Arsênio e saúde humana: o caso de Paracatu

Arsênio e saúde humana: o caso de Paracatu

» VIRGINIA CIMINELLI Doutora em processamento mineral e professora do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) » JACK NG Ph.D em toxicologia e química ambiental, pesquisador da Faculdade de
postado em 01/02/2016 00:00

Somos uma equipe multidisciplinar de cientistas que há seis anos conduz projeto de pesquisa em Paracatu (MG), com o apoio da empresa Kinross, sobre os riscos associados à exposição ao arsênio, elemento natural da formação geológica do município, para a saúde da população. O arsênio e vários de seus compostos são tóxicos e estão na lista dos elementos cancerígenos. Contudo, em baixas concentrações, o arsênio encontra-se amplamente disseminado na água, no solo, no ar e em diversos alimentos, sem que isso necessariamente represente riscos à saúde. O corpo humano contém, em média, 5-10mg de arsênio.


Uma dúvida frequente refere-se às evidências de exposição aos níveis elevados de arsênio. Considerando que grande parte do arsênio ingerido via água, poeira e alimentos é eliminado na urina, a medição de compostos inorgânicos e orgânicos de arsênio constitui o indicador mais adotado para a exposição recente. A Agência Americana para Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças estabelece como valor de referência para a população um nível de arsênio na urina abaixo de 0,100mg/L (ou 0,100mg/g de creatinina). No Brasil, o valor ocupacional máximo é de 0,050mg/g de creatinina. É importante destacar que não existe nível absoluto e que uma única dosagem não permite concluir que existe contaminação, diante das flutuações típicas da exposição, em especial aos alimentos.


Agências de saúde e do meio ambiente têm procurado estabelecer níveis aceitáveis de exposição. Com base em décadas de estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda concentração máxima de 0,010mg/L na água potável, que é o nível adotado no Brasil. Um aspecto essencial a ser considerado é que os riscos à saúde humana associados ao arsênio dependem da forma química em que o elemento se encontra. Não se pode relacionar de forma direta concentração de arsênio e toxicidade, sem se levar em conta as espécies químicas presentes.
Frutos do mar contêm altas concentrações relativas de arsênio, mas na forma orgânica, que é considerada pouco nociva à saúde. Já os níveis de arsênio na forma inorgânica de ocorrência natural em águas subterrâneas da Taiwan e Bangladesh mostram-se muito nocivos à saúde humana. Nessas e em outras regiões reconhecidamente contaminadas a concentração de arsênio chega a superar em 10 a 100 vezes a diretriz da OMS de 0,010mg/L.


Mas ao contrário do que se observa em Taiwan e Bangladesh, não existe nenhuma evidência científica de contaminação em massa em Paracatu, como divulgado. O nível de arsênio na água potável no município ; determinado por nós, por outros pesquisadores e pela Copasa (empresa fornecedora de água) ; é, geralmente, inferior a 0,001mg/L. Quanto à poeira, a pesquisa mostra que a concentração de arsênio na fração respirável é inferior aos valores de referência na Europa e nos EUA. A exposição ao solo mineralizado rico em arsênio ; típico da geologia local ; não representa riscos significativos devido à forma pouco solúvel, ou seja, a baixa bioacessibilidade do arsênio.


Assim, são equivocadas as alegações de que a poeira da mineração tem causado várias doenças, inclusive câncer, sem a comprovação médica por profissionais com experiência no diagnóstico de sintomas e sinais clínicos relacionados ao arsênio. Nosso grupo desconhece qualquer registro ou evidências de lesões dérmicas típicas de arsenicose (envenenamento crônico por arsênio) em Paracatu. Os estudos epidemiológicos disponíveis e os registros de hospitais públicos ; conforme também relata um estudo recente contratado pela prefeitura ; confirmam essas observações.


As conclusões da pesquisa mostram baixo nível de exposição e, consequentemente, de riscos à saúde para a população. Não obstante, os moradores e a empresa devem continuar a tomar todas as medidas de precaução e controle, bem como práticas de higiene que assegurem os baixos níveis de risco à saúde da população.

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