Golpe lesou idosos de áreas nobres do DF

Golpe lesou idosos de áreas nobres do DF

Quadrilha aplicava golpe complexo, via telefone e com motoboys, para acumular vítimas, a maioria com mais de 65 anos. Cada cartão clonado rendia, em média, R$ 12 mil para compra de celulares, eletrônicos e eletrodomésticos

» ANA MARIA CAMPOS » AUGUSTO FERNANDES Especial para o Correio
postado em 02/03/2018 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Presos ontem na Operação Luthor, integrantes da organização criminosa que aplicavam golpes em idosos para clonar cartões de crédito e comprar artigos de luxo são a ponta de um esquema com escala maior. Eles não agiam sozinhos. Policiais civis da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Draco) precisam descobrir, agora, como os criminosos tinham acesso a dados pessoais sigilosos das vítimas, em geral, pessoas com mais de 65 anos, poder aquisitivo elevado e moradores de área nobre de Brasília. Essas informações eram compradas clandestinamente, segundo a investigação.

Os alvos da quadrilha eram escolhidos com base nesse perfil obtido a partir de informações privilegiadas, como endereço, CPF e limites de crédito, disponíveis nos cadastros dos clientes nos bancos. Outro detalhe chama a atenção: os golpistas usam um número de telefone com características de central, com ramais, para que a vítima seja transferida de atendente a atendente, como normalmente ocorre em serviços dessa natureza. A investigação apontou a participação de 13 acusados, dos quais 10 foram presos ontem.

A Justiça decretou a prisão preventiva de seis suspeitos, entre eles o suposto chefe do grupo, José Augusto Moreira dos Anjos, 27 anos, e a temporária de outros cinco. Os agentes da Coordenação de Combate ao Crime Organizado, ao Crime contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (Cecor), responsável pela operação, conseguiram cumprir 10 mandados. Um dos suspeitos, apontado como receptador das mercadorias compradas com os cartões clonados, estava foragido até a noite de ontem.

O esquema funciona com sofisticação. Em geral, uma ligação com prefixo de São Paulo é feita depois do horário de expediente bancário. Do outro lado da linha, um senhor ou uma senhora recebe a informação de que uma compra foi realizada indevidamente com o cartão de crédito. O idoso é, então, instruído a cancelá-lo. Mas essa transação é feita por meio dos próprios golpistas, que, em vez, de bloqueá-lo, obtêm a senha.

Em seguida, é oferecido um serviço de delivery. A vítima é orientado a cortar o cartão na tarja e entregá-lo a um motoboy que irá em sua casa buscar os pedaços. Até uma suposta senha é fornecida para que o cliente cobre do motoqueiro e se sinta seguro para entregar o cartão picotado. O interesse dos golpistas é o chip, que não fica destruído e que pode ser usado para a clonagem. Mais de 80 vítimas registraram ocorrência, mas o prejuízo pode ser muito maior. Muitas acabam nem procurando a Polícia Civil, porque se sentem envergonhados por caírem no golpe.

É disso que se aproveitam os golpistas, do abalo emocional e da insegurança, que, muitas vezes, o idoso sente nessas situações. Segundo o coordenador da Cecor, o delegado Fernando Cesar Costa, o registro da ocorrência é fundamental. ;Somente com a notificação dessas condutas nós temos condições de dar início a um trabalho de repressão qualificada. Solicitamos que essas comunicações sejam feitas em qualquer delegacia para que possamos impedir essa fraude;, afirmou.

Papel definido

Além da clonagem do cartão e das compras, o grupo revendia os produtos adquiridos, sobretudo smartphones de última geração. Um dos receptadores comercializava os aparelhos em uma loja da Feira dos Importados. De acordo com a investigação da Cecor, a quadrilha também atuou fora de Brasília ; podem existir receptadores em Goiânia. A quadrilha usava, em média, R$ 12 mil por cartão clonado. Em uma tarde, a associação criminosa fez uma compra de R$ 30 mil.

No ano passado, quatro acusados haviam sido presos em flagrante pela Polícia Militar do DF pelo mesmo tipo de crime. Contudo, por falta de provas ou mediante pagamento de fiança, eles foram liberados. Fernando Cesar ressalta que a única forma de mantê-los fora das ruas ocorre quando uma investigação, como a da Operação Luthor, obtém provas que levem a condenações judiciais.

O grupo atuava em diferentes funções. Existia quem clonava os cartões, quem fazia as compras, quem revendia os produtos e os receptadores. Alguns disponibilizavam a loja para operações com os cartões de crédito e cobravam uma porcentagem pela operação. Segundo a investigação, é o caso do dono de um petshop de Taguatinga, que emprestava as máquinas dos cartões de seu estabelecimento para créditos e débitos.

Além das compras, o grupo fazia saques em terminais de autoatendimento. Um dos integrantes preso, Roberto Moreira, foi encontrado com R$ 10 mil em espécie. O dinheiro estava nos bolsos da calça e em uma mala. Nas buscas, policiais apreenderam também motocicletas, geladeiras, televisões, relógios, smartphones entre outros produtos, adquiridos pelos criminosos com os cartões das vítimas. Um dos suspeitos mencionou em conversa com outro integrante da organização que comprou, numa única transação, 50 iPhones.

Anjos

O Correio conversou com uma vítima que só não teve prejuízo porque o filho dela percebeu a fraude e cancelou o cartão de crédito a tempo. A aposentada relatou que chegou a entregar o cartão a um motoboy que bateu na sua casa. ;Ele chegou de cara limpa para buscar o cartão. Eu senti que poderia estar algo errado, mas todas as pessoas no telefone eram muito convincentes. Tentei ligar para o gerente do meu banco, mas uma mulher atendeu dizendo que me ajudaria e que estava tudo certo;, conta. ;Disseram que o serviço de busca do cartão se chamava Anjos;, detalhou. Ela registrou ocorrência na 5; DP (Área Central).

O esquema de golpes foi descoberto durante as investigações da Operação Panoptes, que desbaratou uma organização voltada a fraudes em concursos. José Augusto Moreira dos Anjos foi investigado por policiais civis do DF e de Goiás, como integrante do esquema nos certames. Na investigação, suspeitos foram identificados por vendedores de lojas onde fizeram compras com os cartões clonados. Eles priorizavam gastos com telefones celulares, eletrônicos e bebidas. Em seguida, revendiam esses produtos. Os criminosos responderão por estelionato, furto mediante fraude, lavagem de dinheiro, receptação, entre outros crimes.




13
Número de envolvidos na quadrilha, segundo a investigação policial

50
Total de iPhones comprados por um integrante da quadrilha em uma transação

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