Desligamento sem trauma

Desligamento sem trauma

Tanto gestores quanto liderados podem cometer erros na hora dessa conversa. A fim de que o momento seja menos complicado, aposte em inteligência emocional e sinceridade. Confira dicas para evitar atritos

» ANA PAULA LISBOA
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Diferentemente do que possa parecer, a demissão, um dos momentos mais delicados e temidos nas relações de trabalho, é difícil não só para o funcionário: o gestor também sofre ao ter que lidar com esse tipo de momento. Nessa hora, sentimentos ficam à flor da pele para ambos os lados, mas é preciso ter inteligência emocional para evitar que a situação se torne ainda mais complicada. Um processo de desligamento mal resolvido termina com mágoas mútuas, e as consequências só podem ser ruins.

O empregado desgostoso, especialmente caso tenha se sentido ofendido, pode queimar o filme do chefe e da empresa, além de processar a instituição. Quando o contratado demonstre um comportamento inadequado na saída, deve ficar sem uma boa carta de recomendação e também ter sua imagem desacreditada perante o mercado. Para piorar, toda a equipe é abalada por um afastamento conturbado e sem transparência: há chances de os empregados remanescentes se voltarem contra o chefe e espalharem um clima de negatividade no restante da instituição. Por mais chata que a ocasião seja, é possível encerrar a relação de trabalho de modo humano e respeitoso.

;Mesmo que seja um corte por desempenho, o chefe deve focar mais no que ela trouxe de positivo do que no negativo;, ensina a consultora da Véli RH, psicóloga com MBA em gestão estratégia de RH, formação em coaching, e consultora em recolocação e gestão de carreira.

Se o processo de demissão não for amigável ou adequado, ;a pessoa tende a dar o troco, inclusive na Justiça, seja por motivos válidos, como assédio, seja pelo fato de o desligado procurar pelo em ovo, inclusive com denúncias falsas. Tudo que a empresa fez de errado, como hora extra não paga, trabalho em situação de risco ou outros problemas, pode vir à tona nesse momento;, como observa José Augusto Minarelli, diretor presidente da empresa de outplacement e transição de carreira para executivos Lens & Minarelli

Visão de líder
Professor de squash na Academia Headway, Rubens Martins da Cunha, 34, ocupa a posição de gerente há nove meses. Na instituição, fundada há 20 anos no Lago Norte, ele está à frente de 26 empregados e 1,2 mil alunos. Durante esse período, ele teve que demitir seis pessoas por problemas comportamentais. A primeira vez foi a mais traumática. ;Era um professor que não aparecia nas reuniões da equipe, tinha uma postura de descaso com a academia, além de ser estúpido: brigava com colegas e não respeitava o pessoal da manutenção;, lembra. ;Na hora da conversa, ele não aceitou, disse que era um excelente professor. Mas eu fui para esse momento embasado em fatos: mostrei as mais de 20 reclamações sobre a grosseria dele deixadas por alunos na caixinha de sugestões;, relata.

;Meu método é conversar num local separado, falar os motivos verdadeiros da saída. Geralmente, dá certo: tanto é que vários não trabalham mais aqui e continuamos amigos;, conta. Em todos os casos, a notícia da dispensa não era surpresa. ;O último que demiti mesmo, quando pedi para conversar com ele, até falou ;pode me dar aí a rescisão que eu assino;. Então não pego ninguém de sobressalto.; Além de sempre deixar claro o que é esperado dos funcionários, Rubens dá constante retorno sobre a atuação da equipe. ;Sempre que alguém faz algo errado, dou uma advertência verbal; se ela não se corrigir, entrego uma por escrito. Nas reuniões, também converso sobre o desempenho;, diz. Para que a equipe não seja afetada, Rubens sempre explica sobre a saída e mantém um clima de união. ;Na última semana mesmo, tivemos uma reunião com um bom ânimo até porque, apesar da crise, a academia está crescendo a todo vapor.;

Por um caminho equilibrado
Vários dos passos adotados por Rubens estão entre os mais indicados para que a transição de um ex-empregado seja mais fácil de encarar, segundo José Augusto Minarelli. Entre os acertos estão clareza de expectativas, feedback constante com chance para que o trabalhador mude de atitude, conversa sobre a rescisão numa sala reservada explicando os reais motivos, mas embasado em fatos. Segundo o consultor, o jeito de demitir faz toda a diferença, e cuidado e respeito são importantes. ;Se, depois de ser demitido, o diretor vai pegar as coisas dele ou guardar arquivos pessoais que tinha no computador, e encontra a sala trancada e o computador bloqueado, a pessoa fica possessa. Entendo que a empresa quer se precaver, por segurança, mas o indicado seria então pedir alguém para acompanhar o funcionário nesses momentos finais;, exemplifica.

O motivo alegado para a demissão é crucial. ;Quando a causa não é justa ou quando o chefe não foi claro sobre o pretexto, as pessoas ficam indignadas.; Mentir também não é uma boa saída. ;O gestor diz que a empresa está passando por dificuldades e vai suprimir o cargo do contratado; 15 dias depois, o indivíduo fica sabendo, por meio de colegas, que um substituto está na vaga. Casos assim geram revolta, não só no trabalhador, mas em toda a equipe.; Assim como num término de namoro, é chato ter de explicar os porquês do desligamento, e o brasileiro tende a inventar desculpas, como a clássica: ;não é você, sou eu.; No entanto, ser sincero demais também é bem-visto. A saída é encontrar um meio-termo. ;Diga a verdade, com jeito. Quando o gestor afirma que o funcionário é ótimo, em vez de expor os problemas, deixa de dar a ele a chance de aprender. Bons chefes entendem a função pedagógica desse momento; os malformados e arrogantes tendem a sair pela tangente;, declara Minarelli.

A designer de joias e microempreendedora invidiual Luciene Regner, 37 anos, fugiu desse objetivo, mas percebeu o erro. Este ano, ela contratou sua primeira empregada, para vender peças num salão de beleza, e a experiência não deu muito certo. ;Além do salário, a vendedora ganhava comissão por bater metas, mas acabou se acomodando, fazia só o mínimo necessário. Então, o momento da demissão foi tranquilo, porque acho que ela estava esperando. Eu falei para ela pensar positivo e seguir em frente.; Luciene admite que poderia ter agido melhor na hora. ;Eu ia fechar o ponto de venda no salão, porque estou abrindo um quiosque no Gilberto Salomão, então disse que era por causa do fechamento, mas eu poderia ter falado sobre o desempenho dela para que ela atue melhor nos próximos empregos. Se ela pedir alguma referência, vou ter que abrir o jogo;, revela a dona da Soulu Atelier desde 2013 que, agora, procura outro vendedor mais qualificado.


"O momento da demissão foi tranquilo, porque acho que a funcionária estava esperando pelos sinais que dei;
Luciene O

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