Asas à imaginação

Asas à imaginação

Exposição de brinquedos feitos à mão traz recordações de infância para adultos: as peças artesanais ajudam a criar histórias

Nahima Maciel
postado em 01/07/2015 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press








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(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )


A história de um brinquedo começa com seu dono. Não necessariamente aquele que o constrói, mas aquele que o recebe e será, a partir de então, o responsável por inventar a história do objeto. Ao ser recebido, o brinquedo ganha vida e propósito. Passa a ser personagem de uma narrativa mágica que encontra abrigo na fantasia de quem narra. Essa ideia sempre fascinou Sálua Chequer, dona das 1.028 peças expostas em Brinquedos à mão, na Caixa Cultural. Recolhidos durante viagens a cidades do Nordeste nos últimos 30 anos e fruto de um interesse que originou um mestrado, os brinquedos fascinam também os adultos, especialmente quando reconhecem nas peças objetos da própria infância. Bonecas de pano, carrinhos de madeira, casinhas de boneca, fantoches, marionetes, móbiles, piões, pipas, cobrinhas de madeira e outros bichos, panelinhas de barro, cestarias e outros objetos tão criativos quanto as mentes das crianças.

A advogada Maria de Fátima Dias, 60 anos, nem lembrava mais a época em que brincava com bonequinhas de pano. Na semana passada, ela levou a neta Aline, 7, para visitar a exposição. A menina preferiu se divertir na parte interativa do espaço, enquanto a avó descobria, maravilhada, cenas de sua própria infância. ;É tudo da minha época;, contou. ;Tinha essas bonequinhas que nem lembrava mais. Tinha marionetes também. A gente não vê mais essas coisas feitas à mão. E são coisas de valor, a pessoa leva tempo para fazer. Hoje, não se dá valor, se vai numa loja e se compra tudo, e vem tudo andando, falando.;


Restos de madeira
É realmente difícil concorrer com os brinquedos comercializados pela indústria. A tecnologia é capaz de implantar um sem número de luzes, vozes, piruetas e movimentos em todo tipo de objeto. O aproveitamento de materiais e a criatividade são as características mais marcantes da coleção de Sálua. Essa capacidade de criar a partir do inusitado acaba transferida para o brinquedo e para a criança que o manuseia. A pedagoga Ana Maria Teixeira, 63 anos, ficou encantada com a exposição e lembrou que, muitas vezes, as crianças participam até da elaboração desse tipo de brinquedo. ;Eles dão uma amplitude de respostas à criança. São importantes para não ficar só na frente do computador;, repara. ;E esses brinquedos incentivam contar histórias, há uma interação maior com a criança. Hoje, tudo já vem com história, os jogos de hoje são muito prontos.;


A bibliotecária Maria Aparecida, irmã de Ana Maria, mergulhou nas lembranças ao ver as casinhas de boneca mobiliadas com móveis feitos de caixas de fósforo, restos de madeira e até de garrafa pet. ;É muito bonitinho, eu brincava com isso, juntava os cacarecos todos e brincava de feira;, lembra. Mas foi com uma boneca de pano que a bibliotecária mais se emocionou. A lembrança não é exatamente da infância, mas dos tempos em que trabalhava em uma escola primária. Havia um livro, ela conta, cuja personagem era uma bonequinha negra de pano que era reproduzida com perfeição pela mãe de um aluno. Exposta em uma mala que abriga outras dezenas de bonecas, Maria Aparecida encontrou a personagem. ;É igualzinha;, constatou.

O brinquedo mais antigo da exposição tem mais de 50 anos e pertenceu a Sálua, que começou a colecionar seriamente há 15 anos, quando decidiu estudar a cultura popular. O acervo exposto em Brasília vem exclusivamente do Nordeste, mas a colecionadora tem peças de outros estados e países, como Dinamarca, Turquia, Portugal, Espanha, Índia e Nepal. ;O brinquedo ganha vida quando cai na mão de uma criança;, aponta Sálua. ;Na hora que você disponibiliza uma boneca de pano, um carrinho de lata, surgem possibilidades de brincar, só que quem cria é a criança, não tem manual de instrução.;

Cearense radicada em Brasília há uma década, a servidora pública Raquel Carvalho, 40, levou a filha e uma amiga para visitarem a mostra, mas as meninas preferiram os fantoches do educativo, nos quais podiam tocar, à coleção exposta na sala. ;É difícil as crianças ficarem só olhando, porque elas querem tocar;, constata Raquel, que reconhece a própria infância nas peças expostas. ;Estou vendo os brinquedos que usava quando era criança e hoje a gente ainda acha quando vai ao mercado central. Até compro alguns para minha filha, mas é difícil concorrer com os brinquedos de hoje. Eu é que fico encantada.; As panelinhas e as ;baterias; ; um conjunto de utensílios de alumínio ; eram peças constantes nas brincadeiras da cearense.


1.028
Quantidade de brinquedos expostos

Brinquedos à mão
Exposição com 900 brinquedos. Visitação até 23 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Qd 4, Lote 3/4).


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