O menos é mais

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Jayme Monjardim adapta livros de Augusto Cury, em filme recém-lançado e que conta com Dan Stulbach no elenco

» Ricardo Daehn
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Warner Bros/Divulgação)
(foto: Warner Bros/Divulgação)



No meio da franqueza admirável, em conversa sobre o mais recente filme, O vendedor de sonhos, o diretor Jayme Monjardim não se engrandece: cada vez mais, está consciente do trabalho de grupo. ;O conceito de Fidel Castro em nossas vidas acabou. Antigamente, a gente tinha uma ideia na cabeça, pegava uma câmera, saía, e nascia um Glauber Rocha, um gênio. Hoje em dia, quem fizer isso não será um Glauber e ninguém verá o filme;, acredita, enfatizando o aspecto de corrente que envolveu a adaptação da tríade de best-seller orquestrada nos escritos de Augusto Cury.

Roteirista de fitas populares como Um suburbano sortudo e O último shaolim do sertão, L.G. Bayão acolheu muitas sugestões do diretor e acentuou a parceria com o produtor (LG Tubaldini Jr.) e o autor Cury. ;Só com O vendedor de sonhos, foram quatro milhões de livros vendidos, e, no todo, a obra de Cury rendeu 30 milhões de exemplares. É uma responsabilidade muito grande uma pessoa apenas tentar colocar tudo isto para funcionar. Os livros, no filme, foram aperfeiçoados a várias mãos;, reforça.

Depois de recriar nas telas textos de Fernando Moraes (Olga) e de Erico Verissimo (O tempo e o vento), Cury, pelos livros, combinou com a predisposição de Monjardim para terrenos novos. ;Eu, aos 60 anos, estou num momento muito especial da minha vida. Paro e penso o que realmente é importante e o que é fútil. Separo o que seja descartável. O Augusto, na obra dele, tem a capacidade de sinalizar o que tem valor, pela profundidade;, descreve. Incorporar mensagens e dicas novas seduziu o diretor, a ponto de confessar: ;Estou muito feliz, e me considero um novo discípulo de pensamentos que podem ser úteis;.

Em termos de serventia, o audiovisual, desde cedo, provou o valor, nem que fosse para Jayme Monjardim pagar as contas: aos 21 anos, ele complementava o orçamento, documentando processos cirúrgicos. ;Há operações em que se descola toda a pele, como numa máscara. Foi traumático acompanhar também as operações de coração. Mas, é coisa do passado; hoje eu não aguentaria fazer isso, não;, conta, aos risos. Cirurgicamente, O vendedor de sonhos deu a chance de o cineasta agir na esfera da mente. ;Quando o Augusto Cury diz que o mundo está preparado para tecnologia, para discutir o desgelo no planeta, mas não está mais discutindo o interior da mente humana; concordo. Poucos olham para si, e lhe dou razão;, explica.

Menos seria mais

O acúmulo de milhões de informações, sem certezas de verdades, é alvo da desconfiança de Monjardim. ;Vivemos grandes dúvidas e que podem gerar muitas transformações. Temos que acompanhar isso: por exemplo, não duvido que, em menos de um mês, tenhamos 30, 40 deputados presos. O país está começando a ser passado a limpo e as pessoas começam a entender que nós temos, sim, capacidade de mudar as coisas;, comenta.

Mas, e o material todo teria vocação ao rótulo de autoajuda? ;Acho que o Cury está acima da associação à autoajuda. As obras dele estão acima disso. Ele tem muita razão quando diz, por exemplo, que as crianças estão infectadas com tanta informação, entre outras coisas;, demarca Monjardim, antes de exemplar. ;Dou o exemplo da minha filha, de 6 anos. Com 5 anos, ela montou um canal no YouTube, O mundo cor de rosa de Maysa Matarazzo. Você olha pra sua filha, e diz o quê: ;O que aconteceu com você?!’ A gente é obrigado a gravar o programa, por ela passar o dia falando nisso. E ela está ganhando mais de US$ 100 por mês e já conta com mais de 14 mil inscritos!”, conclui.


Quatro perguntas / Jayme Monjardim


Com O vendedor de sonhos, acha que fará blockbuster a partir de um best-seller?
Só Deus sabe. Gostaria que fosse porque é um filme totalmente sobre mensagem que vem num momento muito apropriado. O Brasil está vivendo um momento terrível, as pessoas estão tristes. As pessoas estão angustiadas; politicamente, o país está destroçado e, emocionalmente, seguimos a linha. O filme vem num momento certo e traz otimismo. Buscamos aspectos positivos. Os livros do Augusto Cury têm esta capacidade de transformação. Fazer com que as pessoas pensem mais sobre suas vidas. Considero que talvez a gente esteja trazendo um novo gênero, neste final de ano, algo mais renovador. Estou muito confiante nisso, mas daí a ser um blockbuster, não sei. A gente vive absolutamente uma incógnita. Não sabemos nem para onde vamos.

Onde está o seu toque, dentro do universo tão vinculado a Augusto Cury?
O grande protagonista desta história é a palavra. Num primeiro momento, fiquei muito mexido em termos de como dar uma cara a tudo que li. O que veio na minha cabeça é que eu tinha que humanizar tudo. As pessoas tinham que acreditar profundamente no que fosse mostrado. Minha fonte inspiradora, em cinema, sempre foi clara: Roberto Rosselini (Roma, cidade aberta). O conceito visual do filme veio para que eu desse minha cara à fita. Quis uma identidade visual completamente diferente do dia a dia. Muito inspirado em arquitetura, em Oscar Niemeyer, investi em linhas, na aposta em cenários em que os prédios fizessem linhas. Traço e arquitetura estão reforçados no filme. A beleza estética do que é rico fica muito reforçada e o que fosse pobre, pensei em frisar o tom realista. Foi um contraste que funcionou. Mas, se tudo isso atrapalhasse a carga da palavra, teria sido um tiro no ar.

Você deixou o universo dramatúrgico feminino, comum na tua carreira, de lado?
Sabe que nem tinha pensado nisso. Mas, de um tempo pra cá, tinha me dedicado a trazer coisas muito femininas. Este filme tem uma pegada bem masculina, mesmo. É uma abordagem que, curiosamente, transforma mais as mulheres do que os homens. Talvez, no conteúdo, seja um filme que retrate grandes alterações e mudanças que toca muito um viés feminino, apesar de os personagens serem homens. Aliás, o Augusto transforma pessoas, independentemente de sexo. Mas, ainda com relação à representação do feminino, tenho um filme, a ser rodado em fevereiro, e que trata da invasão da intimidade de uma mulher entre 55 e 60 anos. Chama-se Eu te darei o céu. Vai ser todo rodado em Porto Alegre.

Persiste a ideia de comparações na sua carreira? Você, aliás, tem usado menos close, não?
É difícil abrir mão de closes: sou viciado neles. Acho que as coisas mais importantes exigem close. Todo mundo acha que exagero nisso, por causa da tevê ; o que é mentira: faço por gostar. Ninguém dizia que Ingmar Bergman deveria estar na tevê, por causa do recurso de close dele (risos). Quanto a comparações, já estou acostumado: não há quem diga que eu faça cinema. Dizem que eu faço televisão no cinema. Já sofri por causa disto, hoje, não sofro mais. Sou na verdade é um contador de histórias. É a mi

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