televisão CNN, Kerry afirmou que a delegação dos Estados Unidos pretendia trabalhar durante a noite e nas horas remanescentes de hoje. ;Todos sabem o significado desse dia;, lembrou.

Os chanceleres do P5+1 e do Irã se reuniram por pelo menos duas vezes durante o dia de ontem. Depois de um desses encontros, fontes ocidentais afirmaram à imprensa que algumas questões permaneciam em aberto. Segundo a agência de notícias France-Presse, um dos pontos de divergência seria a duração do acordo ; o P5+1 deseja que o controle das atividades nucleares iranianas dure pelo menos 15 anos, e Teerã não estaria disposto a se comprometer por mais de 10 anos.

O regime iraniano também deseja que as sanções econômicas impostas contra o país sejam derrubadas assim que o acordo for assinado. As potências, porém, defendem a retirada gradual dos embargos adotados a partir de 2006 pelo Conselho de Segurança da ONU. Alguns países do P5+1 ainda trabalham na implementação de um mecanismo que permita o rápido retorno das sanções, em caso de descumprimento do acordo por parte de Teerã. ;Não pode haver acordo se não for encontrada uma resposta a essas questões;, observou a fonte.

Marie Harf, porta-voz do Departamento do Estado americano, observou que também ;não há acordo; sobre a questão do estoque de urânio enriquecido de Teerã. O P5+1 quer que essas reservas sejam diluídas ou enviadas para fora do Irã para reprocessamento. ;Por meses, nós conversamos sobre formas diferentes de como eles poderiam se livrar dessas reservas. Uma das opções é a diluição dentro do país, como eles já têm feito. Outra é no exterior;, indicou.

Boa vontade
Gunther Rudzit, especialista em defesa e coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, avalia que, apesar das dificuldades, há ;interesse e boa vontade; entre as nações para concluir o acordo. Além da importância do fim das sanções para a República Islâmica, o estudioso observa que o pacto é desejado pelo governo do presidente norte-americano, Barack Obama, que caminha para o fim do mandato. ;Ele quer apresentar algum resultado positivo em termos de política externa. Mas, com certeza, o Irã terá de dar todas as mostras de que vai cumprir as exigências do sistema;, pondera.

Apesar da disposição em solucionar o impasse sobre o programa nuclear iraniano, não existem garantias de que o acordo será fechado. Caso as partes falhem em concluir o processo, a possibilidade de mais uma prorrogação do diálogo não está descartada, mas a nova fase ocorreria em condições menos propícias ao sucesso. Para Rudzit, o encerramento das negociações sem um resultado concreto, porém, pode ter consequências ainda mais graves. ;Se não houver acordo ou nenhum indício de prorrogação, o processo vai desandar. A pressão por uma ação militar por parte do Senado americano e do governo israelense será muito grande;, prevê.

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, voltou a atacar o processo de negociação. ;O acordo envia a mensagem de que não apenas não se castiga a agressividade, como também a recompensa;, considerou. Netanyahu acusou o P5+1 de ;fechar os olhos; para a ameaça iraniana e ressaltou o suposto apoio iraniano a rebeldes xiitas no Iêmen. ;É impossível compreender como, no momento em que as forças apoiadas pelo Irã conquistam cada vez mais territórios no Iêmen, em Lausanne fecham os olhos diante dessa agressão. Os países moderados e responsáveis da região, em particular Israel e outros estados, serão os primeiros a sofrer as consequências desse acordo;, afirmou.


O que está em discussão

Conheça os principais pontos das negociações sobre o programa nuclear iraniano

Sanções financeiras

Enquanto Teerã pede o fim das sanções assim que o acordo for firmado, o grupo P5+1 prefere que os bloqueios sejam levantados gradualmente, à medida que os iranianos cumpram o acordo. Restrições para a importação de materiais nucleares permaneceriam vigentes. O P5+1 deseja a implementação de um mecanismo que permita a retomada das sanções, caso os iranianos não cumpram o acordo.

Duração das restrições
Teerã condiciona a redução da capacidade de enriquecimento de urânio à derrubada integral dos limites impostos pelo P5+1 depois de uma década. O grupo de países, no entanto, prefere uma remoção gradual das restrições.

Centrífugas
O Irã possui cerca de 20 mil centrífugas para o processamento de urânio e que permitiriam a rápida produção de combustível para uma bomba nuclear. As partes envolvidas na negociação estariam considerando reduzir o número de centrífugas para 6 mil. As potências mundiais também pedem que a usina de Fordo, construída debaixo de uma montanha, seja desativada.

Estoque de combustível
O P5+1 exige que o estoque de urânio enriquecido a 20% do Irã seja reduzido. O material pode ser enviado para reprocessamento em outro país ou ser diluído.

Inspeções
O grupo de potências deseja que inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) fiscalizem todas as instalações nucleares do Irã. O P5+1 deseja que áreas de controle militar também sejam inspecionadas, mas Teerã não estaria disposto a

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