Trump deixa o mundo em estado de alerta

Trump deixa o mundo em estado de alerta

Durante tenso debate na ONU sobre o bombardeio aéreo contra as forças do regime, a embaixadora americana avisa que o país "está preparado" para mais ações militares. Rússia protesta contra "agressão a um Estado soberano"

postado em 08/04/2017 00:00
 (foto: Omar haj kadour/AFP)
(foto: Omar haj kadour/AFP)




O bombardeio da madrugada de ontem contra a base aérea síria de Al Shayrat, na região de Homs, pode ter sido apenas a primeira intervenção militar direta dos Estados Unidos contra o regime de Bashar Al-Assad, a quem Washington acusa por um ataque com armas químicas que deixou mais de 80 mortos, na terça-feira, em um reduto de forças rebeldes. ;Os EUA tomaram uma decisão muito pensada na noite passada;, discursou a embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, durante um tenso debate no Conselho de Segurança. ;Estamos preparados para fazer mais (ataques), mas esperamos que isso não seja necessário. É de interesse vital para a nossa segurança prevenir o uso e a proliferação das armas químicas.;

A representante americana colecionou declarações de apoio quase unânimes por parte da comunidade internacional (leia o quadro), com as exceções da própria Síria, do Irã e da Rússia, que classificaram o bombardeio de ontem como ;violação da lei internacional;. O regime de Damasco, que nega responsabilidade pelo ataque químico, denunciou a morte de nove pessoas e a destruição de casas próximas à instalação militar, atingida por mais de 50 mísseis de cruzeiro Tomahawk. Em Khan Sheikhun, a cidade bombardeada com agentes químicos, moradores comemoraram a represália americana.

O governo brasileiro, a exemplo da China, adotou uma postura mais cautelosa e manifestou preocupação com a possibilidade de uma escalada no conflito sírio, que já completou seis anos, com saldo de mais de 300 mil mortos.

Principal aliada de Assad, a Rússia reagiu duramente ao bombardeio ordenado por Trump, classificado pelo presidente Vladimir Putin como ;uma agressão a um Estado soberano;. No Conselho de Segurança da ONU, o vice-embaixador russo, Vladimir Safronkov, advertiu os EUA sobre as consequências de ações militares unilaterais. ;Quando alguém decide seguir um caminho próprio, isso só leva a tragédias horríveis.;

Em Moscou, a porta-voz Maria Zakharova adiantou que o chanceler Sergei Lavrov ;pedirá explicações; sobre o caso ao secretário de Estado americano, Rex Tillerson, a quem receberá na capital russa, na terça-feira. ;A visita está na ordem do dia. Que ele venha e que nos explique o que fizeram. Vamos dizer a ele tudo o que pensamos;, declarou a funcionária à emissora NTV. Surpreendido pela ação, o governo russo parecia ainda digerir a mudança no cenário da guerra civil síria. ;Agora, ficou claro que os EUA são capazes de usar a força no terreno, e portanto a opinião de Trump terá de ser mais ouvida;, avalia o analista Andrei Balkitski, do instituto PIR.

A perplexidade do Kremlin com a súbita guinada na política de Washington ficou evidente nas palavras do porta-voz, Dmitri Peskov, que invocou declarações recentes nas quais Trump definia como alvo dos EUA na Síria os jihadistas do Estado Islâmico (EI). ;O próprio presidente (americano), que durante a campanha eleitoral apresentava como um de seus principais objetivos a luta contra o terrorismo, fez agora exatamente o contrário;, apontou.

Na reação inicial, a Rússia anunciou que reforçará a defesa antiaérea síria e fechará o canal de comunicação expressa estabelecido com os EUA para evitar incidentes entre aviões das duas potências durante missões no espaço aéreo sírio. De acordo com Peskov, os militares russos foram avisados sobre o bombardeio à base de Al Shayrat com duas horas de antecedência.

Novas missões
A semidestruição da base não impediu que dois aviões militares de fabricação russa voltassem a decolar de lá, ontem, para missões de ataque na região, próxima a áreas controladas pelos rebeldes. ;Os aparelhos decolaram de Al Shayrat, que está de novo parcialmente em serviço, e atingiram alvos perto de Palmira;, informou em Londres o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que monitora o conflito a partir de redes locais de colaboradores.



Reações


China

Pediu a todas as partes que ;evitem a deterioração da situação; na Síria e afirmou que é contra o uso de armas químicas por qualquer país, organização ou indivíduo.

Irã
;Os EUA ajudaram (o ex-presidente iraquiano) Saddam Hussein a usar armas químicas contra o Irã nos anos 1980. Depois disso, usaram de falsas alegações quanto a armas químicas para atacar o Iraque, em 2003,
e agora a Síria.; (Mohamed Javad Zarif, chanceler)

ONU
;Peço moderação para evitar qualquer ato que aumente o sofrimento do povo sírio. Não existe outro caminho para colocar fim ao conflito que não seja uma solução política.; (António Guterres, secretário-geral)

União Europeia
;Os bombardeios americanos na Síria ilustram a determinação necessária contra os bárbaros ataques químicos.
A UE trabalhará com os EUA para colocar fim à brutalidade na Síria; (Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu)

Brasil
;O Brasil está preocupado com a escalada do conflito militar na Síria (...) reitera sua consternação com as notícias do uso de armas químicas (...) e pede investigações amplas e imparciais sobre o ocorrido em Idlib.; (nota do Itamaraty)

Israel
;Israel apoia totalmente a decisão do presidente Trump e espera que essa mensagem de determinação ante a atuação infame do regime de Bashar al-Assad seja ouvida não apenas em Damasco, mas também em Teerã, Pyongyang e além.; (nota do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu)

Reino Unido
;O governo britânico apoia completamente (o ataque dos EUA). Os bombardeios são uma resposta apropriada ao ataque bárbaro com armas químicas cometido pelo
regime sírio.; (do porta-voz do primeiro-ministro)

França e Alemanha
;Uma base militar do regime sírio utilizada para realizar bombardeios químicos foi destruída por bombardeios americanos (...) Assad tem a plena responsabilidade.; (comunicado conjunto do presidente François Hollande e da chanceler Angela Merkel)

Arábia Saudita
Aliado de peso dos EUA na região, elogiou a ;decisão corajosa do presidente Trump;.

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