China avança ao mar

China avança ao mar

Documento sobre estratégia militar de Pequim revela presença de navios de guerra além das águas territoriais e contempla quatro áreas

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 27/05/2015 00:00
 (foto: Ted Aljibe/AFP - 30/6/14)
(foto: Ted Aljibe/AFP - 30/6/14)



Em uma guinada radical na política de defesa, o Exército de Libertação Popular anunciou ontem que os seus navios de guerra vão ampliar a presença e o patrulhamento para além das águas territoriais chinesas. O inédito livro branco intitulado Estratégia militar da China, publicado pelo Escritório de Informação do Conselho de Estado, muda o foco da ;defesa das águas costeiras; para a ;proteção dos mares abertos;. A nova orientação coincide com o aumento de tensão entre Pequim e os vizinhos pela exploração comercial da pesca e pela soberania de ilhas do Mar do Sul da China. A disputa pelos arquipélagos preocupa os Estados Unidos, que veem com reservas a ascensão bélica e econômica da China. Na última segunda-feira, a imprensa estatal de Pequim alertou sobre uma ;guerra inevitável;, caso os EUA não reduzam a pressão sobre o governo do presidente Xi Jinping.

A nova política de ;defesa ativa; do regime comunista foca quatro áreas-chave: o oceano, o espaço exterior, o ciberespaço e o armamento nuclear. Segundo a agência de notícias chinesa Xinhua, o relatório de 9 mil palavras sublinha ;os princípios de defesa, autodefesa e ataques preventivos;. ;Nós não atacaremos, a menos que sejamos atacados, mas, certamente, vamos responder se formos agredidos;, destaca o documento, que antevê ;novas ameaças do hegemonismo, da política de poder e do neointervencionismo; e respalda o fortalecimento da cooperação em segurança internacional. Entre o início da década de 1950 e o fim dos anos 1970, a Marinha chinesa priorizou uma estratégia de defesa costeira. Desde 1980, ela tem se engajado numa transformação das operações offshore (;afastado da costa;, na tradução literal). A política apontada por Pequim é de ampliação dessa tendência.




O contencioso no Mar do Sul da China (veja o mapa) também foi citado no texto. ;Em relação a temas ligados à soberania territorial e aos interesses e direitos marítimos da China, alguns de seus vizinhos tomam ações provocativas e reforçam sua presença militar nos arrecifes e ilhas que ocuparam ilegalmente. Alguns países externos estão ocupados se intrometendo em assuntos do Mar do Sul da China; alguns poucos mantêm vigilância marítima e aérea contra a China. É, portanto, tarefa de longa data para a China salvaguardar seus direitos e interesses marítimos;, afirma o nono livro branco emitido por Pequim desde 1998 e o primeiro a abordar especificamente a estratégia militar da potência. De acordo com o documento, o que está em jogo no Mar do Sul da China não é o destino de atóis ou de ilhas desabitadas, mas a própria natureza da soberania chinesa.


"Nós não atacaremos a menos que sejamos atacados, mas certamente vamos responder, se formos agredidos;
Trecho do livro branco Estratégia militar da China


O texto revela que as forças armadas vão ganhar qualidade nas operações baseadas em tecnologia da informação. O regime de Xi Jinping pretende acelerar o desenvolvimento de uma ;força cibernética;, a fim de enfrentar ;graves ameaças on-line à segurança;.

Taiwan

No mesmo dia em que a China tornava pública a sua política de ;defesa ativa;, Taiwan divulgou a Iniciativa de Paz no Mar do Sul da China. ;O governo da República da China (ROC, Taiwan) reitera que, sob a perspectiva da história, da geografia ou do direito internacional, as Ilhas Nansha (Spratly), Shisha (Paracel), Chungsha (Macclesfield Bank) e Tungsha (Pratas), bem como as águas em torno, são parte inerente do território da ROC). Isso é indisputável;, afirma o texto ao qual o Correio teve acesso. O documento recomenda contenção, proteção da paz e estabilidade e pede que as partes evitem ações unilaterais que possam escalar as tensões. Também exorta o respeito aos princípios do direito internacional, a resolução de disputas de soberania e a criação de um mecanismo de cooperação regional.


Os pilares
da defesa

As quatro áreas cruciais citadas no documento do Conselho de Estado chinês:

Oceano
O foco de Pequim muda da defesa das águas costeiras para a proteção dos mares abertos.

Espaço exterior
A China se opõe à corrida espacial e promete proteger suas ;receitas espaciais;.

Ciberespaço
O governo chinês vai criar uma ;força cibernética; para contrapor ameaças on-line à segurança.

Armamento nuclear
O documento revela que a China jamais vai aderir a uma corrida por armas nucleares e promete seguir contribuindo pela paz mundial.



Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação