Entre o tempo e a resistência

Entre o tempo e a resistência

Matheus Dantas*
postado em 21/10/2018 00:00
 (foto: Paulo Andrade/Divulgação)
(foto: Paulo Andrade/Divulgação)


Há quem diga que as histórias e os destinos vão se juntando como se fossem um quebra-cabeça. Por coincidência ou não, ainda nos anos 1980, os caminhos do artista plástico mineiro Paulo Andrade, e do ainda chamado Centro de Criatividade da 508 Sul se juntaram. Foi lá que o jovem pintor expôs os primeiros trabalhos em solo candango.

Passadas três décadas, eis que os caminhos se cruzam novamente, desta vez o espaço está reformado e com outro nome: Renato Russo. O artista também está mais rodado, expôs em museus, galerias e centros culturais de diversas cidades brasileiras e do mundo, como Nova York, Washington e Costa Rica. Desde o fim do mês de setembro, o Espaço Cultural Renato Russo passou a receber a exposição O eterno retorno ; Desenhos, gravuras e impressões, de Paulinho Andrade. A mostra constitui-se numa série de 18 gravuras, nove delas editadas em 1984 em serigrafia, que ganharam releitura digital e nove imagens inéditas, com técnicas que associam colagem, desenho, aquarela e manipulação digital, desenvolvidas entre os anos de 2014 e 2015.

;Na década de 1980, participei de inúmeros eventos no antigo Centro de Criatividade da 508 Sul, usina de criação naquela década ; inclusive com exposições individuais. E ter a primeira exposição individual na reabertura do novo espaço é orgulho e emoção, depois de tantos anos afastados da cidade, nós dois, eu percorrendo por várias lugares e o espaço fechado para reforma;, conta.

Em O eterno retorno ; Desenhos, gravuras e impressões, Brasília é o cenário no qual Andrade ergue suas invenções, instiga e provoca. A partir de uma interpretação das obras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, sobre quem de fato pode ser um super-homem, o artista institui essa apologia aos índios, pela admiração das lutas que travaram pelos seus espaços. Em algumas imagens, índios gigantes transitam pela cidade fazendo os monumentos parecerem miniaturas. Essa é a forma de o artista colocar em metáforas uma crítica social e cultural quanto aos valores brasileiros.



Releitura

;A mostra trata de um olhar sobre a produção de desenhos e serigrafias dos anos 1982 a 1984 e, depois de 30 anos, retomo o tema para finalizar (certamente) com outro olhar, cujo fruto parte da releitura de nove obras daquela época e outras nove com a Brasília de hoje, usando desenhos com aquarela, lápis de cor, nanquim e acrílico. O resultado final são mais 18 obras em impressão fine art print sobre papel 100% algodão;, explica.

Para Renata Azambuja, uma das curadoras da mostra, o artista consegue responder de seu próprio jeito ao filósofo alemão, criando uma identidade própria. ;Em O eterno retorno, Andrade responde, à sua maneira, ao que Nietzsche apresenta como questão, em Assim Falou Zaratustra: as ocorrências no tempo não são infinitas, mas se repetem, com diferenças;, destaca Azambuja.

*Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira



O eterno retorno ; Desenhos, gravuras e impressões
Exposição de Paulo Andrade. Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). Visitação até 11 de novembro, de terça a sexta, das 10h às 20h, e sábados e domingos, das 12h às 19h.

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