Paz e amor, de novo

Paz e amor, de novo

Por Paulo Pestana Especial para o Correio
postado em 10/05/2020 00:00
Quando a gente olha para o céu ; especialmente à noite ; parece que está tudo no lugar. Mas eu mal sei achar as três marias, me confundo entre Vênus e a luz do poste e ainda acredito que se apontar o dedo para uma estrela vai nascer uma verruga. À primeira vista, a única coisa que mudou é que a gente quase não vê mais os aviões.

Mas é o olhar do leigo. Astrólogos dizem que desde 20 de março a gente entrou definitivamente na era de aquário, deixando para trás a manipulação religiosa criada por peixes e o materialismo trazido por virgem. Ou seja, o mundo não será mais o mesmo, mas não é por causa de um vírus que não resiste a um banho com sabão.

Esse negócio de acreditar que rochas flutuando no espaço orientam o destino de cada um é complicado. Mas tem gente olhando e analisando estrelas e planetas há cinco mil anos, a partir de constelações que se tornaram signos, e a astrologia determina esses tempos místicos como este que, dizem, recém-começou.

A conversa de era de aquário surgiu com força nos anos 1960, quando os hippies prometiam uma época de harmonia, paz e amor. Tinha até trilha sonora: ;Quando a lua estiver na sétima casa/ E Júpiter se alinhar com Marte/ Então a paz guiará os planetas/ E o amor guiará as estrelas/ Este é o início da era de Aquário;, cantava o grupo vocal 5th Dimension em Aquarius.

Tinha também peças de teatro como Hair, que depois virou filme, e conta a história da tribo hippie que defendia princípios pacifistas (era o auge da guerra do Vietnã, onde morreram 58 mil jovens norte-americanos), o não consumismo e o sexo livre. Era o flower power, poder das flores, uma espécie de pré-história da era de aquário e que teve reflexo no mundo todo.

O mundo não melhorou muito de lá para cá. Houve radicalização religiosa, as guerras continuaram, o comunismo acabou ; ainda que o anticomunismo sobreviva, ao menos no Brasil... ; e as drogas, que na época eram anunciadas como agentes de libertação, são hoje um imenso problema médico-policial.

Os hippies nem banho tomavam e se enfeitavam com flores nos cabelos; hoje somos educados a lavar as mãos a toda hora e tapar metade do rosto com uma máscara. Ou seja: não começa bem a era da transformação radical que iria proporcionar um mundo melhor e pronto para novas habilidades humanas, como telepatia e sensações extrassensoriais.

Fui consultar um especialista. É conhecido bicho-grilo, de longos cabelos grisalhos, que anda de bata e chinelão e ainda cheira a patchuli. Já foi Menino de Deus, abraçou o zen-budismo e morou na mansão do Osho, no Lago Sul; portanto, tem experiência de sobra no mundo esotérico. Ele diz que os efeitos do coronavírus marcam o início das transformações.

Não devia ter ligado. Foram 50 minutos de doutrinação sobre as transformações humanas, sobre o mundo novo que, enfim, começa, sobre as conjunções entre homens e astros e o entendimento amplo que tomará conta do universo. Ele só desligou quando eu fiz a pergunta do momento: ;E daí?;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação