Educação domiciliar

Educação domiciliar

» MÔNICA SIFUENTES Desembargadora federal
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Fernando Lopez/CB/D. A Press)
(foto: Fernando Lopez/CB/D. A Press)


Quem teve a oportunidade de assistir ao filme Ela, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2014, terá, certamente, compreendido, ainda que com os arremates poéticos de um estranho romance pós-moderno, a extensão do drama da solidão humana na sociedade tecnológica em que vivemos. A história contada pelo diretor Spike Jonze retrata um homem tímido, solitário ; Theodore ;, que adquire um sistema operacional avançado, com controle de voz, para auxiliá-lo nas atividades diárias.

A eficiente secretária virtual, que atende pelo nome de Samantha, recolhe todos os dados existentes sobre o patrão e, a partir daí, vai construindo a sua própria personalidade, na medida certa para agradá-lo. Acrescente-se a isso a voz sensual da atriz Scarlett Johansson e já se pode adivinhar as consequências dessa mistura do personagem central com uma assistente cibernética que vai aos poucos tomando vida própria, se tornando indispensável e seduzindo-o como se fosse de carne e osso.

O filme é bem construído e mostra cenas engraçadas, como uma em que ele caminha pela rua conversando com Samantha e a câmera vai mostrando as pessoas à sua volta andando apressadas, todas entretidas, falando, rindo e gesticulando sozinhas, como uma legião de zumbis do seriado Walking dead. Ficção científica, não é? Bom, basta parar um pouco em qualquer lugar desse planeta onde funcione um aparelho celular e olhar em volta.

A lembrança desse filme me ocorreu ao saber que o STF colocará em julgamento, este ano, o processo, da relatoria do ministro Luís Roberto Barroso, em que se discute a constitucionalidade da opção pelo ensino ministrado pelos próprios pais, fora das escolas, no ambiente doméstico. O número de famílias que optam por educar os filhos em casa vem crescendo, mas o modelo não é reconhecido pelo Ministério da Educação. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação estabelece a obrigatoriedade da frequência à escola, e o Código Penal considera como crime de abandono intelectual a omissão dos pais em providenciar o ingresso na escola dos filhos em idade escolar. Calcula-se que cerca de 2.500 famílias já adotam esse modelo de ensino no Brasil.

Duas reflexões, ao menos em princípio, fazem-se necessárias: primeiro, se o confinamento da criança ao ambiente familiar para estudo não a estaria privando do convívio com pessoas diferentes do seu círculo de relacionamento e, em consequência, reforçando postura de isolamento, facilitada e difundida pelas novos meios de comunicação; segundo, se o aumento do número de famílias que assumiram o risco de educar os filhos em casa, ainda que contrariamente à lei, não revela, na verdade, desconforto com o modelo de escola vigente, que já não seduz, em face das inumeráveis possibilidades de aprendizado facultadas pelas novas tecnologias.

Quanto ao primeiro ponto, é verdade que nunca antes se esteve tão conectado a todos e a ninguém ao mesmo tempo. Essa forma moderna de alienação ou autismo coletivo proporciona fenômeno social bastante interessante: as pessoas estão ligadas a centenas de outras, mas paradoxalmente continuam sozinhas, no mundo particular e ilusório que criaram para si, e que pode caber dentro do seu bolso. Algumas questões surgem dessa constatação: o que nós queremos é reforçar esse sistema, trazendo os filhos cada vez mais para dentro de casa? Ou devemos tentar meios mais eficazes de inseri-los no ambiente social? Vale a pena isolar os filhos dentro de uma bolha dourada, subtraindo-os do convívio com os outros?

Não se pode negar ser educativo o espaço de convivência proporcionado pelas escolas, ainda que com todos os problemas. As escolas, na verdade, bem ou mal, reproduzem os ambientes que os alunos encontrarão do lado de fora dos muros e preparam as crianças e os adolescentes para a vida. As crianças têm que conviver com pessoas, com valores e crenças diferentes, conhecer novas realidades, e isso é um ganho cultural que as faz aprender, respeitar, tolerar e valorizar as diferenças.

A formação social dos cidadãos é função da escola, ideal que vem desde os gregos, com a Paideia. A educação em casa, ao seu turno, tem o seu aconchego, a segurança e traz para os pais a certeza de que os filhos não estão se submetendo a bullying nem recebendo informações erradas. Os defensores do método dizem que os filhos aprendem a ser independentes e ter o seu ritmo, respeitando as individualidades e os métodos próprios de aprendizado, possibilitando uma educação que pode ser também mais atrativa e lúdica.

Há muito para se refletir e ponderar nesse tema. Preocupa-me, no entanto, o fato de que a nossa socialização está cada vez menor. Não creio ser argumento válido o de que a falta de convívio poderá ser suprida por aulas extras em escolas de idiomas ou pela prática de esportes. O compromisso de convivência diária e prolongada com outras crianças, da mesma ou de idades diversas, de culturas e formação familiar diferentes, proporciona experiência rica, única, que somente a escola pode oferecer. Não é o mesmo que se encontrar com essas pessoas uma ou duas vezes por semana, por pouco tempo, para compartilhar uma atividade.

Ainda que o modelo de ensino, na maior parte das escolas brasileiras, especialmente as públicas, já não seja tão atrativo em um mundo onde as Samanthas ou Siris são cada vez mais reais, não é o caso de se abandonar a escola. Talvez seja hora de reformulá-la. Afinal, vivemos época de profundas mudanças. Amy, amiga de Theodore, que mantém sólida amizade com um homem virtual, sintetiza em uma frase a justificativa dessa loucura: ;O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável;. Que as opções sejam para a nossa felicidade.


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