Inflação não dá folga e se aproxima de 10%

Inflação não dá folga e se aproxima de 10%

IPC-S, calculado pela Fundação Getulio Vargas, chega a 9,65% no acumulado em 12 meses. Reajuste dos combustíveis deve pressionar ainda mais o custo de vida, que já é o segundo mais elevado entre um grupo de 41 países analisados pela OCDE

RODOLFO COSTA
postado em 02/10/2015 00:00
A carestia está ficando incontrolável. O governo acreditava que a inflação daria trégua no segundo semestre, mas ela ganhou força. Os índices de setembro mostram que o custo de vida está acima do esperado pelos analistas ; e os resultados ainda não captaram o efeito do recente reajuste de combustíveis. O Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) fechado do último mês ficou em 0,42%, divulgou ontem o Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV). Em 12 meses, o indicador apresenta alta de 9,65%. O Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), divulgado na terça-feira, subiu 8,35% no mesmo período, refletindo em boa parte a disparada do dólar. Com números como esses, a inflação brasileira está muito acima da verificada na maioria dos países do mundo.

É o que mostra estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne as economias mais ricas. Segundo o levantamento, o Brasil tem o segundo maior custo de vida entre 41 nações pesquisadas. Nos países da organização, a carestia acumulada em 12 meses até agosto ficou em 0,6%. Na Zona do Euro, a taxa foi de 0,1%. Já em terras tupiniquins, a alta de preços alcançou 9,53%, ficando atrás apenas da registrada na Rússia ; que está sob embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e pela União Europeia devido aos conflitos armados na Ucrânia.

E a situação deve piorar. O aumento de 6% nos preços da gasolina nas refinarias, anunciado na terça-feira pela Petrobras, deve ter impacto de 0,20 ponto percentual no IPC-S, caso o reajuste seja repassado integralmente ao varejo. Nas contas do coordenador do índice, Paulo Picchetti, esse efeito pode levar a taxa para 0,66% em outubro. ;Esse 0,20 ponto tem a influência direta da alta da gasolina e também o efeito indireto que vem do etanol;, disse ele, prevendo que o preço do álcool também vai subir.

Na opinião de Picchetti, o reajuste de 4% do diesel nas refinarias, entretanto, não deve ter tanto impacto no custo de vida. Para ele, a pressão decorrente do aumento dos fretes pode não ser repassada aos consumidores. ;É difícil saber quanto disso irá para o produto final. O setor de transportes está vivendo um momento complicado, com a atividade em retração;, justificou.

Difusão
Seja como for, o consumidor já tem motivos de sobra para reclamar. ;Está tudo pela hora da morte;, afirmou a servidora pública Heleni Fernandes, 47 anos. ;Não há apenas um produto ou serviço que se destaca. No supermercado ou fora dele, a alta dos preços está corroendo meu orçamento;, disse Heleni. O sentimento dela tem fundamento. O índice de difusão ; que mede quanto a alta dos custos está disseminada no mercado de bens e serviços ; ficou em 67,65% no IPC-S de setembro, um crescimento de 5,89 pontos percentuais em relação a agosto. Dos oito grupos que compõem o indicador, cinco registraram alta (veja quadro).

Para os analistas, a contínua desvalorização do real ante o dólar e o reajuste dos combustíveis podem recolocar a inflação em um patamar de dois dígitos neste ano, o que não acontece desde 2002, e contaminar também os índices em 2016. ;Nossa projeção para a carestia em 2015 está em 9,6%, mas será revisada. O cenário está muito mais propenso para um custo de vida acima disso do que para uma desaceleração;, afirmou Márcio Milan, economista da Tendências Consultoria. Em janeiro, a empresa previa um índice de 6,4% em 2015. ;O ambiente econômico piorou muito em nove meses;, constatou.

A Tendências já está revendo o prognóstico de inflação para o próximo ano, de 5,4% para 6,5%. ;Pelo lado dos preços administrados, devemos ter um aumento de cerca de 8% nas tarifas de energia. Com o agravamento das dívidas, a Petrobras anunciará novos reajustes. Além disso, o rombo nas contas públicas deve trazer aumento da Cide (imposto dos combustíveis) no ano que vem;, prevê Milan.

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