Ocupar para mudar

Ocupar para mudar

Quem são as pessoas por trás de uma lenta, porém significativa, transformação do Setor Comercial Sul? Um coletivo chamado Labirinto promove há um ano uma série de ações para tornar a área um polo cultural que sirva à comunidade. A próxima será sábado

» Deborah Fortuna Especial para o Correio
postado em 28/03/2017 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Bancos, escritórios, salões de beleza, empresas, comércios, restaurantes, bares, serviços diversos. Moradores de rua, usuários de drogas, tráfico, prostituição, sensação de insegurança, criminalidade. O Setor Comercial Sul (SCS) guarda em si as contradições de uma capital inventada. Ali, não há o apartheid, que normalmente divide a desigual metrópole em duas, distantes uma da outra. No coração nervoso da metrópole, convivem a face trabalhadora e geradora de riqueza da cidade com a excludente, que deixa à mostra a violência. Como negar ou maquiar essa realidade é impossível, há quem aposte numa transformação diária, constante, paulatina e real. De que forma? Ocupando os becos, iluminando frestas escuras, promovendo arte, compartilhando cultura e momentos de integração e bem-estar. Hoje quem faz isso por ali é o Coletivo Labirinto.

Fundado por três amigos em julho do ano passado, foi batizado de Labirinto para ;ressignificar;, usando uma palavrinha da moda, um lugar chamado Buraco do Rato, onde os moradores de rua ficam. Por acharem o nome pejorativo, eles quiseram dar outra nomenclatura, e já que o espaço parece um labirinto, a ideia veio naturalmente. ;Queremos transformar qualquer lugar onde vamos atuar. Lá é visto como ponto de droga e prostituição, e a gente acha que a cultura pode mudar;, explicou o produtor cultural Phillipe Daher, 28 anos, um dos fundadores do grupo.

A ideia é que o setor seja ocupado por todos, o tempo inteiro ; não apenas durante o dia ;, e transformar toda a visão negativa do lugar em arte, música, festas, sem esquecer de todo o envolvimento social para as minorias que já estavam lá. ;Não adianta fingir que situações, como a presença dos moradores de rua, não existem, ou mesmo empurrar para debaixo do tapete. Porque aí você tem um problema social que não está resolvido de fato. A nossa ideia foi procurar uma forma de ocupar o espaço e trazer algo de positivo para as pessoas que estão ali;, explicou um dos fundadores do coletivo, Raphael Sebba, 26 anos.

Por isso, parte do dinheiro arrecadado com os eventos são revertidos em melhorias para a comunidade. Essa vontade de mudança fez com que o grupo crescesse bastante. Formado inicialmente por três amigos, agora, eles contam com a ajuda de outros produtores culturais e coletivos para ajudar a colocar as ações em prática. Se considerados equipe de segurança, de limpeza e de estrutura, mais de 50 pessoas agora trabalham no projeto. Para Phillipe Daher, a iniciativa funciona como um ciclo: já que eles usam o espaço, também devolvem benefícios. ;Tudo o que fazemos, tentamos deixar algo em troca, não só usar o setor, mas devolver para ele tudo o que nos dá. Tentar deixar um legado aqui, porque foi um lugar que foi esquecido pelo poder público;, critica.

As ações foram diversas. Em um primeiro momento, o chão da passarela foi pintado, um varal social recolheu agasalhos e os entregou a moradores de rua durante a época de frio, e um sopão foi feito. Até uma horta urbana com garrafas de vidro foi montada durante uma festa, na qual as pessoas que chegavam podiam pegar uma muda de planta já separada e colocar em garrafas improvisadas. Na época, os comerciantes pediram a retirada da pequena plantação porque o material usado era vidro, que poderia servir como arma para os mal-intencionados. Por isso, no próximo sábado, o coletivo fará o Dia das Boas Ações, com diversos parceiros, e uma das ações será a construção de uma horta ; desta vez usando madeira. Além disso, haverá aulas de ioga para a comunidade e um almoço com plantas PANCs, para pessoas em situações de rua. ;Essa renda gerada com eventos tem que ser compartilhada com quem já está aqui. E não é só a galera mais marginalizada, mas também os pequenos comerciantes, o dono da padaria, da banquinha, que estão envolvidos nos processos. A gente procura sempre valorizar isso. O coletivo quer promover cultura de forma ampla;, explica Sebba.
Mas ainda há muitos desafios a serem discutidos. Um deles é trabalhar um processo chamado gentrificação (do inglês, gentrification), que é um fenômeno de valorização de bairro ou região, antes desvalorizados, a partir de uma boa frequência, e que acaba expulsando os pequenos comerciantes ou pessoas de baixa renda, que não conseguem acompanhar a nova dinâmica do local. ;A gente sabe que, eventualmente, a nossa movimentação pode dar visibilidade e valorizar esse espaço, trazendo gente com maior poder financeiro para investir. Ao mesmo tempo, a gente se preocupa em compartilhar ao máximo esse crescimento do espaço como um todo;, afirma o produtor cultural Caio Dutra, 26 anos, também fundador.

Dutra explica a escolha pelo Setor Comercial Sul para a promoção das festas e eventos diversos do coletivo: ;É um dos lugares mais estratégicos de Brasília, ao lado da rodoviária, o que garante acesso para todo mundo; o fluxo de pessoas é muito grande, é logo abaixo do Parque da Cidade e é ao lado do Setor Hoteleiro Sul. Então, imagina se as principais iniciativas e projetos legais do DF fossem concentrados aqui?; Além disso, para Sebba, o coletivo não está sozinho nessa luta pela cultura em um espaço público brasiliense. Ele lembra de outros pioneiros, como foi o caso do Mercado Sul, em Taguatinga. ;Nós somos parte de um movimento geracional. Por um lado, você tem um ataque muito forte à cultura, como ocorre com a Lei do Silêncio, e ao mesmo tempo tem esse espaço, que não te causa problema com vizinhança e que era um lugar abandonado, largado;, explica. Com a presença constante de novos frequentadores, até o cenário começa a mudar. ;Todos os grafites vieram depois da ocupação;, conta o cientista político André Souza, 28 anos, que trabalha em alguns eventos com o Coletivo Labirinto.

Comerciantes

Ainda que o coletivo queira dar um novo significado ao que as pessoas esperam encontrar à noite no Setor Comercial Sul, muitos pequenos comerciantes continuam tendo medo da violência. No caso de José Márcio, 50 anos, que trabalha no setor há 25 anos, ele acredita que toda a tentativa de trazer melhorias é bem-vinda, mas a insegurança ainda assusta. ;Todas as iniciativas são gratificantes. Ainda ocorrem problemas com drogas nos becos. Aqui na minha loja, já arrombaram e assaltaram. Acho que ainda falta vontade política;, critica.

Já o comerciante Flávio José, 35 anos, começou a trabalhar há pouco mais de dois anos no setor e também tenta participar desse movimento de ocupação à noite. Toda sexta-feira, ele faz um happy hour no seu restaurante e sempre tenta trazer música ao vivo para atrair a clientela. ;Ainda há muito para se trabalhar. O Setor Comercial Sul devia ter incentivo do governo, já que não tem casa próxima. Fora que tem que atrair outros públicos, sem

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