Um terço do país culpa as mulheres por estupro

Um terço do país culpa as mulheres por estupro

Pesquisa inédita do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 42% dos homens acham que a violência sexual acontece porque a vítima não se dá ao respeito ou usa roupas provocativas. O que impressiona é que 32% delas concordam

NATÁLIA LAMBERT
postado em 21/09/2016 00:00

Apesar de os debates sobre os direitos das mulheres terem se intensificado neste ano ; provocados por casos de repercussão nacional como o estupro coletivo de uma jovem, no Rio de Janeiro, em maio ;, praticamente um terço da população brasileira ainda acredita que a culpa da violência sexual é da vítima. Os dados são da pesquisa inédita #ApolíciaPrecisaFalarSobreEstupro, encomendada ao Datafolha pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento apresenta que 42% dos homens acreditam que o estupro acontece porque a mulher não se dá ao respeito e/ou usa roupas provocativas, e 32% das mulheres têm a mesma opinião. A pesquisa será lançada hoje no 10; Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que tem como tema a ;Violência Contra a Mulher, Acesso à Justiça e o papel das Instituições Policiais;.


O resultado, de certa forma, não surpreende especialistas. De acordo com o vice-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, a informação era esperada, mas o número é muito alto e preocupante. ;Para mim, como homem, fico extremamente incomodado ao saber que quase metade dos meus pares não vê a mulher como um ser que tem direitos sobre suas vontades e, principalmente, sobre seu próprio corpo. É um dado muito perverso;, comenta. Para a doutora em direito pela Universidade de Brasília (UnB) Soraia Mendes, é uma realidade muito difícil de se encarar, mas a percepção da sociedade é essa. ;É impressionante que essa cultura da culpabilização da vítima ainda permaneça. A vítima é sempre vítima, não importa aonde ela esteja ou o que ela esteja usando;.


A diretora-executiva do Fórum, Samira Bueno, uma das autoras da pesquisa, comenta que essa percepção da sociedade em relação à mulher não chega a ser surpreendente, até porque o resultado se aproximou da última pesquisa realizada, em 2014, sobre o tema, na qual o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) evidenciou que 26% da população concorda total ou parcialmente com a afirmação de que ;mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas;. E, ao analisar os números separados, a pesquisa trouxe uma esperança de mudança: a maioria das pessoas que respondeu positivamente ao questionamento está na faixa etária acima de 60 anos (44%), tem o nível de escolaridade de Ensino Fundamental (41%) e mora em municípios com até 50 mil habitantes (37%).


;É um cenário muito ruim, mas dá uma esperança para a mudança, já que os jovens estão seguindo uma linha de pensamento mais progressista. Nesses municípios menores, e entre as pessoas mais velhas, a população tende a ser mais conservadora, machista. Ainda acha que o lugar da mulher é dentro de casa, cuidando dos filhos;, comenta Samira. Renato Lima ressalta o mesmo ponto e acredita que esse aspecto é positivo nos dados. ;Esses municípios menores têm papel chave nessa moralidade brasileira;.


No país, de acordo com 9; Anuário Brasileiro de Segurança Pública, somente em 2014, foram registrados 47.646 casos de estupro em todo o país. Isso significa um estupro a cada 11 minutos. Para a professora Soraia Mendes, o mais importante da pesquisa não é a informação, porque isso é uma cultura que exige um trabalho constante que não será mudada de uma hora para outra, mas é preciso divulgar, alertar, dizer ;que está errado;. ;Temos um longo processo de modificação da cultura e da luta pela igualdade de gênero. Precisamos olhar para esses dados com a gravidade que eles têm;.


A pesquisa também mostra que 65% da população brasileira têm medo de ser vítima de agressão sexual. Entre as mulheres, o dado chega a 85%. Para Samira Bueno, quando detalha-se o número por regiões, a informação se torna impressionante. No Nordeste, 90% das mulheres têm medo de serem atacadas, e no Norte, 87,5%. Já no Sul, a taxa é de 78%, no Sudeste e no Centro-Oeste, 84%. ;Essa diferença regional é muito pesada. E faz todo o sentido. A oferta de serviços públicos que mulheres vítimas de violência têm nessas regiões é infinitamente pior;. O levantamento também mostra a confiança da população em relação ao atendimento oferecido às vítimas nas instituições policiais. De acordo com a pesquisa, apenas 36% da população concorda que policiais militares estão bem preparados para atender mulheres vítimas de violência sexual.

Esperança
Mesmo com os resultados negativos, especialistas destacam um dado que chama a atenção na pesquisa: 91% dos brasileiros disseram que é preciso ensinar os meninos a não estuprar. O percentual se confirmou em todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e porte dos municípios. De acordo com os autores da pesquisa, o percentual indica um futuro mais promissor. Para o vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio Lima, é uma janela de oportunidade. ;Temos uma brecha para mostrar que a educação pode mudar essa realidade. É perverso, preocupante, mas não perdemos a batalha. Precisamos investir em indivíduos que desenvolvam pensamento crítico e não sejam meros reprodutores do pensamento médio;, acrescenta Lima.

Manifesto contra porte de armas

Cinquenta e seis especialistas de todo o país lançam hoje, durante o 10; Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um manifesto contra a revogação do Estatuto do Desarmamento, em tramitação na Câmara dos Deputados, por meio do Projeto de Lei n; 3.722. A intenção é levar o documento a parlamentares para que a proposta seja barrada. De acordo com dados do Mapa da Violência 2016, de 1980 até 2014, morreram, no Brasil 967.851 vítimas de disparo de arma de fogo e, segundo os pesquisadores, a tendência é de que a violência aumente com a mudança.
Aprovado em comissão especial, o texto do relator do substitutivo, deputado Laudívio Carvalho (PMDB-MG), propõe que seja criado o Estatuto de Controle de Armas de Fogo, que permite a todos os cidadãos o direito de possuir e portar armas de fogo para legítima defesa ou proteção do próprio patrimônio. A proposta está para ser votada em plenário e ainda terá de passar pelo Senado antes de virar lei.

Dados errados
Em abril de 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reconheceu um erro na pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres. Em vez de 65%, 26% das pessoas concordaram com a polêmica afirmação de que ;mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas;. A falha indignou mulheres de todo país e resultou na deflagração da campanha #eunãomere

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação