Estreia de peso

Estreia de peso

Apontada como promessa da nova geração, Beatriz Leal Craveiro, autora de Mulheres que mordem, finalista do Prêmio Jabuti de 2016, também organiza um festival literário

Gabriela Walker Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)


Em 1977, em meio à opressão e à perseguição impostas pela última ditadura argentina (1976-1983), um grupo de mulheres se uniu para buscar seus filhos e netos sequestrados pelo Estado. Era o início da organização de direitos humanos Avós da Praça de Maio. A história real dessas mulheres guerreiras impressionou a escritora paulista Beatriz Leal Craveiro, que há 14 anos mora em Brasília. Inspirada pela batalha travada pelas vizinhas, Beatriz criou seu primeiro romance, Mulheres que mordem, uma obra despretensiosa, porém impactante, que a lançou para o mundo da literatura nacional.

Finalista do Prêmio Jabuti 2016 e apontada como uma promessa da nova geração de escritores da capital, Beatriz, 32, confessa ter começado a escrever timidamente. ;Sempre escrevi, mas não levava muito a sério;, conta. Em 2012, quando leu uma reportagem sobre as avós argentinas, recorreu à caneta para refletir. ;Me pegou de maneira tal que inventei uma história e comecei a escrever;, revela.

Sem a pretensão de chegar a um livro, ela construiu o texto aos poucos, até perceber que a história era interessante e, mais do que um conto, poderia render um romance. ;Na época, eu tinha comprado uma bicicleta nova e queria andar o tempo todo. Decidi que só andaria de bicicleta quando fosse escrever. Era como se fosse uma recompensa;, conta, sobre a rotina que estabeleceu para finalizar a narrativa.

Sobre duas rodas, ela percorreu as quadras do Plano Piloto, cenário de uma de suas personagens. A Brasília que aparece no livro é também resultado dessas incursões, escolhidas de forma aleatória, que aprofundaram a relação da autora com a cidade.

Financiamento coletivo
Mesmo com o material pronto, foi difícil acreditar que tinha em mãos um romance. ;Primeiro pensei: gente, será que é mesmo? Aí, dei para amigos lerem e as pessoas disseram ;pode levar a sério, é um livro;;, lembra. Com a obra registrada, ela entrou em contato com grandes editoras, mas não obteve respostas.

Seguindo o caminho de muitos autores iniciantes, Beatriz procurou formas alternativas de publicação. Em um seminário para escritores independentes, realizado no Rio de Janeiro, ela conheceu a editora Ímã, que comprou a ideia do livro e decidiu incluí-lo em um projeto de financiamento coletivo. ;Foi uma espécie de crowdfunding. A diferença é que tinha o selo da editora por trás;, explica.

A experiência deu certo e, ao menos, 200 exemplares foram vendidos até o lançamento, em 2015. Beatriz estima ter vendido uma quantidade semelhante em feiras e eventos nos quais participou nos últimos anos. Mulheres que mordem pode ser encomendado on-line ou baixado para leitores digitais.

Desde a estreia na literatura, a autora participou da coletânea Novena para pecar em paz, publicada em outubro de 2017, com outras oito autoras de Brasília, e venceu o 14; Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, promovido pela prefeitura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.

Filha de engenheiros e formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Beatriz é especialista em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Ela divide seu tempo entre o emprego de assessora de imprensa e projetos literários, como o Livre! ; Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos, que acontecerá durante o mês de agosto e é organizado em parceria com a amiga e também escritora, Paulliny Gualberto Tort.

A primeira edição do evento, que ocorrerá a cada domingo, reunirá um escritor de Brasília e um de fora para conversas sobre questões como democracia, racismo e igualdade.





Paulliny Gualberto
Assim como Beatriz, Paulliny também é jornalista. O livro de estreia da escritora brasiliense, Allegro ma non troppo, estava entre os 51 selecionados ; entre 1.200 obras inscritas ; por um júri, formado por brasileiros, angolanos, moçambicanos e portugueses, ao Prêmio Oceanos de 2017, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. O livro narra a história de um brasiliense em busca da própria identidade, enquanto lida com o sumiço de um irmão. A história se passa em Brasília e na Chapada dos Veadeiros.





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