Mercado vê PIB 2% menor

Mercado vê PIB 2% menor

Com a queda de 0,84% do IBC-Br, resultado bem pior do que as expectativas, analistas afirmam que o Produto Interno Bruto levará um tombo superior ao esperado para 2015 se o Banco Central seguir subindo juros

PAULO SILVA PINTO
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 24/3/15)
(foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 24/3/15)


A queda da produção do país não para de causar surpresa pela intensidade e duração. Foi conhecido ontem mais um número que mostra isso, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de abril, que registrou queda de 0,84% em relação a março. A projeção do mercado era de uma redução mais amena, de 0,4%. No mês anterior, já havia sido registrada diminuição, de 1,5%. É a sexta alta seguida e a oitava em 12 meses. Em relação a abril do ano passado, o tombo é de 3,1% ; os analistas projetavam, em média, 2,4%.

;A economia brasileira não está desaquecida, está em queda livre;, afirmou o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Luís Oreiro. ;A perda de ímpeto da economia é generalizada e se aprofunda, conforme as notícias de falências, desemprego e crédito contido se espalham nos jornais;, disse a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Marzola Zara.

Na comparação com abril do ano passado, o índice do BC apresentou queda de 3,1%, enquanto a expectativa do mercado era de redução de 2,4%. ;Isso reflete a queda da produção industrial, de 1,2%, do comércio varejista, de 0,4%, e da receita real de serviços, de 0,5%, nos dois casos em relação a março;, assinalou Thaís.

Para a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, o Brasil vive uma situação de pessimismo ;que não está descolada da realidade;. Ela explicou que o enfraquecimento da demanda é exatamente o objetivo da política monetária em curso, adotada para levar a inflação ao centro da meta de 4,5% até o fim de 2016. Destacou também que o ciclo ainda não se completou: parte dos efeitos deletérios da alta dos juros dos últimos meses ainda estão para ser sentidos.

Zeina defendeu que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC interrompa as altas nas próximas reuniões. ;Essa ousadia é necessária neste momento. Há condições para uma parada técnica nas altas da Selic. Depois, se for necessário, volta-se a subir. Há algum tempo, o BC não teria essa flexibilidade. Agora sim, pois se acredita mais no empenho da instituição para buscar o centro da meta de inflação;, afirmou. Para a economista, o risco hoje de desancorar as expectativas de inflação para 2016 é menor do que outro, o de exagerar na dose dos juros e prejudicar ainda mais o crescimento econômico. O presidente do BC, Alexandre Tombini, tem reiterado o compromisso de levar a inflação a 4,5% em 2016. Para analistas de mercado, o BC poderá elevar a Selic dos atuais 13,75% a 16% até o fim deste ano.

Alternativa

Em relação aos gastos públicos, porém, Zeina defende um aperto mais rigoroso, o que permitiria ao BC limitar a alta de juros. ;É na área fiscal que mais se tem de ajustar. Esse trabalho teria um efeito simbólico, no restabelecimento da credibilidade, mas também um grande efeito real, pois baixaria a inflação e daria um alívio à indústria. As empresas estão muito pressionadas por aumentos de custos, que elas não podem repassar ao consumidor;, disse.

Oreiro, da UFRJ, defendeu que se amenize a política monetária, mas também a fiscal. Isso é possível, disse, caso se estabeleça que a convergência do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta de 4,5% deva ocorrer até 2017 e não até 2016, como se pretende atualmente. ;O próximo ano é um prazo muito curto levando-se em conta que tivemos um choque de preços no início do ano;, disse, lembrando das altas nos valores que os consumidores pagam pela energia elétrica e combustíveis. Ele também considera o superavit primário de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) um objetivo ;irrealista;, levando-se em conta que houve deficit nas contas públicas descontados os juros no ano passado. ;Uma dificuldade adicional para o governo chegar a isso é que não poderá mais usar as pedaladas aplicadas no passado.

Com o atual aperto monetário e fiscal, Oreiro acredita que a queda do PIB neste ano será próxima a 2%, avaliação compartilhada por outros economistas. Atualmente, o boletim Focus, do BC, aponta para redução de 1,35%, de acordo com a mediana dos analistas de instituições financeiras. No Relatório de Inflação de março, o BC projetou uma queda de 0,5% para a economia brasileira neste ano. Para a Rosenberg Associados, apenas no segundo trimestre do ano a diminuição será de 1%. O professor da UFRJ aposta em uma mudança da política monetária para impedir que a redução do PIB seja muito grande. ;Muita gente do mercado está defendendo isso;, argumentou.

O IBC-Br inclui a estimativa de desempenho da agropecuária, indústria e serviços, acrescida de impostos sobre produtos. Trata-se de uma metodologia diferente da que é usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o PIB, que, mais completo, representa a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.


  • Tombo geral
    Índice de atividade econômica do BC mostra economia desabando

    Meses Variação (em %)

    Mai/14 -0,04
    Jun/14 -1,58
    Jul/14 1,25
    Ago/14 0,07
    Set/14 0,68
    Out/14 -0,41
    Nov/14 -0,17
    Dez/14 -0,97
    Jan/15 -0,16
    Fev/15 0,07
    Mar/15 -1,51
    Abr/15 -0,84

    Fonte: Banco Central

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