Reviravolta na terapia hormonal

Reviravolta na terapia hormonal

Estudo com 27 mil mulheres mostra que o tratamento não aumenta o risco de mortalidade, como o indicado por uma pesquisa feita com o mesmo banco de dados nos anos 2000. Para especialistas, a constatação deve mudar o paradigma da abordagem médica

postado em 17/09/2017 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press 12/9/16)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press 12/9/16)

De panaceia a vilã, a terapia hormonal, em quase seis décadas de existência, nunca deixou de levantar polêmica no meio médico. Se por um lado, no início, houve grande entusiasmo com suas propriedades ; além dos sintomas da menopausa, era indicada para a prevenção de doenças cardiovasculares, osteoporose e câncer, sendo ainda tida como elixir da juventude eterna ;, o momento de expurgo veio nos anos 2000, quando um estudo epidemiológico sobre seus efeitos com cerca de 17 mil pessoas indicou o oposto do esperado. O risco de problemas cardíacos e trombose aumentava, em vez de reduzir; a mortalidade era maior entre as participantes que faziam uso do tratamento, que também foi associado ao câncer de mama. Não à toa, se um ano antes do resultado ser publicado quase 18 milhões de norte-americanas faziam a reposição hormonal, esse número caiu para 5,8 milhões em 2008.

Mas, agora, uma nova análise ainda mais robusta, com dados de 27 mil mulheres, redimiu o tratamento. O trabalho, publicado na revista Jama, da Associação Médica Norte-Americana, não encontrou diferença na mortalidade por todas as causas entre o grupo que fez uso dos hormônios e o que recebeu placebo, ao longo de 18 anos de acompanhamento das participantes (Leia mais abaixo). Além do grande número da amostra, o desenho do levantamento dá força ao achado, que, na opinião de médicos, deve mudar o paradigma da terapia hormonal: em vez de escolher outra população para avaliar, o trabalho atual, conduzido por JoAnn E. Manson, do Brigham and Women;s Hospital da Faculdade de Medicina de Harvard, analisou a taxa de mortalidade das mesmas mulheres do estudo dos anos 2000 e das que entraram na avaliação da década de 1990, quando os primeiros resultados pareciam encorajadores.

Tanto o de agora quanto os artigos dos anos 1990 e 2000 basearam-se nos dados dos ensaios clínicos sobre terapia hormonal do Womens;s Health Initiative (WHI), um grande estudo epidemiológico financiado pelo governo dos Estados Unidos que investiga estratégias de prevenção de doenças coronarianas, osteoporose e câncer colorretal em mulheres na pós-menopausa. Seu banco de dados traz informações de mais de 100 mil norte-americanas que participaram de diversas pesquisas, não só com terapia hormonal.

Agora, em vez de procurar a relação entre o uso de hormônios femininos pós-menopausa e a mortalidade apenas por uma ou outra doença específica, a equipe de Manson se focou na mortalidade por todas as causas, ou seja, o risco de óbito por qualquer motivo, ao longo do período analisado ; embora também tenha feito o recorte por enfermidade. ;A mortalidade por todas as causas fornece uma medida extremamente importante para avaliar uma intervenção como a terapia hormonal, que possui uma gama complexa de benefícios e riscos;, disse a pesquisadora, em um comunicado.

Resultados

Nos ensaios clínicos, as mulheres foram incluídas em dois regimes terapêuticos: estrogênio e progesterona e apenas estrogênio (caso das que fizeram histerectomia, a cirurgia de retirada de útero). Em ambas as situações, elas foram divididas aleatoriamente em dois grupos. Parte usou o medicamento real, enquanto a outra parte utilizou placebo. O tempo médio de tratamento foi de 5,6 anos (grupo do estrogênio com progesterona) e 7,2 anos (só estrogênio). Todas as voluntárias tinham entre 50 e 79 anos quando iniciaram a reposição hormonal nos testes, realizados entre 1993 e 1998.

Houve 7.489 mortes durante e depois da participação delas nos ensaios clínicos. No grupo da terapia hormonal, o percentual de mortalidade por todas as causas foi de 27,1%, enquanto que, no do placebo, foi de 27,6%. Nem o regime combinado nem o tratamento só com estrogênio esteve associado a risco de óbito por qualquer causa, nem especificamente por câncer e doença cardiovascular. No caso do câncer de mama, por exemplo, um dos maiores temores das mulheres que se submetem à terapia hormonal, a mortalidade foi de 0,5% no grupo de estrogênio mais progesterona e de 0,47% no de placebo. No braço do estrogênio sozinho, a taxa foi de 0,49%, exatamente a mesma verificada entre as mulheres que usaram placebo.

Segurança

;O impacto desse estudo é fantástico;, avalia Rita Weiss, presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). ;Um número muito grande de mulheres desistiu de fazer a terapia hormonal com medo de morrer, por causa dos estudos anteriores. Esse de agora será um marco no sentido de dizer a elas que fazer a terapia hormonal não vai provocar a morte mais cedo;, ressalta. ;O trabalho teve dois objetivos: o primeiro, avaliar se havia aumento da mortalidade geral. A resposta foi não. O segundo, verificar se as mulheres que fizeram o tratamento morriam mais de câncer. E a resposta também foi não. Por isso, os resultados dão um suporte seguro às mulheres que têm indicação de fazer a terapia hormonal;, assegura a endocrinologista.

Rita Weiss explica que, além do caso de menopausa precoce (antes dos 40 anos), quando é necessário usar os hormônios para evitar uma série de problemas graves (Veja infografia), a terapia hormonal é indicada para mulheres na menopausa ou próximo do início dela que apresentem sintomas como fogacho, sudorese noturna, insônia e secura vaginal, entre outros. ;Infelizmente, por desinformação, muitas mulheres passam por tudo isso e não fazem o tratamento;, diz. No próximo mês, a Sbem vai fazer uma campanha de conscientização para esclarecer o público feminino sobre a terapia hormonal.

A servidora pública Jussiara Rocha de Figueiredo, 45 anos, começou a sentir os incômodos da menopausa há seis meses. ;Comecei a ter o calorão, além de insônia, irritação e queda de disposição. Às vezes, acordava ensopada de suor. Era uma sensação de ter envelhecido muito nova;, diz Jussiara, que sempre teve uma vida bastante ativa. Ela conta que teve dúvidas sobre a terapia, principalmente em relação ao risco de câncer. Porém, foi tranquilizada pela médica, que receitou o hormônio natural, idêntico ao produzido pelo organismo. ;No começo, você fica com medo, mas, entre fazer e não fazer, não tive dúvida. Entre quatro e seis semanas, não tinha mais sintomas;, revela.

Foco em dosagens individualizadas
O segredo, hoje, é a individualização do tratamento, com dosagens e formas de administração de acordo com cada paciente, explica Maria Celeste Osório Wender, presidente da Comissão de Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). ;A gente prioriza o estrogênio porque é ele quem faz o efeito de verdade contra os sintomas

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