Exame a R$ 15 em 5 minutos

Exame a R$ 15 em 5 minutos

» Lorena Pacheco
postado em 21/09/2018 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 9/9/16)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 9/9/16)

Para participar da prova de esforço físico do concurso público da PMDF, os candidatos precisavam apresentar, por exigência do edital, atestado médico informando a aptidão para realizar, sem qualquer restrição, os exercícios exigidos. Ainda segundo o regulamento, o atestado deveria ser emitido até 15 dias antes e conter a assinatura e o nome completo do médico responsável, além do número de seu registro no Conselho Regional de Medicina (CRM-DF). Também de acordo com o edital, não seriam aceitos atestados para fins de trabalho, aqueles que comprovam simplesmente o gozo de saúde física e mental, mas não explicitam a aptidão para esforço físico.

Apesar de todas essas exigências, é fácil para uma pessoa obter um atestado sem passar por um exame detalhado, revelaram ao Correio candidatos que fizeram a mesma prova durante a qual Leonardo passou mal. Segundo eles, dependendo da clínica, não é feita uma avaliação aprofundada sobre a condição de saúde dos candidatos, apenas perguntas básicas.

;Comigo, eles não fizeram nenhum exame a fundo, como medição de batimentos. Eram apenas aquelas perguntas básicas, se eu tinha pressão alta, usava algum tipo de medicamento e só. Paguei R$ 15, a consulta durou menos de cinco minutos e me deram o atestado;, contou uma candidata que participou da prova da PM e pede para não ter o nome revelado. Um outro candidato relatou procedimento semelhante.

Queda e desmaio
O teste de aptidão física (TAF) da PMDF conta com testes em barra fixa, flexão abdominal, corrida de 12 minutos e 50 metros de natação. A candidata que conversou com a reportagem conta que, na prova de corrida feminina, algumas concorrentes passaram mal e desmaiaram.

;Uma candidata que estava correndo comigo caiu no chão antes de completar a prova, passando mal. Depois, vieram algumas pessoas para socorrê-la e a colocaram em uma cadeira de rodas. Ela dizia que não sentia as pernas e achava que ia morrer;, relatou uma candidata. Ela viu outra mulher cair desmaiada logo após correr o circuito. ;Houve ainda outras candidatas que conseguiram correr, mas, no fim, ficaram sentadas no chão e tiveram seus batimentos cardíacos medidos;, afirmou.

Para o coordenador técnico da equipe AprovaTAF e professor do Gran Cursos Online, César Marra, seria importante que nos editais de concurso público fossem exigidos testes cardiológicos específicos. ;Normalmente, esses atestados médicos têm uma liberação genérica, sem fundamento especifico e sem exames detalhados, particularmente os cardíacos. Seria interessante haver nos editais dos concursos a cobrança de exames de esteira específicos, para analisar a função cardíaca dos candidatos. Muitas vezes, esses exames genéricos não detectam problemas do coração.;

O especialista afirma que testes de esforço específicos são completos e capazes de detectar problemas cardíacos, inclusive com indicação para a não realização de atividades físicas intensas. Marra ressalta, porém, que é preciso investigar a morte do candidato. ;Um conjunto de fatores pode ter contribuído para uma morte assim: se a pessoa é extremante sedentária, se está em estado hiperglicêmico durante o teste, se não houver troca de calor eficiente com o ambiente. Tudo isso pode contribuir e levar à morte, dependendo do indivíduo.;

Sobre os desmaios também ocorridos durante o TAF da PMDF, Marra afirma que as causas, geralmente, são: falta de preparo físico, pois há candidatos que não treinam o suficiente e nos testes fazem esforço intenso; alimentação inadequada, pois existem candidatos que tomam produtos que prometem melhor desempenho físico e isso acaba afetando seu metabolismo de uma forma ruim; e tem aqueles que nem comem, pois acreditam que assim ficam mais leves, mas acabam tendo hiperglicemia e desmaiam.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), cabe ao CRM fiscalizar as clínicas médicas e os profissionais, mas, geralmente, essa fiscalização é feita a partir de denúncias, em que se verifica a legalidade dos profissionais em atuar como médicos e dos estabelecimentos. O Correio entrou em contato com o CRM-DF, mas, até o fechamento desta edição, não obteve resposta.



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