A nova rebelião negra

A nova rebelião negra

Música norte-americana contemporânea volta às raízes e se torna instrumento da luta por direitos

postado em 17/02/2016 00:00
 (foto: Attila Kisbenedek/AFP - 22/12/15)
(foto: Attila Kisbenedek/AFP - 22/12/15)







A artista mais influente do mundo da música é negra. Em uma única apresentação, foi capaz de balançar as estruturas conservadoras dos Estados Unidos, causando êxtase e revolta simultaneamente. Beyoncé e o single Formation representam um momento histórico no qual jovens músicos negros dominam as paradas e tornam-se instrumentos de mudanças políticas e sociais.

Em um dos períodos de maior tensão racial na história recente do país, artistas como Kendrick Lamar, J. Cole, Run the jewels, Kanye West, Nicki Minaj, Janelle Monae e Yasiin Bey (antes conhecido como Mos Def) dão voz a angústias e protestos de uma parcela da população que não é representada pelos maiores veículos midiáticos dos Estados Unidos.

No domingo do Super Bowl, final do campeonato de futebol americano e um dos eventos televisivos mais rentáveis do mundo, Beyoncé, com figurino que reverenciava Michael Jackson e os Panteras Negras, emplacou uma apresentação emblemática e inesquecível. Nos dias que se seguiram ao show da estrela, a cantora virou alvo de críticas por ;politizar um momento de entretenimento para família americana; e ;incitar o ódio entre etnias;. No último sábado, o programa de comédia Saturday night live satirizou tais reações em um esquete intitulado O dia em que Beyoncé virou negra, no qual americanos brancos perdem a cabeça ao descobrir que a nova rainha do pop é, de fato, mais uma artista negra.

Violência policial, falta de suporte do governo, apropriação cultural e empoderamento da mulher negra são temáticas abordadas no clima de Formation. No entanto, a força da obra de Beyoncé não é apenas política, mas também estética. Concorde ou não com a mensagem cantada pela artista, é impossível negar que Beyoncé se tornou nos últimos anos a força na indústria fonográfica.

Ativismo musical
No ano passado, o rapper Kendrick Lammar lançou o álbum To pimp a butterfly, indicado ao Grammy na categoria melhor álbum e vencedor de cinco prêmios, entre eles o de melhor álbum de rap (leia mais na página 3). A obra é um manifesto contra a exploração da população negra pelas instituições de poder, especialmente pela polícia americana. Nascido em Compton, Califórnia, Lammar é discípulo de Ice Cube e Doctor Dre, artistas responsáveis por popularizar o hip-hop e por entregar algumas das rimas mais incisivas sobre a desigualdade racial nos Estados Unidos.

Para Marc Lynch, professor de ciência política da Universidade de George Washington, o premiado álbum funciona como uma espécie de livro, retratando temas recorrentes no mundo da música negra sob uma perspectiva sociológica. ;To pimp a butterfly aproveita esse momento histórico, injetando uma reflexão complexa e embasada sobre a natureza do poder, identidade e liderança;, escreve o professor em ensaio para o jornal americano Washington Post.

J. Cole, parceiro constante de Lammar, também usa a realidade das minorias no país como inspiração para letras poderosas e marcantes. Quando Michael Brown foi morto em Ferguson por um policial, gerando uma onda de protestos contra violência institucional sofrida pela a população afro-americana, Cole lançou a canção Be free em menos de 24 horas após o incidente. ;Tudo que nós queremos é tirar as correntes;, o rapper canta na faixa. ;Tudo que queremos é ser livre.;

Nova era de ouro do hip hop
O duo Run the jewels é um projeto criado pelo rapper de Atlanta Killer Mike e o produtor El-P (que é branco) que, assim como J.Cole e Kendrick Lammar, entregam versos carregados da história das lutas sociais da população negra americana. No entanto, a atuação política da dupla não fica restrita à música, Killer Mike é engajado em ações afirmativas em bairros pobres e apoia abertamente o candidato socialista-democrata Bernie Sanders na corrida presidencial.

O álbum Run the jewels 2 traz o ceticismo em relação à autoridade e a mensagem de luta pelos direitos de minorias presentes no clássico Faça a coisa certa, do cineasta Spike Lee. O sucesso estrondoso é resultado de mais de 20 anos de carreira, experiência que é perceptível ao público tanto nas canções que compõe o álbum quanto nos clipes em que funcionam como curtas sobre relações raciais nos Estados Unidos.

;Por mais profundamente que as minhas palavras movam as pessoas, se eu não tivesse ele no palco, não garanto que eu seria forte o suficiente para chegar onde cheguei. Não teria a força de resistir ao impulso de pedir que as pessoas façam coisas ruins ou que aprovem algum tipo de violência;, afirmou Killer Mike sobre El-P ao jornal britânico The Guardian.

Os dois se tornaram amigos inicialmente devido ao amor pelo período que ficou conhecido como era de ouro do hip-hop. Public enemy, EPMD e NWA influenciaram não apenas a música negra contemporânea, mas também a maneira como a nova leva de artistas negros encara o papel que ocupam na sociedade.

Assim como nas décadas de 1960 e 1970, quando James Brown, Marvin Gaye, Mavis Staple e Nina Simone emprestaram as vozes para o movimento por direitos igualitários, Beyoncé e companhia têm se tornado símbolos para um novo momento da história negra americana, na qual a luta é por mudanças estruturais em instituições de poder. É a revolta de uma minoria marginalizada e hostilizada, mas que não fica mais calada.

30
milhões de visualizações do clipe de Formation de Beyoncé


9
número de Grammys de Kendrick Lammar

"Você pode ser o próximo Bill Gates negro porque eu destruo
Eu posso ser o próximo Bill Gates negro porque eu destruo"
(Formation - Beyoncé)

"O mais negro da baga, mais doce o suco
O mais negro da baga, mais eu atiro"
(The blacker the berry - Kendrick Lammar)

"Quando vocês pretos vão se unir e matar a polícia?
Tomar a cadeia e fazer da vida deles um inferno"
(Close your eyes - Run the jewels)

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