Anúncio das medidas

Anúncio das medidas

» SIMONE KAFRUNI ENVIADA ESPECIAL
postado em 27/02/2018 00:00
 (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
(foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)


Rio de Janeiro ; Desde que o governo federal anunciou a intervenção federal no Rio de Janeiro, paira um clima de incerteza na capital fluminense, sobretudo, entre a população, mas também entre especialistas em segurança pública e até militares que realizam operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em comunidades tomadas pelo tráfico. Hoje, o interventor, general Braga Netto, vai anunciar as medidas do plano de intervenção e os nomes daqueles que chefiarão as polícias Civil e Militar, o Corpo de Bombeiros e o sistema penitenciário. Essas definições, no entanto, não devem dissipar as dúvidas e tampouco o medo, até que surtam efeitos.

No entendimento do professor de Sociologia das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de Brasília (UnB) Arthur Trindade, ex-secretário de segurança pública do Distrito Federal, o interventor tem várias alternativas para apresentar hoje. ;Pode partir para o enfrentamento da criminalidade, recompor a capacidade operacional das polícias com recursos federais ou combater a corrupção no sistema de segurança pública;, elencou. Trindade ressaltou que a condição de o interventor federal estar acima da política local favorece a última opção. ;Agora, para garantir a sensação de segurança, só se entupir a cidade de soldados. Aí corre o risco de eleger alguém;, opinou.

No Exército desde a ocupação do morro do Alemão, em 2010, um militar de uma unidade tradicional do Rio de Janeiro, que pediu anonimato, admitiu que há incerteza dentro da corporação. ;Entregamos o Alemão pacificado e hoje voltou tudo como era antes. A população quer a nossa presença, até a polícia se sente mais segura com o Exército perto, mas o trabalho de inteligência tem que ser sincronizado e esbarra na vaidade das instituições;, revelou.

Na opinião do advogado Luís Machado, 44 anos, há lugares, no Rio, dominados pela criminalidade. ;Nesses locais, as forças policiais não conseguem penetrar, ou por medo ou por corrupção. Então, a intervenção é um mal necessário;, afirmou. Ele ressaltou, contudo, que há um temor de que o Exército não saiba lidar com segurança urbana. ;Quando os criminosos são sufocados, eles reagem com terrorismo na cidade, queimando ônibus. Não sabemos se a intervenção vai ser suficiente para neutralizar a criminalidade ou se vai causar uma revolta maior;, disse.

Dono de uma banca de jornal no centro da cidade, Marcos Vinícius Gomes Santoro, 47, acredita que a medida é ;enrolação;. ;As peças não mudam e as instituições caíram no descrédito. A cidade está entregue à bandidagem. Tenho este negócio há 30 anos e, pela primeira vez na vida, tenho medo de sair à noite. Não tem PM na rua;, contou. ;A gente ainda não faz ideia se a intervenção vai ser positiva para a cidade, porque o Exército já está aí há algum tempo e não se vê resultado nenhum. Mas o Rio precisa. A coisa está feia;, criticou o taxista Mauro Santos, 45 anos.

O estudante de fotografia Sérgio Coelho, 41 anos, acredita que há interesse político por trás da intervenção. ;Ainda não sei se é para o presidente (Michel) Temer tentar se reeleger ou para mostrar que o Exército não adianta nada e acabar com a popularidade do Bolsonaro. O que eu sei é que o que aconteceu na Rocinha, com a presença das Forças Armadas, não mudou em nada a nossa vida. Durante o carnaval, foi um Deus nos acuda. Estamos vivendo o medo real;, lamentou.

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