A narrativa de Deus

A narrativa de Deus

dad squarisi dadsquarisi.df@dabr.com.br
postado em 17/09/2015 00:00


;Meu colega sofre de irremediável falta de criatividade. Seus personagens têm sempre o mesmo fim.; Dias Gomes referia-se a Deus. Sem modéstia, comparava-se ao Senhor, cujas criaturas não têm alternativa ; morrem no final. Punha-se em patamar superior por uma razão simples. Ele era capaz de criar narrativas com desenlaces diferentes.

A observação vem a propósito do pacote anunciado por Joaquim Levy & Cia. mesmeira. Em mundo marcado pela inovação, eles voltam ao passado. Recorrem a receitas velhas pra responder a problemas tão antigos quanto o andar pra frente. O governo fez a farra com o dinheiro do cidadão. Ficou no vermelho. Como não planta moeda, alguém tem de pagar a conta. Quem? Ele mesmo ; o contribuinte.

Levy anuncia a volta de cadáver enterrado em 2008. A criatura ressuscitou com a mesma certidão de nascimento ; Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, mais conhecida pela sigla CPMF ou pelo apelido Imposto do Cheque. Provocado por repórter na entrevista coletiva, o ministro riu ao estabelecer o limite do provisório. ;Uns quatro anos;, chutou. Você acreditou? Nem eu.

A medida prova que a turma pacoteira faltou à aula em que o professor tratou de Giuseppe Lampedusa. O escritor italiano ensinou lição pra lá de útil a quem joga no time do faz de conta. O enganador finge que faz, mas finge tão bem que é capaz de convencer os desavisados. Ei-la: ;Tudo deve mudar pra que tudo fique como está;. Eis o xis da questão: nada mudou. Nem o nome.

Que falta de criatividade! Aqui tudo muda na aparência, mas, no fundo, fica como está. É eterno enquanto dura, resumiu Vinicius. E tem a duração da permanente no cabelo, completou Millôr. Você dorme goiano, acorda tocantinense. Vai ao Palestra Itália, encontra o Allianz Parque. Carrega real na carteira, depois encontra cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro outra vez, real de novo.

Tivemos oito constituições. A de plantão nasceu com a morte anunciada. Previa a revisão cinco anos depois de promulgada. A pobre foi modificada sem estar concluída. E as leis? Elas obedecem a mandamento inelutável. São feitas para morrer uns passos adiante. Todas trazem um recadinho: ;Revogam-se as disposições em contrário;.

Etc. Etc. Etc.

Eis o xis da questão. Nesta alegre Pindorama, a instabilidade corre solta. Porém o velho usa fantasia. Disfarça-se de novo. O aluno não é reprovado: vai para a recuperação. O jovem não namora. Fica. O governo não resolve os problemas. Adia. Mas... eis que a CPMF voltou ; velha, reprovada e com a mesma cara feia. Vamos combinar? Joaquim Levy joga no time de Deus.

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