Nudez e atitude na Esplanada

Nudez e atitude na Esplanada

Mais de 100 pessoas tiraram a roupa no Museu Nacional da República para as lentes do fotógrafo Kazuo Okubo

» ISA STACCIARINI » PEDRO GRIGORI Especial para o Correio
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Kazuo Okubo/Divulgação)
(foto: Kazuo Okubo/Divulgação)


Uma performance de nu artístico reuniu 115 pessoas em frente ao Museu Nacional da República. Sob sol forte, homens e mulheres tiraram a roupa e posaram para o fotógrafo radicado em Brasília Kazuo Okubo. O evento, batizado de ;Fotona;, ocorreu ontem pela manhã e, segundo organizadores, bateu o recorde do maior número de pessoas nuas no DF.

O estudante Thiago Adlyer, 28 anos, participou da mobilização. Foi a terceira vez que ele posou nu em uma apresentação artística. Contou que não teve dificuldade em trabalhar o corpo, pois adota técnicas das artes cênicas. ;É importante trazer a consciência corporal e artística para a sociedade ver o nu de forma diferente, não como ato obsceno. Estávamos ali como artistas;, destacou.

Além da produção artística, Thiago ressaltou que a performance foi importante para despertar a dominância do corpo. ;O corpo é uma parte individual e cada um tem direito do seu. Ninguém pode invadir o espaço do outro. Precisamos perder o olhar invasivo sobre o corpo;, afirmou.

Bárbara Nascimento, 27 anos, nunca tinha posado nua. Para ela, que já teve dificuldade em aceitar o próprio corpo, a experiência foi libertadora. ;Pude quebrar esse tipo de barreira, principalmente inserida no universo das artes. As pessoas julgam muito pela aparência, porque pensam que quem é artista precisa estar no padrão, e não é assim;, explicou.

A estudante de artes cênicas ressaltou que não ficou tímida. ;Na hora, fiquei inspirada e foi algo muito libertador, ainda mais porque ocorreu em frente ao Museu Nacional da República, um espaço que quase ninguém valoriza;, complementou.

Responsável pela idealização, concepção e produção do Fotona, Diego Ponce de Leon, 35, conta que o evento teve objetivo de ir contra o momento de caretice e conservadorismo instalado na capital federal. ;A nossa Brasília está se tornando uma cidade-dormitório. Ninguém pode cantar, rir ou se divertir durante a noite. Vivemos um monte de lei do silêncio, bares sendo fechados, artistas sendo calados. Queremos mostrar que o concreto de Brasília também é feito de gente, arte e expressão;, garantiu.

Para o fotógrafo Kazuo, 58, o evento mostrou uma cara diferente da capital. ;As pessoas enxergam o corpo como pecado, uma coisa ofensiva. Mas nós nascemos nus nesse planeta e não levamos nada daqui. O corpo é a nossa casa, e tem gente que tem uma grande e pequena, mas não devemos ter vergonha de mostrá-lo;. Entre os fotografados estava Maikon K, o performer curitibano detido por um policial militar enquanto iniciava uma performance nu, em julho, em Brasília. O acesso foi restrito e supervisionado para garantir que apenas pessoas com mais de 18 anos pudessem participar. Toda a área foi cercada por alambrados. A PM esteve no local, mas acompanhou de longe.

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