A herança de Jerry Adriani

A herança de Jerry Adriani

Mesmo doente, o cantor mantinha projetos em andamento: uma autobiografia e um disco com canções de Raul Seixas

» Alexandre de Paula Especial para o Correio
postado em 25/04/2017 00:00
 (foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)




Apesar de estar doente há bastante tempo e sentir o peso das complicações na saúde, Jerry Adriani nunca parou de produzir. O cantor, que morreu no domingo por causa de um câncer, fez questão de se apresentar enquanto teve forças para isso, deixou escrito um livro e se preparava para gravar um novo disco.

Os dois projetos para 2017, o livro e o disco, foram revelados em janeiro pelo cantor. O primeiro deles Jerry conseguiu concluir. Pouco antes do carnaval, o cantor e compositor entregou tudo o que havia escrito da autobiografia ao pesquisador e escritor Marcelo Fróes (autor de Jovem Guarda: Em ritmo de aventura). Fróes é dono da editora Sonora, que deve publicar a obra ainda em 2017.

Em entrevista ao Correio, em 2013, Jerry já falava sobre o projeto. Na época, o cantor se posicionou também a favor de biografias não autorizadas. ;Como você vai proibir isso? Se algum fã quiser fazer uma biografia minha, só peço que ele cheque alguns dados;, disse. Desde então, ele deixava claro, porém, que queria escrever a própria versão, em primeira pessoa.

Jerry também adiantou histórias que contaria na obra. Uma delas é uma briga que teve com a então namorada Nara Leão. ;Ela começou a me ofender, falar (mal) do meu repertório;, lembrou. Apesar das críticas que recebera, Jerry garantiu que não guardava mágoas com os músicos da MPB. ;Eles tinham a opinião deles. Na verdade, eles criticavam muito a música e também a postura apolítica da Jovem Guarda;, explicou.

Novo álbum
Jerry não conseguiu, porém, terminar o disco que planejava. O compositor já havia selecionado o repertório, também com ajuda de Marcelo Fróes, mas não chegou a entrar em estúdio. O álbum seria uma homenagem a um velho parceiro de Jerry Adriani: o baiano Raul Seixas.

A ideia era gravar canções do repertório do músico de quando ele tocava com a banda Raulzito e Os Panteras, escritas entre 1967 e 1971. Com o grupo, Raul fez parte da banda de apoio de Jerry naquele período.

A ida de Raul para São Paulo, inclusive, foi responsabilidade de Jerry. Ele trouxe o baiano para, além de tocar e ser líder da banda de apoio, produzir os trabalhos de Jerry gravados na época. Raul permaneceu com Adriani até lançar a carreira solo.

A cantora e instrumentista Érika Martins (da banda Autoramas) contou sobre um encontro recente com o compositor no aeroporto de Brasília e de um convite para cantar no álbum. ;A última vez em que nos falamos foi em Brasília, alguns meses atrás. E, agora em fevereiro, recebi uma ligação dele, ele estava com um projeto muito legal, e me convidou. Eu amei. E ele estava super bem, muito feliz com a história do projeto.;

Érika faz parte do grupo Lafayette e Os tremendões (que faz releituras da Jovem Guarda). Por isso, dividiu o palco algumas vezes com Jerry. ;Ele chegava com aquele carisma todo, ele dominava o camarim, adorava contar as histórias, e todos nós, apaixonados por aquilo, ouvíamos com muita alegria. Então, a gente ficou amigo e se encontrava em vários momentos;, lembra.

Brasilienses
A similaridade das vozes tornou Jerry Adriani e Renato Russo próximos. Em entrevistas ao Correio, Jerry contou que isso fez com que eles se tornassem amigos. Segundo o cantor e compositor, Renato Russo achava que a influência de Elvis é que fazia com que os dois tivessem um estilo parecido.

Jerry acreditava que isso foi positivo tanto para ele quanto para Renato. ;Acho que isso ajudou para que o meu público conhecesse a Legião Urbana e vice-versa. Em 1999, eu gravei um disco com as músicas da Legião em italiano. No meu novo CD, tem uma música chamada Terapia, com um estilo que lembra o deles, um rock anos 1980. Em Brasília, o pessoal costuma pedir para eu cantar músicas da Legião;, disse ao Correio em 2011.

Guitarrista e vocalista da banda Autoramas, Gabriel Thomaz foi outro brasiliense a ter contato próximo com Jerry Adriani. Também com o projeto Lafayette & Os Tremendões, o músico tocou algumas vezes com Jerry. ;Desde que começamos o projeto, tivemos a oportunidade de dividir o palco e nos tornarmos amigos de grandes ídolos, roqueiros que estouraram nos anos 1960, como o Erasmo, a Wanderléa, Leno, Lilian, Getúlio Côrtes e também o Jerry, que sempre foi o maior alto astral nos palcos, camarins e em outros encontros;, escreveu em sua página no Facebook.

para ouvir

Família (2012)

O último disco de Jerry Adriani foi lançado para celebrar o natal. O álbum, porém, não era de canções marcadamente natalinas, mas tinha valores relacionados à data.


Forza sempre (1999)
Um dos maiores sucessos de vendas do cantor, no álbum Jerry Adriani cantava sucessos da Legião Urbana com versões em italiano.


Um grande amor (1965)
Primeiro disco do cantor com canções em português, foi com ele que Jerry estorou e chegou ao grande público.


alianíssimo (1964)
Estreia do cantor, trazia canções em italiano. No mesmo ano, gravou também o LP Credi a me.

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