O retrato de um desastre

O retrato de um desastre

postado em 02/12/2015 00:00
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o mais importante indicador de desempenho da economia brasileira, referente ao terceiro trimestre. O resultado desmente as autoridades que tentam vender a ideia de que a crise da economia é irreal e as dificuldades que temos são passageiras e insufladas pela mídia. Isso chega a ser desrespeitoso com a inteligência das pessoas e com a seriedade do trabalho de órgãos públicos aceitos internacionalmente, como a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o IBGE.

O fato indiscutível é que o Brasil vive a mais longa e profunda recessão dos últimos anos. No fim do ano passado e início de 2015, o discurso oficial era de que os dois primeiros trimestres deste ano seriam difíceis, mas que a retomada da economia se daria a partir do terceiro trimestre. A realidade bateu, mais uma vez, de frente com as previsões do governo, lembrando as delirantes expectativas divulgadas durante o primeiro mandato da presidente Dilma pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Entre julho e setembro, o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 1,7%, superando os mais pessimistas analistas do mercado financeiro. É a maior retração de um terceiro trimestre desde o início da série histórica, em 1996, uma vez que, tradicionalmente, nessa época do ano, a indústria se prepara para atender as encomendas natalinas do comércio. Esse recuo é ainda mais grave quando se considera que o PIB já tinha despencado 2,1%, no trimestre anterior, e 0,8% de janeiro a março (dados revisados).

Com isso, os especialistas estão revendo suas projeções para o PIB de 2015. Agora, admitem que a economia brasileira poderá chegar a 31 de dezembro acumulando recuo próximo a 4%, desde que o trimestre atual, por força do 13; salário e do Natal, tenha desempenho levemente positivo. Se isso não ocorrer, essa taxa de recuo poderá ser superada.

Os dados do terceiro trimestre também comprometem as expectativas para 2016. É que, desta vez, nem a agricultura escapou, registrando retração de 2,4%. A indústria, que vinha mal, recuou 1,3%, e os serviços, 1%, incluindo acentuada queda de 2,4% no comércio, refletindo a perda de renda, o desemprego e o efeito da elevação do custo do dinheiro (juros).

Analisando as contas pelo lado da despesa, constatam-se duas realidades preocupantes. A primeira: só os gastos do governo não caíram. Não cresceram muito, apenas 0,3%, mas isso revela que o ajuste fiscal ainda não fez os efeitos esperados. A segunda e não menos ruim: os investimentos secaram.

No terceiro trimestre, o indicador conhecido como Formação Bruta de Capital Fixo (CFRB), que reflete os investimentos na produção, recuou nada menos do que 4%, em relação ao trimestre anterior. É o nono trimestre seguido de redução, elevando para 15% a perda acumulada na inversão de dinheiro na capacidade dos meios de produção de atender à demanda interna e exportar com competitividade. Ou seja, o país vai levar mais tempo do que se supunha para retomar ritmo satisfatório na economia e na geração de empregos. É igualmente incorreto atribuir essa situação à conjuntura internacional. Reconhecer que 2015 reflete erros de política econômica dos últimos seis anos é o primeiro passo para começar a corrigi-los.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação