E a analista estava certa

E a analista estava certa

Economista demitida pelo Santander por dizer que o cenário iria piorar com a reeleição de Dilma receberá R$ 450 mil por danos morais

postado em 12/09/2015 00:00
 (foto: InfoMoney/Reprodução
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(foto: InfoMoney/Reprodução )


O Santander foi condenado pela Justiça trabalhista a pagar uma indenização de R$ 450 mil, por danos morais, à analista de investimentos Sinara Polycarpo. A economista foi demitida pelo banco em julho do ano passado por ter alertado os clientes da instituição financeira de que a economia iria piorar caso a presidente Dilma Rousseff fosse reeleita.

Pressionado pelo governo, o Santander alegou que Sinara, que ocupava o cargo de gerente de investimentos do banco, havia violado o código de ética da casa e a dispensou. Um ano depois, a realidade mostra que a avaliação da economista estava correta. E, na avaliação da juíza Lúcia Toledo Rodrigues, da 78; Vara Trabalhista, que julgou o caso, quem teve conduta irregular foi o Santander ; a instituição ainda pode recorrer.

Na época, o mercado vinha sendo fortemente influenciado pelas pesquisas eleitorais. Em análise encaminhada a investidores, a equipe do Santander, comandada por Sinara, alertou que, se Dilma subisse nas intenções de voto, o resultado seria o aumento do dólar, a elevação dos juros e a queda da bolsa.

O conteúdo do documento foi classificado como ;lamentável e inadmissível; pela presidente. Reação pior teve o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ;Essa moça não entende p... nenhuma de Brasil e de governo Dilma. Manter uma mulher dessas num cargo de chefia, sinceramente... Pode mandar ela embora e dar o bônus dela para mim;, afirmou Lula.

O Santander levou a sugestão ao pé da letra. Não apenas demitiu a funcionária, como publicou um pedido de desculpas em seu site, no qual manifestou a ;convicção de que a economia brasileira seguirá sua trajetória de desenvolvimento;. Decorrido pouco mais de um ano, o dólar saiu de R$ 2,52 para R$ 3,88, a taxa básica de juros saltou de 11% ao ano para 14,25%; e o Ibovespa, termômetro dos negócios da Bolsa de Valores de São Paulo, caiu de 54 mil para 46,4 mil pontos. Além disso, o país entrou em recessão e perdeu o grau de investimento da Standard & Poor;s, a principal agência de classificação de risco do mundo.

Por se sentir injustiçada, Sinara entrou com ação trabalhista contra o banco, que acusou de submeter-se a interesses políticos. O Santander alegou que ela tinha violado o código de ética da instituição ao permitir a divulgação de análise com conotações político-partidárias. Na sentença, proferida em 5 de agosto passado, a juíza Lúcia Toledo Rodrigues deu razão à analista.

Segundo a magistrada, ;é inconcebível dissociar política e economia em uma análise de investimentos;. Ela observou ainda que o conteúdo da mensagem encaminhada por Sinara aos clientes do Santander era uma ;constatação uníssona entre os analistas de mercado;. Na avaliação da juíza, foi o banco quem faltou com a ética, ao macular a carreira profissional de Sinara e ter manifestado a certeza de que a economia brasileira se manteria sólida.

A afirmação, de acordo com a juíza, foi uma demonstração de falta de comprometimento com os clientes. ;Se eles acreditassem na assertiva do banco, fatalmente amargariam prejuízos financeiros, dadas a retração da atividade e a desvalorização do nosso câmbio e dos ativos negociados na bolsa de valores;, afirmou a magistrada.



;É inconcebível dissociar política e economia em uma análise de investimentos;

Lúcia Toledo Rodrigues, juíza do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2; Região

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