Ajuda a distância

Ajuda a distância

Grupo brasileiro participa de iniciativa que utiliza imagens de satélite para mapear áreas que demandam mais atenção no Nepal, atingido recentemente por fortes terremotos. Os dados são disponibilizados on-line e orientam as equipes de resgate

» ROBERTA MACHADO
postado em 18/05/2015 00:00
 (foto: Henrique Fontes/ ICMC/USP/ Divulgação)
(foto: Henrique Fontes/ ICMC/USP/ Divulgação)



Pesquisadores e alunos brasileiros estão colaborando com o socorro às vítimas do recente terremoto no Nepal sem sair do país. A ajuda a distância é possível graças a um novo programa de construção de mapas, que permite aos voluntários usar imagens de satélite para guiar as forças humanitárias que atuam na região. A iniciativa do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP) conta com uma equipe de mais de 50 pessoas que integra uma rede colaborativa mundial.

O projeto teve início em 2011 com uma parceria com a Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Ainda naquela época, o grupo escolheu trabalhar com o Nepal justamente pela localização do país, em uma área de grande risco para terremotos ; como foi comprovado no último dia 25. O projeto trabalha em parceria com o programa de alimentação das Nações Unidas (World Food Program) e a organização humanitária Kathmandu Living Labs (KLL), que se especializa em mapas colaborativos construídos com base em sistemas abertos ao público e tecnologia móvel.

;Além disso, atuamos em conjunto com o projeto Missing Maps da Comunidade Humanitária do OpenStreetMap para fazer mapeamento preventivo em outras regiões ameaçadas por perigos de desastres. Já efetuamos, ainda, ações de mapeamento semelhantes em 2013 durante o tufão nas Filipinas;, detalha o professor João Porto de Albuquerque, coordenador da iniciativa no ICMC.

O projeto Agora, cujo nome completo é Geospatial Open Collaborative Architecture for Building Resilience against Disasters and Extreme Events, utiliza uma plataforma de mapas colaborativos criados a partir do software livre OpenStreetMap. O sistema é usado para mapear as regiões em situação de risco geológico no Nepal. A plataforma existe desde 2004 e foi adaptada pelos pesquisadores brasileiros e alemães para dar destaque às estruturas de importância crítica em caso de desastres, como escolas e hospitais. O trabalho é feito com base em imagens de satélite coletadas por empresas comerciais especializadas e cedidas para o trabalho humanitário.

Consultando as fotos tiradas do espaço, voluntários podem atualizar os mapas e indicar a localização de ruas, prédios, pontes e estradas, além de apontar quais estruturas oferecem risco para as equipes que levam medicamentos, mantimentos e outros recursos para comunidades atingidas pelos tremores. ;Com base no que o pessoal mapeou, fazemos o contraste com as imagens mais novas, e aí conseguimos detectar as áreas devastadas pelo terremoto. Há imagens chocantes, de áreas totalmente destruídas que somem do mapa;, conta Roberto dos Santos Rocha, aluno de doutorado em ciências da computação na USP e voluntário do Agora desde o ano passado.

As informações obtidas são registradas no Grupo Humanitário do OpenStreetMap (HOT, na sigla em inglês), em que uma lista de tarefas organiza o trabalho a ser desempenhado pelos mapeadores. A rede já conta com 4,8 mil colaboradores em todo o mundo. As redes sociais também são monitoradas pelo grupo, que ainda acompanha a publicação de imagens dos estragos e demarca os danos nos mapas.

Embora a grande maioria dos voluntários do ICMC seja composta por alunos da área de tecnologia, há tarefas para especialistas em outras áreas, como engenharia ambiental e geografia, e até mesmo para os trabalhadores menos experientes em mapeamento. ;É muito enriquecedor ver que o trabalho da gente, mesmo a distância, consegue ajudar as pessoas;, testemunha Rocha.

Danos
Após o desastre do último dia 25, o grupo intensificou o ritmo de trabalho e registrou milhares de estradas e prédios danificados pelo terremoto. A ação foi reforçada na semana passada, depois que o Nepal foi atingido por um segundo tremor. ;As imagens que estamos analisando mostram diversos vilarejos na zona rural em que casas foram completamente devastadas, e é possível identificar nas imagens as tendas usadas pelas pessoas como alojamento temporário. O mapeamento dessas tendas ajuda as equipes humanitárias no planejamento logístico de atendimento;, descreve o professor João Porto Albuquerque, coordenador da iniciativa no ICMC.

As equipes de todos os países envolvidos na parceria estão organizando encontros e mutirões para atender as vítimas dos tremores. Os grupos trocam informações por chats e têm acesso a informações de integrantes que auxiliam o trabalho diretamente de Katmandu, capital nepalesa. ;Desse modo, as pessoas podem receber em primeira mão informações sobre a situação no local e aprender mais sobre formas úteis de ajudar as equipes de resgate;, ressalta Melanie Eckle, assistente de pesquisa do grupo em Heidelberg.

A pesquisadora atuou na capital nepalesa por quatro meses há um ano, como parte de um estágio para a Kathmandu Living Labs. O trabalho serviu como base para a preparação contra terremotos em prédios da cidade e para a convocação de voluntários para trabalhar com a plataforma OpenStreetMap. ;Estando em contato com o time do KLL, eu pude passar informações sobre necessidades e prioridades para o grupo em Heidelberg e em São Carlos, e assim facilitar a ajuda coordenada do nosso lado;, conta Eckle.

O grupo brasileiro tem planos de expandir o programa e desenvolver também um sistema para o planejamento de rotas em áreas afetadas por desastres naturais. O software pode ajudar equipes humanitárias, por exemplo, a alcançar comunidades isoladas por estradas bloqueadas. Equipes voluntárias com acesso ao local podem colaborar com o sistema, marcando as estradas danificadas. O programa vai usar essas informações para avaliar a melhor rota, agilizando o acesso às áreas atingidas pelo terremoto.

Agora
O acrônimo Agora é inspirado na palavra ágora, um termo que descreve um espaço para a reunião de pessoas. Assim como os centros gregos, que abrigavam discussões políticas, a iniciativa brasileira procura ser um canal de compartilhamento de conhecimentos multidisciplinares.

Milhares de mortes
O terremoto que atingiu Katmandu e arredores alacançou magnitude 7,9 na escala Rtichter, afetando 8 milhões de pessoas. Os números oficiais de mortos superam 7 mil, e havia cerca de 14 mil feridos antes de um segundo tremor abalar o país na última terça-feira. Estima-se que mais de 70 pessoas tenham morrido no abalo sísmico secundário.

Acesse
Conheça melhor o trabalho do Agora e veja como colaborar no site www.agora.icmc.usp.br.



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