Tem italiano bom no jazz

Tem italiano bom no jazz

O trio Amori Sospesi, formado por Gabriele Mirabassi, Nando Di Modugno e Pierluigi Balducci, se apresenta hoje e amanhã

Roberta Pinheiro
postado em 24/09/2019 00:00
 (foto: Carlo Maradei/Divulgação)
(foto: Carlo Maradei/Divulgação)

Há pouco mais de 20 anos, a cultura brasileira seduziu o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi. A partir de um encontro ;inesperado; com o músico Sérgio Assad, idas e vindas entre Itália e Brasil se tornaram mais frequentes. Contudo, esta será a primeira vez que o clarinetista apresentará pessoalmente aos companheiros italianos Nando Di Modugno e Pierluigi Balducci as razões por tanto encanto e inspiração.

O Trio Amori Sospesi se apresenta, hoje e amanhã, no Clube do Choro como parte da tour JazzTempo. Realizada pelo JazzNosFundos, em parceria com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, com a Puglia Jazz Sounds e, em Brasília, com a Embaixada da Itália, a série de shows passou por São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta edição, a ideia do festival é fazer uma imersão na produção musical contemporânea italiana, com foco na região da Puglia. ;É uma satisfação enorme apresentar o trio em Brasília, um encontro de verdadeiros craques da música, famosos internacionalmente e mundialmente reconhecidos;, afirma Antonio Bernardini, embaixador da Itália no Brasil.

;É uma música que tem a ver com jazz; com a música italiana, por dar importância para a melodia; e com a música de câmara. E tem uma relação muito forte com a música brasileira também;, detalhe Mirabassi sobre o trabalho do trio. Com dois discos gravados, eles apresentam o trabalho Amori sospesi ; amores suspendidos, na tradução. ;O título das músicas é uma orientação democrática. Cada um tem que achar seu próprio amor suspendido. Claro que tem traços autobiográficos, mas não quero fechar. O músico não é um ditador. A gente fala e o público tem a liberdade de entender o que quiser;, comenta ele.

O trabalho do trio é uma união de clarineta, violão e baixo acústico. Mirabassi é considerado um dos mais importantes expoentes europeus do instrumento; Nando Di Modugno é um dos poucos violonistas italianos a se destacar tanto na música clássica quanto no jazz, e Pierluigi Balducci é um dos mais ativos baixistas de jazz elétrico e acústico da atualidade.

Ao apresentar En la orilla del mundo, The light of Seville, Choro dançado, entre outras canções do disco, o trio viaja com o espectador do Mar Mediterrâneo para a América, com suingue de jazz, música clássica e música popular, entre a suavidade da clarineta, a marcação do violão e a intensidade do baixo. ;A gente toca uma música brasileira, mas com um grande sotaque da gente. A ideia não é fazer os toques brasileiros, mas pegar a influência profunda, as belezas estética, emotiva e textual dessa música e fazer algo em cima disso que admite a nossa cultura também;, explica Mirabassi.


Brasilidade

No decorrer desses 20 anos, o músico encontrou muitas similaridades entre Itália e Brasil que vão além do futebol. Com Di Modugno e Balducci, o clarinetista compartilhou vivências e experiências. ;Todas as referências, as conversas, as músicas, as sugestões que passei durante todos esses anos para eles, aqui, finalmente, estão se tornando realidade;, conta. Para Mirabassi, o encontro com a brasilidade representou um ano zero em sua experiência humana e musical. ;O encontro com os músicos, a música, com essa cultura, com esse país, essa tradição, com esse idioma foi tudo muito importante;, afirma o italiano, com um português bem afinado.

De maneira inesperada e despretensiosa, essa convergência teve início com o trabalho ao lado de Sérgio Assad. ;Não sabia nada dele, nem que era brasileiro. Sabia que era um músico erudito que morava em Washington. Só no estúdio, na hora de gravar, percebi que a música tinha a ver com algo que a gente não conhecia. Não era uma música contemporânea no sentido que eu atribuía à palavra na época;, relembra. Aquele primeiro contato foi fundamental para despertar a curiosidade do clarinetista sobre o choro, a música brasileira e os grandes músicos nacionais. Desde então, já tocou com outros músicos como Guinga e Roberto Taufic.

Para explicar o porquê de tamanha sedução, Mirabassi tem a resposta pronta: ;Na música brasileira, é como se eu me tornasse inteiro, completo;. O músico conta que sempre viveu uma vida dividida entre a música erudita e o jazz. Ao descobrir a musicalidade brasileira, notou que por aqui tinha um lugar no qual esse ;problema de visão entre os dois mundos; sempre foi superado. ;Villa-Lobos, por exemplo, era um músico erudito, mas também um músico popular. Canções de Chico Buarque e Tom Jobim, a mesma coisa;, pontua.



Trio Amori Sospesi
No Clube do Choro, hoje e amanhã, às 21h, com Gabriele Mirabassi, Nando Di Modugno e Pierluigi Balducci. R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira). Não recomendado para menores de 14 anos.



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