Músculos à mostra

Músculos à mostra

Presidente Vladimir Putin anuncia "míssil invencível", apresenta arsenal capaz de enganar defesas inimigas e faz advertência aos EUA. No discurso, telão mostrou simulação de ataque à Flórida. Washington denuncia atitude "irresponsável" e violação a tratados

Rodrigo Craveiro
postado em 02/03/2018 00:00
 (foto: Yuri Kadobnov/AFP)
(foto: Yuri Kadobnov/AFP)


A data foi escolhida a dedo: 17 dias antes das eleições presidenciais russas. O método utilizado, com imagens de vídeo em um imenso telão ao fundo, buscou intensificar a retórica e produzir um espetáculo midiático. Mas o que mais causou preocupação em especialistas e no governo dos Estados Unidos foi o teor do discurso de Vladimir Putin. Em pronunciamento anual ao Parlamento, o presidente russo adotou uma postura desafiadora em relação aos americanos ; antigos inimigos durante a Guerra Fria ; e anunciou que detém um míssil ;invencível;, ;capaz de atingir qualquer lugar do planeta;, além de um arsenal que inutilizará as defesas inimigas. ;Eles precisam levar em conta uma nova realidade e entender que isso não é um blefe. (;) A Rússia ainda tem o maior potencial nuclear do mundo, mas ninguém nos escutava. Ouçam-nos agora!”, aconselhou Putin, ante de mencionar os EUA. ;O que vocês tentaram fazer para incomodar, impedir e atrapalhar a Rússia não conseguiram.;

Ao apresentar o suposto arsenal, o chefe do Kremlin utilizou apresentações em multimídia mostrando uma chuva de mísseis sobre o estado norte-americano da Flórida, onde o presidente Donald Trump possui uma mansão de veraneio em Mar-a-Lago. Entre as novas armas de Putin (veja quadro), estão a ogiva de planador hipersônico Avangard, a qual poderia voar a velocidade hipersônica, em baixa altitude; enganar radares; e transportar carga nuclear. ;Ela será praticamente invulnerável. Como o seu alcance é ilimitado, ela pode manobrar o quanto for necessário;, disse Putin, ao comparar o artefato com ;uma bola de fogo direcionada ao alvo;. O líder russo citou o míssil Kinzhal (;adaga;, em russo), lançado de um avião e apto a burlar sistemas antiaéreos.

Dissuasão
O Departamento de Estado americano classificou de ;irresponsável; o anúncio de Moscou e denunciou a violação do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), assinado 31 anos atrás. ;Isso é algo que certamente não gostamos de assistir. Não consideramos isso como o comportamento de um ator internacional responsável;, disse a porta-voz Heather Nauert. ;Putin confirmou o que o governo dos EUA sabia há muito tempo, mas que a Rússia negava. Ela vem desenvolvendo sistemas de armas desestabilizadores por mais de uma década, em violação direta de suas obrigações contratuais.;O Pentágono minimizou a atitude de Putin. ;Não se trata de defesa, mas sim de dissuasão;, disse a porta-voz Dana White.

Diretor do Centro para Análise Política-Militar do Hudson Institute, sediado em Washington, Richard Weitz disse ao Correio ver motivação eleitoreira no discurso de Putin. ;O presidente até mudou o momento do discurso para aproximá-lo das eleições. No entanto, essas armas estão em desenvolvimento há anos;, comentou. Segundo ele, a eficiência do arsenal permanecerá incerto até que seja testado. ;Moscou pode sobrecarregar o sistema de defesa dos EUA, incapaz de repelir a dissuasão nuclear da Rússia. O anúncio dos novos sistemas colocará fim à preocupação russa com o escudo antimísseis de Washington.;

Para Stephen Blank, especialista em Rússia pelo Conselho de Política Externa Americana, Putin apresentou os armamentos para intimidar os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte. ;Mas não está claro se tais armas estão diponíveis ou se estão na fase de produção;, sublinhou à reportagem. Os Estados Unidos abandonaram o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM) em 2001. ;Não creio que a ação de Moscou tenha sido uma resposta a isso, a menos que os russos levem 16 anos para construir tais armas.;

Richard Aboulafia, vice-presidente da Teal Group Corporation, grupo especializado em sistemas de defesa e baseado na Virgínia (EUA), fez uma análise crítica do papel geopolítico da Rússia. De acordo com ele, a economia e o comércio de Moscou com o mundo se tornaram irrelavantes, com a queda no preço do petróleo impactando negativamente a relevância do Kremlin. ;A intervenção na Síria não reforçou a imagem da Rússia como potência, e grandes aliados sofreram ruptura ou foram isolados globalmente, como Líbia e Cuba. A única coisa que restou foram as armas nucleares;, explicou ao Correio.

Aboulafia não descarta nova Guerra Fria, mas adverte que, dessa vez, a Rússia detém menos recursos industriais, científicos e financeiros reservados à defesa. ;O gasto pesado em sistemas apocalípticos faz pouco sentido.;



"A Rússia ainda tem o maior potencial nuclear do mundo, mas ninguém nos escutava.
Ouçam-nos agora!”


;O que vocês (americanos) tentaram para incomodar, impedir, atrapalhar a Rússia não conseguiram. Todos os trabalhos de reforço da capacidade ofensiva da Rússia foram e são realizados;

Vladimir Putin, presidente da Rússia




"O presidente Putin confirmou o que o governo dos Estados Unidos sabia há muito tempo. (;) A Rússia vem desenvolvendo sistemas de armas desestabilizadores por mais de uma década, em violação direta de suas obrigações contratuais;


Heather Nauer, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano




Pontos de vista

Por Stephen Bank



Pronta para a guerra nuclear

;O anúncio de Putin indica a crença da Rússia de que ela deveria estar pronta para travar uma guerra nuclear e que utilizará a força para fazer com que sua voz seja ouvida. Isso porque é incapaz de competir com os Estados Unidos e com a China de nenhuma outra maneira. Não estamos assistindo a uma Guerra Fria, mas a um fenômeno diferente. No entanto, a Rússia declarou que tem estado ;em guerra contra o Ocidente;, por meio do combate da informação, desde 2005.;

Especialista em Rússia pelo Conselho de Política Externa Americana (em Washington)


Por Richard Weitz



Apoio para a modernização

;Os Estados Unidos estão modernizando as suas próprias forças ofensivas estratégicas. O anúncio da Rússia não mudará isso, mas pode facilitar para que o governo de Trump obtenha mais apoio do Congresso a este caro programa de modernização. De fato, Moscou possui mísseis nucleares para destruir qualquer outra nação ; essas capacidades serão reforçadas, mas podem não valer os custos financeiros.;

Diretor e analista do Centro para Análise Política-Militar do Hudson Institu

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