Sitiados pelo mosquito

Sitiados pelo mosquito

Risco de epidemia em Santo Antônio do Descoberto faz com que a prefeitura da cidade goiana peça ajuda ao GDF. Só nos primeiros 12 dias do ano, houve 193 casos de dengue no município. No DF, são 31 em sete dias

» OTÁVIO AUGUSTO
postado em 14/01/2016 00:00



Apenas nos primeiros 12 dias do ano, a Prefeitura de Santo Antônio do Descoberto notificou 193 casos de dengue. O município goiano, distante 40km de Brasília, entrou em estado de alerta e recorreu à Secretaria de Saúde do DF para combater o mosquito Aedes aegypti, pois a cidade não tem estrutura para conter o avanço do inseto ; lá, há apenas 7kg de veneno para todo o ano. Na capital federal, os números do mais recente Boletim Epidemiológico revelam que 31 pessoas contraíram a infecção na primeira semana de 2016 (veja quadro). O índice é 47,46% menor em comparação com o mesmo período do ano passado, com 59. Apesar do indicativo, o temor de um surto obrigou o GDF a investir cerca de R$ 8 milhões.

Brazlândia tem a maior incidência de dengue, com 13 situações, segundo o levantamento. Na capital federal, há um caso confirmado de febre chykungunya, apesar de, no documento, não aparecer nenhum nos dados oficiais. A divergência, segundo a Secretaria de Saúde, acontece porque o resultado do exame deste paciente ficou pronto na segunda-feira. O doente teria ;importado; a doença de Pernambuco. No relatório, contam dois casos de zika vírus, como o Correio adiantou na última sexta-feira. São duas grávidas, de 29 e 36 anos, moradoras da Asa Norte e de Águas Claras, respectivamente.

Os governos do DF e de Goiás apostam em troca de experiências e em capacitação técnica de agentes para conter o progresso da dengue, da febre chykungunya e do zika vírus, todas transmitidas pelo Aedes aegypti. ;Essa é uma preocupação nacional. Não há um estado que não esteja trabalhando no controle do mosquito;, reforçou o secretário de Saúde do DF, Fábio Gondim, ao explicar a parceria entre as cidades. O Executivo local comprará 27 carros fumacê, além de bombas de veneno e larvicida. Técnicos da Vigilância à Saúde analisam novos métodos de controle da praga. Não está descartada a compra, por exemplo, de mosquitos modificados geneticamente, que não permitem o inseto chegar à vida adulta. Atualmente, cerca 500 servidores atuam na prevenção num cenário onde seriam necessários 1,3 mil. O deficit é de 61,5%.

Entorno

O panorama em Santo Antônio do Descoberto pode ser mais devastador. Nos hospitais e nos centros de saúde da cidade goiana, não há reagente para o exame. A cabeleireira Marilene Oliveira Severino, 38 anos, experimentou essa realidade. ;Senti um mal-estar. O médico me garantiu que é dengue, mas não consegui fazer o diagnóstico laboratorial;, conta a mulher, que nunca havia contraído a doença. Desde os primeiros sintomas, no sábado, Marilene não vai ao salão onde trabalha. ;O prejuízo fica para quem tem a doença;, reclama.

A secretária municipal de Saúde, Wisliane Maximiano do Nascimento, reconhece a epidemia na cidade. ;Estamos pedindo ajuda, porque não temos como atuar sozinhos. Está sendo uma batalha perdida para o mosquito;, admite, ao ressaltar que, durante todo o ano passado, houve 314 casos de dengue no município. Desta forma, os 193 registros dos primeiros 12 dias deste ano representam 61% do total de 2015.

O município vizinho conta com três casos de zika vírus ; duas gestantes e uma criança de 2 anos. O argumento da prefeitura para o aumento dos casos é a falta de estrutura para o combate ao mosquito. Há apenas 27 agentes de vigilância epidemiológica para toda a localidade de quase 70 mil habitantes e com 9% do território infestado pelo Aedes. ;Vamos contratar mais 15 agentes, mas não podemos capacitar. É onde entra a participação de Brasília;, explica Wisliane, ao mostrar um ofício que pede ao GDF auxílio com carros fumacê, tratores, roçadeiras, além do apoio de 30 servidores para atuar na cidade. Contudo, o Executivo local enviou até o momento dois carros fumacê. ;Vamos ajudar da maneira que conseguirmos;, pontua o subsecretário de Vigilância à Saúde do DF, Tiago Coelho.

Para o especialista em controle de doenças Pedro Luiz Tauil, o momento é de atenção. ;Ainda é muito cedo para se comemorar. Com esse cenário, não conseguimos definir a tendência do ano. A vigilância não pode parar. Temos outras doenças que estão sendo transmitidas pelo mosquito;, explica. Ele analisou os números de Santo Antônio do Descoberto a pedido do Correio. ;Se o número se manter nas próximas semanas, pode evidenciar um possível surto. O governo deve ter atenção redobrada com a evolução da doença;, alerta.


Panorama

Confira a quantidade de casos das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti na primeira semana do ano, em comparação com o mesmo período do ano passado

Doença - 2016 - 2015 - Variação
; Dengue - 31 - 59 - -47,69%
; Chykungunya - 1 - -
; Zika vírus - 2 - -*

* Não houve casos notificados no período.

Total de casos em 2015

Doença - Confirmados
- Suspeitas
; Dengue - 10.338 - 12.957
; Chykungunya - 193 - 13
; Zika vírus - 2 - 14

Fonte: Secretaria de Saúde do DF

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