Papa Paulo VI é santificado

Papa Paulo VI é santificado

Francisco canoniza o arcebispo salvadorenho Óscar Romero e o papa italiano Paulo VI. Ambos são considerados figuras-chave da instituição no século 20 pela aproximação com os marginalizados e pela luta por justiça social

postado em 15/10/2018 00:00
 (foto: Filippo Monteforte/AFP
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(foto: Filippo Monteforte/AFP )

Diante de uma multidão que lotou a Praça de São Pedro, o papa Francisco proclamou santos o arcebispo salvadorenho Óscar Romero, símbolo de uma Igreja comprometida com os pobres, e o papa italiano Paulo VI, o pontífice do diálogo. Os dois novos santos são figuras representativas da igreja impulsionada por Francisco: ;pobre para os pobres;, aberta ao diálogo e sem rótulos ; nem progressista nem conservadora.

;Declaramos e consideramos santos Paulo VI e Óscar Arnulfo Romero Galdámez;, declarou o papa, em latim, na missa em que também foram canonizados os religiosos Francisco Spinelli, Vicente Romano, María Catalina Kasper, Nazaria Ignacia de Santa Teresa de Jesus e o leigo Nuncio Sulprizi.

Paulo VI foi ;o profeta de uma Igreja extrovertida, que olha aos mais distantes e cuida dos pobres;, declarou Francisco durante a homilia. ;É lindo que junto a ele e aos demais santos e santas de hoje se encontre o monsenhor Romero, que deixou a segurança do mundo, inclusive a própria incolumidade, para entregar sua vida segundo o Evangelho, próximo aos pobres e ao seu povo, com o coração magnetizado por Jesus e seus irmãos;, acrescentou, gerando aplausos e ovações.

Durante a cerimônia, o papa usou como vestimentas litúrgicas o cíngulo com sangue que Romero levava na cintura no dia do seu assassinato, em 1980, e a casula de Paulo VI. ;Que o Senhor nos ajude a imitar o seu exemplo;, clamou o pontífice argentino ao finalizar sua homilia, assistida por 70 mil pessoas, segundo o Vaticano.

Assassinado

Tanto Romero quanto Paulo VI representam as contradições e as dificuldades vividas pela Igreja do século 20. Eles foram atacados e criticados dentro da própria instituição por posições mais abertas às mudanças da sociedade e pelos pedidos de mais justiça social.

Monsenhor Óscar Arnulfo Romero era um arcebispo tradicional, conservador e próximo do poder, antes de se tornar o maior defensor dos marginalizados, com uma oratória que denunciava a injustiça social e desconcertava a extrema direita de El Salvador. Na noite de 24 de março de 1980, Romero, que havia sobrevivido a dois ataques à bomba, morreu após ser baleado por um franco-atirador enquanto oficiava uma missa na capela do hospital Divina Providência, no norte de San Salvador.

O assassinato polarizou ainda mais os salvadorenhos, que lutavam por melhores condições de vida, e desencadeou uma guerra civil que durou de 1980 a 1992. Pelo menos 75 mil pessoas morreram. Os assassinos do religioso nunca foram levados à Justiça.

Pílula contraceptiva

O papa Paulo VI, foi o artífice da modernização da Igreja nos anos 1960, mas entrou para a história por sua oposição à pílula anticoncepcional, em plena era da revolução sexual, e por ter sido o primeiro pontífice a visitar os cinco continentes. Giovanni Battista Montini, nascido em 1897 em uma família nobre, chefiou o Vaticano de 1963 a 1978, anos difíceis para a Igreja, marcados também pela influência da Teologia da Libertação na América Latina e pelos padres guerrilheiros, como Camilo Torres.

Ele modernizou a Igreja e melhorou a má relação com o judaísmo. Com suas reformas, incomodou os conservadores e depois os liberais por ter assinado em 1968 a polêmica encíclica Humane Vitae, que incluiu a proibição da pílula contraceptiva, decisão que afastou muitos fiéis. Ele morreu aos 80 anos, após 15 de pontificado. Paulo VI é o terceiro papa que Francisco converte em santo, depois de João XXIII e João Paulo II.

Longo processo
O candidato a santo da Igreja Católica deve percorrer um longo caminho para alcançar a glória dos altares: servo de Deus ou mártir, beato e, finalmente, santo. Antigamente, os santos eram proclamados pelo clamor popular. Para evitar abusos, a Igreja estabeleceu essas três etapas, e os bispos assumiram a responsabilidade de iniciar o processo com uma investigação sobre a vida do candidato. Um tribunal diocesano, criado para o caso, avalia toda a informação e a envia, se merecer, a Congregação para as Causas dos Santos, conhecida popularmente como a fábrica de santos do Vaticano. A maioria dos trâmites para a beatificação e canonização dura de 30 a 50 anos.

"É lindo que junto a ele (Paulo VI) e aos demais santos e santas de hoje se encontre o monsenhor Romero, que deixou (;) a própria incolumidade para entregar sua vida segundo o Evangelho, próximo aos pobres e ao seu povo;
Papa Francisco


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