Para além dos museus

Para além dos museus

Acostumadas a ocupar salas de galerias, as artes plásticas estão dando novos sentidos a espaços inusitados

ROBERTA PINHEIRO
Roberta Pinheiro
postado em 08/09/2019 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/Divulgação)
(foto: Zuleika de Souza/Divulgação)


O caminho é inverso. Familiarizadas a ocupar paredes e salas de museus e galerias e aguardar a vinda do público, as artes plásticas estão conquistando e dando novos sentidos a espaços inusitados. Fábricas abandonadas, estações de trem, espaços esquecidos da cidade, cafés, restaurantes e lojas de roupa e de mobiliário. Sai de cena a teoria do cubo branco, da neutralidade da sala expositiva, para uma interação próxima ao dia a dia do espectador.

Há 13 anos, Carlos Alberto Oliveira une a história do mobiliário brasileiro com a produção artística local na Hill House, sua loja no CasaPark. Tudo começou com um empréstimo de parede, como o empresário descreve. ;São vários fatores. Primeiro que a história do mobiliário brasileiro sempre caminhou junto com a arte. Depois, estava aparecendo em Brasília um grande número de novos artistas muito talentosos e sem espaço, um deles era meu filho. Vendo a convivência dele com os amigos, vi que poderia oferecer uma abertura para a arte local, a cultura local;, explica.

O que começou pequeno ganhou corpo e novos braços: como a chegada de colecionadores, como Carlos Lim e Marília Panitz. ;É uma forma de incentivar que a arte seja um assunto mais frequente em todas as rodas de Brasília, de reconhecer nossa arte, emergente e de qualidade e de apresentar para a cidade essa capacidade de produção;, avalia Oliveira. Para o empresário, durante anos, aprendemos a olhar para as obras de arte com as duas mãos para trás, respeitando os limites e as regras das salas expositivas. Ao sair desse lugar convencional, a relação das pessoas com os trabalhos se transforma. ;As pessoas passam a perceber que é para todo mundo, pode fazer parte da vida delas, da casa delas;, acrescenta.

Com dois filhos e uma mulher artista, até Carlos passou a enxergar a arte com outros olhos. ;Me aguçou a emoção, a percepção. É bom para todo mundo. Podia ser que nem gripe que todo mundo pega;, brinca. Contudo, o empresário faz uma ponderação. ;Não quero adornar ou decorar a loja. Fazemos com o carinho e o cuidado que são necessários. Contratamos um curador, montamos a exposição de maneira correta, produzimos um catálogo. É a vida de cada pessoa que está ali naqueles trabalhos. Precisamos olhar para a arte com o respeito que ela merece;, pontua.

Para o produtor cultural Sandro Biondo, as galerias de arte e os museus têm seu espaço sacralizado na evolução das culturas, e assim permanecerão. ;Mas há que se ter também a descentralização da arte, e isso passa por ocupar a rua e outros lugares;, avalia. Como realizador de eventos na cidade, Biondo sempre quis trazer para seus projetos algo relacionado às artes plásticas. Agora, na Ocupação Contém na Piscina com Ondas, ele acredita que alcançou o ponto que queria. ;Recebo, em média, por semana, oito mil pessoas. E posso oferecer a essas pessoas um olhar cultural, artístico, dentro do laser delas. É uma espécie de pulo do gato, unir o útil ao agradável;, afirma.


Com a experiência, ele percebeu que dava para unir a festa e o entretenimento à cultura. A festa funciona como mote, e o bar como maneira de reunir as pessoas. Primeiro, Biondo trouxe as instalações e a cenografia. ;Agora, chegamos aonde a gente queria, que é ocupar os espaços internos abandonados da Piscina com Ondas do jeito que eles são. Pego as construções antigas, como vestiário, banheiro, bilheteria e transformo em galeria de arte. Estamos recebendo mais de uma dezena de artistas plásticos da cidade;, descreve. Para isso, o produtor aposta na ressignificação dos locais. Nada de maquiar o que de fato eles são, mas trazer um outro olhar, uma nova abordagem. ;E surpreender o público, trazer a arte mais para perto da realidade dele. O que era ruína vai virar galeria;.

Dia a dia

No Antonieta Café, na Asa Norte, João Filipe Mazocante de Medeiros e a mãe, Auristela Mazocante Silva, criaram um espaço colaborativo que, hoje, conta com cafeteria, estúdio de tatuagem, fábrica de chocolate e espaço expositivo. Inicialmente, meio que ao acaso, os dois apresentavam o trabalhos de amigos artistas e fotógrafos. A procura e a adesão do público revelaram outras potencialidades para aquelas exposições. Atualmente, o café expõe, em parceria com Mateus Lucena, sócio-proprietário da A Pilastra Galeria, os trabalhos dos oleiros Xibi Rodrigues e Pablo Johson. ;Gera um fator novidade e tem gente que vem só pela mostra, o que atrai um outro público. Também é uma forma de desconstruir a ideia da arte como elitizada, principalmente aqui em Brasília, e trazer para o cotidiano das pessoas;, afirma João Filipe.


;Acredito que também está associado a uma busca mundial das pessoas estarem consumindo várias coisas ao mesmo tempo;, avalia Mari Braga, uma das responsáveis pelo projeto Hidden. Todos os anos ela e Pedro Henrique Gaspas inseriam obras de arte na ocupação. ;Porém, de uma forma mais tímida. Este ano, apesar de menos paredes, tivemos uma procura maior dos artistas para expor seus trabalhos;, acrescenta. Para ela, disponibilizar o espaço para exposição faz toda a diferença.

;Criamos um ambiente de convívio, que vai muito além do consumo;, descreve Daniel Moreira, um dos sócios da Dane-se. Este mês, a marca inaugurou uma loja conceito na Asa Sul que reúne tudo aquilo que os sócios acreditam e está inserido no universo da Dane-se. Além da loja e de uma cafeteria, eles abriram uma galeria de arte: Dgallery. Além de espaço expositivo, o local foi pensando também para promover encontros e lançamentos de livros. ;Para a gente, sempre foi muito próximo. Tudo que a gente faz e cria tem algo que puxa para a arte;, afirma Daniel. Não à toa, constantemente, as criações da Dane-se trazem referências de Brasília, arquitetura, Athos Bulcão e urbanismo. Desde que anunciaram a abertura da galeria, vários artistas entraram em contato para expor suas obras. ;É um espaço da cidade. Às vezes a pessoa nem gosta tanto de arte, mas vai consumir de uma forma orgânica e acabar se apaixonando;, avalia.



Quatro perguntas / Cinara Barbosa


Como avalia a inserção das artes plásticas em lugares que não sejam galerias convencionais e museus?
É interessante também do ponto de vista desses espaços. Ao se abrirem para esse campo, entendo que avaliam como importante se associar às artes, percebem o valor agregado que uma boa arte traz para o espa

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