O legado de Madiba

O legado de Madiba

No centenário de Nelson Mandela, país ainda convive com as cicatrizes do apartheid e sonha com a reconciliação entre as raças. Ex-presidente semeou terreno para a futura igualdade

Rodrigo Craveiro
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Arte de Maurenilson Freire sobre foto de Leon Neal/AFP)
(foto: Arte de Maurenilson Freire sobre foto de Leon Neal/AFP)


Na próxima quarta-feira, a África do Sul renderá um tributo ao seu filho mais ilustre. Um homem que permaneceu atrás das grades por 28 anos e, em vez de mergulhar no ódio e no rancor, escolheu a reconciliação nacional: tornou-se presidente e pôs fim ao apartheid, o regime de segregação racial que condenou a maioria negra às piores condições de vida. Em 18 de julho de 1918, Nelson Rolihlahla Mandela nascia no vilarejo de Mvezo, na Província do Cabo. Filho de Gadla Mandela, um chefe local e conselheiro da monarquia, e de Nosekeni Fanny, uma integrante do clã Xhosa, Madiba (;pai da nação;) morreu em 5 de dezembro de 2013 e deixou um legado de pacificação em um país que conviveu com o preconceito institucionalizado entre 1948 e 1994.

No centenário de Mandela, a igualdade entre brancos e negros está longe de ser alcançada. As cicatrizes do apartheid se fazem presentes nas condições econômicas e sociais dos negros ; eles somam 80,2% dos 54,8 milhões de sul-africanos contra 8,4% de brancos.

;Infelizmente, o sonho de Mandela de reconciliação e de paz entre todas as raças parece estar se desmoronando. A África do Sul ainda é muito desigual, com mais de 60% dos negros vivendo na pobreza, em comparação a somente 1% dos brancos;, explicou ao Correio Sithembile Mbete, cientista política da Universidade de Pretória.

De acordo com ela, as disparidades econômicas inter-raciais perpetuam as tensões entre os povos. ;Muitos sul-africanos brancos se recusam a conhecer que o apartheid foi algo errado e culpam os negros por viverem na pobreza. A lição que estamos aprendendo é que não se pode reverter séculos de racismo em apenas 24 anos. Mas, as coisas estão melhores do que eram antes de 1994;, reconhece.

Sithembile admite que o apatheid deixou ;profundas cicatrizes; na sociedade e na política da África do Sul. ;Qualquer sistema que exclua e oprima mais de 80% da população, em favor do restante, causará danos ao povo. A qualidade da educação, da moradia, da saúde e as oportunidades econômicas foram decididas pela raça. Se os brancos tiveram o melhor de tudo, os negros amargaram o pior;, lamentou. A professora acredita que as consequências de 45 anos de segregação ainda se fazem sentir e admite que as crianças de hoje sofrem os efeitos do passado.

Desconfiança
As leis do apartheid caíram, mas a desconfiança entre brancos e negros permanece escancarada na África do Sul. ;Sob o apartheid, brancos e negros viviam em áreas distintas, e tinham escolas, hospitais, praias e transporte públicos separados. Os sul-africanos ainda vivem dentro de seus grupos raciais e não interagem com frequência;, observou Sithembile.

Durante a luta pacífica pela igualdade e o tempo em que ocupou a presidência, entre 1994 e 1999, Mandela precisou desapontar muitos de seus simpatizantes, tratar inimigos como amigos e aceitar o risco de comprometer alguns de seus princípios políticos. ;Esta é uma lição que muitos líderes mundiais podem aprender. Atualmente, governantes se recusam a agir orientados pelo bem das pessoas. Todos deveríamos nos lembrar desta lição neste centenário de Mandela;, comentou a especialista de Pretória.

Nos últimos 100 anos, desde o nascimento de Mandela, muito mudou. Sithembile comenta que a principal transformação foi a remoção das leis e das políticas segregacionistas, que existiam desde a colonização, em 1652. ;Apesar de ter dado aos sul-africanos de todas as raças a igualdade perante a lei, é muito difícil reverter isso em melhoria real na vida das pessoas. Politicamente, o maior avanço foi a concessão de oportunidade de voto a todos. Os negros somente tiveram permissão para tal em 1994;, lembra a professora.

Sob o ponto de vista social, os sul-africanos agora têm a chance de se conhecer por meio da raça, da religião e da etnia. Pelas ruas das principais cidades do país, se vê mais casais inter-raciais, e pessoas negras e brancas se socializando mais umas com as outras. Aos poucos, o sonho de Madiba vai se tornando realidade. ;Eu aprendi que a coragem não era a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem bravo não é aquele que não sente medo, mas o que conquista aquele medo;, disse, certa vez. A coragem de Mandela inspira milhões a vencerem o medo, a opressão e a desigualdade.





Eu acho...
;O maior legado de Nelson Mandela é o de responder, com amor, à adversidade e à opressão que enfrentou, em vez de ódio e amargura. Ele poderia ter saído buscando vingança contra o governo do apartheid. Preferiu conquistar a paz e a reconciliação para prevenir a guerra civil. Dessa forma, deu aos sul-africanos uma segunda chance para construir um país próspero e pacífico.;
Sithembile Mbete, cientista política da Universidade de Pretória, na África do Sul


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