Ilha de Páscoa, território de paz

Ilha de Páscoa, território de paz

Estudo contradiz a hipótese de que a região, famosa por suas estátuas de pedra, foi palco de guerras que dizimaram sua antiga civilização. Objetos pontiagudos semelhantes a lanças e encontrados no local seriam, na verdade, instrumentos agrícolas

Vilhena Soares
postado em 17/02/2016 00:00
 (foto: Kenia Ribeiro/Divulgação)
(foto: Kenia Ribeiro/Divulgação)




A Ilha de Páscoa é uma das regiões mais isoladas e misteriosas do mundo. Resquícios de uma antiga ocupação humana ; com destaque para gigantescas esculturas de pedra em forma humana ; deixam claro que o território polinésio abrigou uma avançada civilização, mas pouco se sabe a respeito da origem e do fim desse povo. Agora, um novo estudo chega para lançar ainda mais dúvidas sobre o passado dessa região, também conhecida por Rapa Nui, hoje parte do território chileno.

Uma das hipóteses mais aceitas sobre o fim da antiga civilização de Páscoa aponta para conflitos armados ocorridos antes da chegada dos europeus à ilha, no século 18. O que embasa essa possibilidade são vários objetos triangulares, com composição de vidro afiado, que se assemelham a pontas de lanças, encontrados no local. Mas análises de cientistas americanos, publicadas hoje na revista Antiquity, põem em xeque essa ideia ao concluir que os artefatos (chamados mata;as) não são restos de armas, mas ferramentas de uso cotidiano.

;Em muitos relatos sobre a Ilha de Páscoa, há uma tendência a assumir que esses artefatos triangulares seriam uma evidência direta de armas que foram usadas em uma guerra pré-histórica. Esses objetos certamente têm uma aparência geral de lanças, mas afirmar se eles foram usados como tal é outra questão. Queríamos descobrir, em um estudo detalhado, se eles realmente eram armas;, explica ao Correio Carl Lipo, professor de antropologia da Universidade de Binghamton (EUA) e principal autor do estudo.

Lipo e sua equipe analisaram 400 fotos de artefatos coletados na ilha por meio de uma técnica conhecida como morfometria, em que a forma externa de objetos é analisada com precisão matemática. A tecnologia permitiu que os pesquisadores conseguissem comparar o material com armas antigas usadas em outras regiões do Pacífico. Eles concluíram que as mata;as não haviam sido usadas em conflitos físicos. ;Quando os indivíduos se envolvem em uma guerra, há uma exigência forte para ter armas eficazes. Se você tiver que matar alguém, você vai querer a ferramenta mais letal possível. A mata;a, no entanto, têm formas que são efetivamente a antítese de armas letais. Em vez de ser bem apontada, fina e estreita, ela é grossa, irregular e não é pontiaguda;, destaca Lipo.

O autor explica que os objetos foram encontrados em toda a paisagem e se parecem mais com ferramentas agrícolas. ;Padrões de desgaste nas bordas apontam para o fato de que as mata;as provavelmente foram usadas para raspagem e corte, em vez de perfuração, que seria a maneira de se usar uma lança para matar alguém. Esse padrão de desgaste é mais consistente com instrumentos de cultivo do que com ferramentas de guerra. Na verdade, eles são muito encontrados em áreas de cultivo conhecidas como jardins mulch;, prossegue Lipo. ;Enquanto alguns sugerem que esses jardins são lugares onde as pessoas lutaram, uma explicação mais razoável é que as mata;as são encontradas nos lugares onde plantas eram tratadas.;

Além da estrutura física, evidências esqueléticas também reforçam a investigação da equipe. ;Exemplos conhecidos de esqueleto humano pré-histórico não mostram traumas letais. Se existia uma competição entre a população, ela não levou à violência;, completa.

Bem-sucedida
Para o cientista de Binghamton, o trabalho mostra evidências de uma sociedade bem-sucedida antes da chegada dos europeus. ;O que as pessoas pensam tradicionalmente sobre a ilha, envolvendo uma catástrofe ou um colapso, simplesmente não é verdade em um sentido pré-histórico. As populações foram bem-sucedidas e, aparentemente, viveram de forma sustentável na ilha até o contato europeu;, avalia Lipo.

O próximo passo dos pesquisadores é descobrir mais detalhes sobre a civilização antiga da Ilha de Páscoa e como ela se sustentava. ;Precisamos saber exatamente como as comunidades viviam em conjunto e por que elas não se destruíram pela luta. Estamos começando a olhar para esses fatores e estudar como foram capazes de construir uma arquitetura monumental, incrível e famosa. Essa nova compreensão da ilha tem grande potencial para contribuir com nossa crescente necessidade de encontrar soluções para viver em um planeta finito, com recursos limitados. A Ilha de Páscoa, em vez de ser um exemplo de antissustentabilidade, pode se tornar um exemplo positivo;, destaca.




Vulcão
Chamadas de moais, as estátuas eram esculpidas em pedras do vulcão Rano Raraku. Acredita-se que eram dispostas em grupos para formar santuários. O maior desses objetos, chamado Paro, chega a 23m de altura, mas não foi concluído. Há centenas deles espalhadas pelo local.





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