Farsa nas redes sociais

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O que levou Gesianna de Oliveira Alencar a raptar um bebê? De acordo com a polícia, ela planejou toda a ação

» Deborah Fortuna Especial para o Correio » Isa Stacciarini
postado em 08/06/2017 00:00
 (foto: ReproduçãoFacebook)
(foto: ReproduçãoFacebook)
A família de Gesianna de Oliveira Alencar estava animada com a expectativa da chegada de um novo bebê na casa. As fotos nas redes sociais da moça estampavam os rostos felizes do casal, que planejava passo a passo como seria o futuro da criança. Segundo uma tia, os familiares e amigos realizaram até um chá de bebê, na expectativa de uma gravidez que nunca existiu. De um dia para o outro, o sonho virou pesadelo, e os familiares descobriram que tudo não passava de uma farsa. A moça, que era estudante de enfermagem, mas abandonou a graduação, fingiu por meses e, com uma barriga falsa, conseguiu enganar até o próprio marido, Adriano Borges, com quem é casada há dois anos.

Em novembro do ano passado, chegou a postar uma foto ao lado do marido anunciando a falsa gravidez: ;Teremos nosso primeiro pimpolho para amar, educar e dar continuidade ao nosso amor;, escreveu.

Apesar de conviverem juntos, Adriano não suspeitou da mentira da companheira durante todo esse tempo. As supostas consultas de pré-natal eram estrategicamente marcadas nas horas em que ele estava trabalhando, portanto, nunca conseguia comparecer no horário ou acompanhá-la. Além disso, nenhum familiar chegou a ver a barriga de Gesianna, que não fosse debaixo de roupas.

Segundo o diretor adjunto da Divisão de Repressão ao Sequestro (DRS), Paulo Renato Fayão, quando o marido queria passar a mão na barriga da esposa, ela sempre se esquivava da situação. Foi por esse motivo que, quando a Polícia Civil disse aos familiares que a moça era suspeita de ter sequestrado um recém-nascido de 12 dias no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), os familiares passaram a colaborar com as investigações.

Gesianna planejou cada passo. Na manhã do sequestro, forjou uma consulta num posto de saúde, quando supostamente entrou em trabalho de parto e teria tido o bebê. A mentira contada é que ela estaria no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), e que o pai não estava autorizado a entrar na ala hospitalar. Pelo WhatsApp, disse que a bolsa havia estourado e mandou fotos da criança, dizendo que aquele era o filho tão desejado. Depois, teria se livrado da barriga falsa e levado o bebê raptado.

Transtornos

Mas o que teria levado uma mulher a entrar em um hospital com um nome falso e raptar o filho de uma outra pessoa? Fayão não descarta os transtornos psicológicos de Gesianna. Ela, inclusive, passará por uma avaliação psiquiátrica nos próximos dias. De acordo com as investigações, a jovem teria perdido uma gravidez em 2015, no terceiro mês de gestação. E, por ter largado a faculdade, não tinha ligação com nenhum hospital da rede pública ou privada. Atualmente estava desempregada. Uma tia de Gesianna, que não quis se identificar, contou que no dia do sequestro, o marido dela havia descido com os cachorros e que ela havia ;ido ao posto de saúde;. ;Para nós, ela estava grávida, ela disse que fazia pré-natal no posto de saúde. Às 14h, ela passou a foto do bebê sequestrado e nós compartilhamos no grupo da família;, disse, ao considerar a situação constrangedora.

Adriano não chegou a ir trabalhar ontem na empresa, onde atua há mais de três anos como motorista. Segundo uma pessoa que atua no setor de transportes da companhia, ele ligou cedo e informou que a esposa estava desaparecida desde o dia anterior. Mas os colegas de trabalho relatam que ele é uma pessoa tranquila e reservada, e que sempre comentava sobre a gravidez da mulher.

Colaborou Paula Pires, especial para o Correio


A mentira
Conversa de Gesianna com o marido via WhastsApp informando a suposta chegada do bebê




PALAVRA DE ESPECIALISTA

Prisão de até seis anos
Gesianna de Oliveira Alencar corre sério risco de ficar na cadeia por um longo tempo. De acordo com o advogado criminalista Luís Henrique Machado, no caso de sequestro e por se tratar de um crime praticado contra menor de 18 anos (no caso trata-se de um bebê de 13 dias), a pena de reclusão varia entre dois e seis anos. ;Se, neste sequestro, for provado maus-tratos ou grave sofrimento físico ou moral à vítima, a pena de reclusão é aumentada de dois a oito anos;, acrescentou.

Machado observou, porém, que, caso seja comprovado que a sequestradora tenha problemas psicológicos, o artigo 26 do Código Penal entende que ;se ela for inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato;, ela poderá ser isenta de pena. Se for comprovada apenas perturbação de saúde mental, a acusada pode ter a pena reduzida de um a dois terços. ;Claro que tem de estar validado por uma perícia judicial;, afirmou.


Avaliação psicológica
Para a professora associada no Programa da Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura (PCL) do Instituto de Psicologia na Universidade de Brasília (UnB), Daniela Chatelard, as razões que levaram Gesianna a sequestrar o bebê podem ser diversas. ;Em primeiro lugar, é preciso analisar o histórico emocional da moça. É necessário saber a história de vida dela. Como era a relação dela com a mãe, com a avó, por exemplo. A história de maternidade, que pode estar mal resolvida na cabeça dela. Ela precisa ser avaliada;, destacou.

Segundo Daniela, é possível que Gesianna tenha alguma patologia, como psicopatia. ;Ou o sequestro pode ter sido fruto de fantasias infantis. São grandes as chances de que ela tenha algum transtorno mental, pois cometeu um crime. Mas o mais importante agora é ouvi-la, acompanhá-la, avaliá-la, para tentar entender o que aconteceu. O desejo de ser mãe, de ter um filho, não justifica um crime. Ainda não podemos afirmar exatamente o que levou Gesianna a sequestrar o neném, pois as informações sobre ela são rasas. Ela precisa passar por uma avaliação psicológica.;


O farsa de Gesianna

Surpresa entre os vizinhos

; LUIZ CALCAGNO



Moradores da QE 38 do Guará 2, endereço de classe média da região administrativa, estranharam o movimento além do normal na quadra na tarde de terça-feira. Carros desconhecidos rondavam a região e grupos de pessoas foram vistas conversando em diversos locais da quadra. Ontem, ligaram os pontos. Equipes da Polícia Civil circulavam no local à espera de Gesianna de Oliveira Alencar, acusada de roubar um bebê no Hran. Entre as pessoas que concordaram em conversar com a reportagem, o clima era de surpresa e incredulidade. Conhecida na região como uma pessoa tranquila, a mulher que morava com o marido, na casa da avó, foi presa na manhã de qua

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