Líder de poder quase absoluto

Líder de poder quase absoluto

Inimigo declarado do liberalismo, populista e nacionalista, o primeiro-ministro Viktor Orbán se firma como uma das figuras mais polêmicas da União Europeia, ao anunciar medidas controversas. Especialistas citam contrarrevolução conservadora e autoritarismo

RODRIGO CRAVEIRO
postado em 21/10/2018 00:00
 (foto: Gali Tibbon/AFP)
(foto: Gali Tibbon/AFP)




Duas recentes medidas tomadas pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, causaram polêmica e condenação da comunidade internacional. Em decreto executivo assinado anteontem, o premiê proibiu o ensino de estudos sobre gênero no país. ;O ponto de vista do governo é o de que as pessoas nascem como machos ou como fêmeas. Não consideramos aceitável falarmos sobre gêneros socialmente construídos, em vez de sexos biológicos;, declarou. Ele também aprovou uma emenda constitucional que criminaliza a pernoite dos sem-teto nas ruas. Orbán e seu partido Fidesz se concentram no ;campo do poder central;, no iliberalismo e na criação de uma ;pátria cristã;.

Para defender sua ideologia, o primeiro-ministro desafia a tradição liberal europeia e se aproveita da fragilidade das forças opositoras. O nacionalismo seguido à risca colocou Orbán em rota de colisão com a União Europeia (UE). O eurocético líder húngaro, acusado pelo bloco de corroer valores democráticos, lançou uma campanha de propaganda contra o Parlamento Europeu avaliada em 20 milhões de euros (cerca de R$ 87 milhões).

Chefe do Centro para Teoria da Lei e da Sociedade da Universidade E;tv;s Lorand (em Budapeste), Fleck Zoltán admitiu ao Correio que Orbán é um líder populista de extrema direita que ;abertamente destruiu os limites constitucionais;. ;De forma consciente, erigiu a sua política sobre o medo, sobre os sentimentos nacionalistas e sobre as fracas tradições democráticas da sociedade húngara;, comentou.

Segundo Zoltán, ao adotar o chamado ;campo de poder central;, o premiê negou a concessão de autonomias. Por sua vez, o iliberalismo funciona como uma simples rejeição ao constitucionalismo. ;A tradição liberal legal europeia aposta no governo limitado e nos direitos individuais. Uma identidade política abertamente iliberal de um partido (Fidesz) leva a um regime autoritário não democrático;, observa. O especialista acrescentou que, sob a gestão de Orbán, as organizações civis e acadêmicas devem se abster da política; e todas as atividades críticas são banidas, por questionarem os interesses da nação.

Nesse contexto, Zoltán explica que a mídia pública se revela ferramenta de baixo nível do governo. Sem uma imprensa independente, a Hungria também sofre com a debilidade das organizações não governamentais. ;A sociedade está seriamente dividida, e o seu sistema de valores se aproxima mais da parte oriental do planeta. Uma enorme lacuna ideológica dificulta a comunicação entre os modernizadores do Ocidente e os nacionalistas;, lamenta. O estudioso classifica a lei contrária aos sem-teto de ;anti-humana;, ;negação de qualquer valor humanitário; e ;barbárie;. ;O sistema político da Hungria se transformou em um regime autoritário corrupto. A situação é paradoxal: como Estado-membro da União Europeia, a Hungria se comporta como um novo satélite da Rússia de Putin.;



Confusão

Para Balász Jarábik, especialista do Programa Rússia e Eurásia do Carnegie Endowment for International Peace, a imagem de Orbán costuma ser ;inflada; pela mídia ocidental. ;Ele não é radical, nem da extrema direita. Em vez disso, usa a oportunidade de uma onda migratória sem precedentes para impulsionar uma contrarrevolução conservadora, a qual tenta levar à União Europeia antes das eleições do Parlamento Europeu, em 2019. O seu estilo pode ser caracterizado como autoritário, mas a Hungria é uma democracia;, disse à reportagem.

Jarábik acredita que muitos confundem o governo com uma ditadura. ;O domínio constitucional sobre o poder é permitido pelo sistema eleitoral especial, desenvolvido em 1989, o qual recompensa o partido político mais forte, hoje, o Fidesz. O assédio da legenda aos meios de comunicação estatais e privados é preocupante;, reconhece.

Morador de Budapeste, Laszlo, especialista em tecnologia da informação de 45 anos, afirmou ao Correio que Orbán ;é um bom político, mas não um líder;. ;O Fidesz não é de extrema direita, mas conservador. A Hungria tem dois partidos de extrema direita: o Jobbik e o Mi Hazánk;, explicou. Ele admitiu que Orbán gosta do confronto. ;O atual premiê ganhou fama quando a Hungria foi invadida pela antiga União Soviética e corajosamente exigiu que as tropas soviéticas deixassem o país. Orbán fareja batalhas políticas. Em seu primeiro governo (1998-2002), a minha nação era pacífica e o governo conseguiu elevar o nível de vida.;

Laszlo não discorda da rígida política anti-imigratória de Orbán. ;Os líderes alemães se mostraram muito caóticos em relação ao tema. Orbán jamais mudou sua opinião sobre migração.; Ele confidencia que, durante a crise de refugiados de 2015, ficou aterrorizado. ;Eu tive que evitar as praças públicas onde eles acampavam, pois atacavam qualquer pessoa. Algumas vezes, à luz do dia, precisei correr ou seria roubado. Era como uma favela na América do Sul;, ironizou.

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