BC indica que corte de juros não virá tão cedo

BC indica que corte de juros não virá tão cedo

Presidente da autoridade monetária se compromete com objetivo de trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5%, em 2017. Decisão, segundo analistas, afasta a possibilidade de redução da Selic já em agosto próximo

» PAULO SILVA PINTO » ROSANA HESSEL » RODOLFO COSTA
postado em 29/06/2016 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp.CB/D.A - 13/6/16)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp.CB/D.A - 13/6/16)


Ninguém espere alívio nos juros em breve. Mas, em meados do segundo semestre e no início do próximo ano, haverá espaço para queda da Selic, indicou ontem o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, ao apresentar o Relatório de Inflação do trimestre. ;Deixo claro: a meta de 4,5% em 2017 é o nosso objetivo; afirmou ele, ao abrir a apresentação do documento, o que normalmente não é atribuição do presidente da autoridade monetária, mas do diretor de Política Econômica, Altamir Lopes, que está deixando o cargo.

;Foi uma ducha de água fria para quem esperava queda dos juros já em agosto;, disse o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC. ;Em outubro, é possível que se reduza a Selic, mas é necessária grande ajuda do lado fiscal;, alertou. Para Schwartsman, o governo precisará obter a aprovação da proposta de emenda à Constituição que limita à expansão dos gastos à inflação, entre outras medidas de ajuste das contas públicas. Sem isso, não será possível levar o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) a 4,5% em 2017.

No cenário de referência usado pelo BC, a carestia será de 4,7% no próximo ano, se a Selic for mantida em 14,25% ao ano. Assim, para reduzir a taxa básica, é preciso que outros fatores ajudem a reduzir as expectativas sobre o IPCA. Para 2018, a projeção é de inflação de 4,2%, já abaixo do centro da meta. Há, portanto, espaço para cortar a Selic, mirando uma inflação maior do que a apontada pelo modelo.

;No discurso de posse, Ilan havia falado em levar a inflação para o centro da meta, mas não deixou claro em quanto tempo isso aconteceria. Era necessário ser mais preciso, como ele foi agora;, notou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. Ninguém tem dúvida de que é um objetivo ousado. Nem o presidente do BC. ;Buscar o centro da meta em 2017 é algo ambicioso e crível ao mesmo tempo. Ambicioso porque a inflação foi de quase 11% em 2015, mais que o dobro da meta. Crível porque, analisando as projeções e a conjuntura, temos as condições para atingi-lo, disse.

Com o discurso de ontem, Ilan buscou reduzir as projeções do mercado para a inflação, que ainda estão acima da meta e do cenário de referência. Para 2016, a previsão subiu de 7,25% para 7,29% de acordo com o último relatório Focus, do BC. Para 2017, manteve-se em 5,5%. A importância das expectativas é que elas são autorrealizáveis: se muita gente acha que a inflação vai ficar menor, ela acaba caindo, pois os preços deixam de ser reajustados por antecipação.

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Vários economistas acreditavam que Ilan buscaria uma convergência progressiva, com o IPCA em 5% em 2017, chegando ao centro da meta apenas em 2018. Ontem, ele negou isso peremptoriamente. ;Muito se falou de metas ajustadas. No passado, já adotamos. Mas não parece ser esse o caso no momento;, disse.

Outra preocupação do presidente do BC é se desvencilhar da imagem de dovish, termo inglês que indica os adeptos de uma política monetária suave. Como economista-chefe do Itaú, ele dizia ver espaço para queda dos juros no início do segundo semestre. ;Uma coisa é ser economista no mercado, outra é ser presidente do BC. A ideia de que o Ilan derrubaria a Selic em dois pontos neste ano morreu. A tendência é que o corte demore e venha só no fim do ano;, avaliou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

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