Base, 55 anos

Base, 55 anos

Vitórias, alegrias, crises e tristezas marcam a rotina do maior hospital do DF. Se a burocracia e a falta de dinheiro e pessoal atravancam o dia a dia do centro, a força de vontade, a humanização e a competência médica fazem a diferença

» OTÁVIO AUGUSTO » ROBERTA PINHEIRO
postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
O barulho da ambulância. As portas se abrem e os bombeiros retiram um acidentado no trânsito da cidade. A cena se repete centenas de vezes ao dia no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). A entrada da emergência é apenas uma das muitas que dão acesso ao universo que é a unidade. Há 55 anos, o destino dos casos mais graves da saúde tem o mesmo endereço na 101 Sul.

No início, a obra se destacava no meio do cerrado e era uma inovação para a medicina. ;Era um projeto apaixonante;, lembra um médico pioneiro. Hoje, ela continua chamando atenção. Contudo, por motivos diferentes. Os corredores largos lembram uma cidade. A movimentação não para. Seja dos 6 mil funcionários, dos pacientes, dos acompanhantes e até dos ambulantes e dos mendigos que ficam do lado de fora. Na porta dos elevadores, 12 no total, filas se formam e é melhor entrar, mesmo se o destino não for igual ao indicado no painel ; para não perder viagem.

Por lá, a cura, a vida e a morte fazem parte da rotina, em meio às marcas indeléveis do sucateamento da rede pública de saúde. Os vestígios da crise estão estampados no prédio e no olhar de quem procura ; e algumas vezes, não encontra ; tratamento. A capacidade máxima do pronto-socorro é de 96 leitos. Mas o número de pessoas internadas ultrapassa a marca: a média de internação é de 180. O gargalo ficou ainda maior depois da redução da carga horária de funcionários. A situação colocou em xeque o funcionamento de leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e salas de cirurgia, entre outros serviços.

Desde o dia da inauguração, poucas reformas de modernização foram executadas. Nenhuma delas aumentou espaço da unidade. Se todos os aparelhos do Hospital de Base forem ligados ao mesmo tempo, a energia elétrica cai devido à obsolescência da subestação de fornecimento ; a mesma desde a construção. O aparelho de ressonância magnética é completamente ultrapassado, mas continua sendo usado.

Apesar do quadro agoniante, o HBDF busca a cada dia encontrar mecanismos para lidar com as adversidades. Foi assim que surgiu, por exemplo, o trabalho de voluntariado na unidade. Em cada enfermaria, a equipe usa os recursos disponíveis para atender à população, nem que o remédio seja a conversa. O Base é respeitado em diversas áreas médicas. Politraumas, patologias onco-hematológicas e neurocardiovasculares, cirurgias cardíacas, neurocirurgias e transplantes, entre 40 especialidades. Bem diferente do que imaginou o então presidente, Juscelino Kubitschek. A ideia original ; quando se chamava Hospital Distrital ; era ser um pronto-socorro. O plano não vingou. O trabalho cresceu, mas a unidade continua a funcionar.



Uma cidade com problemas


Para solucionar o quadro agonizante de sobrecarga e falta de insumos, a Secretaria de Saúde terá que repensar o modelo de gestão dos recursos do Hospital de Base. Há poucas semanas, prestes a iniciar as comemorações pelo jubileu de esmeralda, a unidade foi apunhalada com a diminuição da carga horária de 3,5 mil funcionários terceirizados. A medida provocará o fechamento de 20 unidades de terapia intensiva (UTI), gerais e pediátricas, além de 30 leitos das especialidades de neurologia, urologia, infectologia, pneumologia, gastroenterologia, endocrinologia, reumatologia, ginecologia oncológica, angiologia e mastologia. Haverá também a diminuição no atendimento da clínica médica, do pronto-socorro e de seis centros cirúrgicos.
A fim de minimizar o impacto, o hospital alterou as escalas. Mesmo assim, perdeu poder de atendimento. ;Só não ficou pior pela qualificação da equipe, organização gerencial e boa vontade dos funcionários. Isso nos abalou muito. É impossível jogar futebol sem a bola;, explicou Rodrigo Nascimento Pinheiro, diretor em exercício de atenção à saúde e cirurgião oncológico. Seriam necessários 392 novos técnicos de enfermagem e 114 enfermeiros para continuar o atendimento sem danos à população.
;A saúde do DF passa por um período especialmente difícil e essa crise é sentida fortemente pelo Base. Todo problema sentido na rede, aqui é mais acentuado;, completa. A área de politraumas ; uma das mais procuradas ; é conhecida pela qualidade do atendimento. Na maioria dos acidentes graves, por exemplo, as vítimas são transportadas até o Base, onde médicos de especialidades variadas, como cirurgia geral, cirurgia torácica, neurologia e traumato-ortopedia atuam em conjunto. ;Temos uma sobrecarga para os profissionais;, resume Rodrigo.




Referência no centro-oeste


A fama da unidade especializada ultrapassa os limites do DF. Em alguns tratamentos, cerca de 70% dos pacientes não são daqui. O renome é associado à excelência do corpo clínico. ;Os médicos estão cada vez mais capacitados. Procuramos todos os dias atender com cada vez mais qualidade, segurança e rapidez. Criou-se, nesses anos, o conceito de que, se o problema não for resolvido aqui, não será em outro lugar;, diz Alba Mirindiba, coordenadora do Hospital de Base.
A paraibana Núbia Andrade Medeiros, 33 anos, não conhecia o tratamento de ponta disponibilizado pelo HBDF. Chegou a Brasília no desespero de encontrar um diagnóstico para a doença do filho. ;Quando ele tinha três meses, começou a ficar com a pele esverdeada. Procurei um médico e no início achei que era falta de sol. Mas, com o tempo, piorou. Nenhum médico em João Pessoa atendia o Iury bebê;, conta. Núbia mandou os exames para uma amiga que trabalhava com um médico em Brasília. O profissional recomentou que a mãe trouxesse a criança para o centro hospitalar.
Desde que deram entrada pela primeira vez na unidade já se passaram mais de seis anos. Hoje, a família mora em Arniqueiras. Iury nasceu só com um rim e, por isso, precisa de tratamento. A única chance de cura é o transplante. Em meio às visitas periódicas, a mãe encontra tempo para brincar no parquinho com a criança. ;Saí de uma cidade do interior para um centro grande, sem conhecer nada, mas sabia que aqui era o lugar certo;, afirma.




Ser humano, o bem maior


A movimentação de médicos, enfermeiros e profissionais da saúde é o principal motor do HBDF. O combustível da engrenagem é a dedicação. ;Não são poucos os desafios, o hospital é feito de pessoas e a entrega faz funcionar e

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