Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

O PT, como diz a presidente Dilma, tem todo o direito de preparar um comercial do medo, veiculado esta semana em cadeia de rádio e tevê. Mas a presidente não pode dizer que não tem nada a ver com isso. Tem, sim, afinal a candidata é ela

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 17/05/2014 00:00

O medo de uma campanha
Candidatos de cidades pequenas costumam dizer que até para campanhas eleitorais há limites. Por mais que adversários possam elevar o tom nos discursos, eles sabem que, mais cedo ou mais tarde ; tempo depois das eleições ;, vão encontrar o adversário na rua, em evento social ou mesmo na igreja. Assim, existe um acordo tácito nas estocadas para que alguma relação seja preservada para o futuro. A tal cartilha de políticos do interior está longe de ser seguida na disputa pelo Palácio do Planalto, é mais do que evidente.

Nas redes sociais, a selvageria corre solta, com ataques demarcados contra Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos. Por mais que as ações sejam feitas por profissionais, elas são preparadas para a internet, sem autoria definida. Mas sempre repercutem nas estratégias oficiais dos partidos. É como se o lixo apócrifo tivesse alguma base na realidade, o que é falso. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos políticos que mais sofreu com a canalhice pré-internet, montada para fortalecer preconceitos contra o petista.

Dito isso, o ;discurso do medo; lançado pelo Partido dos Trabalhadores esta semana acentua e expõe de forma definitiva a falta de cordialidade na corrida presidencial, por mais que o PT não esteja sozinho na estratégia política de bombardear adversários. Mesmo que possa trazer dividendos eleitorais para Dilma, ;a campanha do medo; assustou até mesmo parte dos ministros do PT, como mostrou este Correio na edição de quinta-feira.

Última cartada
Além de forçada ; é pouco provável que o país se transforme num caos, com pedintes vagando pelas ruas, com ou sem a vitória de Aécio ou Eduardo ;, o comercial expõe uma fragilidade cara a qualquer candidato: o receio da derrota. Tal recurso é usado por marqueteiros como última cartada, a desesperada, por isso o estranhamento. A eleição está apenas começando e, de mais a mais, daqui a menos de 30 dias uma Copa do Mundo deve ganhar o noticiário. Seguiremos envolvidos com dribles e gols. E também com manifestações, é verdade, mas elas não estavam na conta do marqueteiro João Santana na hora que decidiu montar a peça publicitária contra os ;fantasmas do passado;.

Mesmo com a perda de pontos, Dilma mantém a dianteira nas pesquisas de opinião e, assim, táticas agressivas são sempre arriscadas. O exemplo desse risco vem do próprio PSDB, que, em 2002, preparou um comercial estrelado por Regina Duarte, no qual ela dizia temer a vitória petista. O único resultado prático da ação tucana foi deixar a atriz global com a pecha de ;musa do medo;. Para os petistas que defendem a peça publicitária de João Santana, entretanto, a decisão foi tomada na hora certa, até porque, ainda haverá tempo de acertar o tom do discurso até 5 de julho, o primeiro dia oficial da campanha. Para divulgar a campanha tanto na quarta como na quinta-feira, Santana deve ter em mãos pesquisas que apresentam, de alguma forma, o receio da população em ficar desempregada ; hoje, um índice positivo do governo Dilma Rousseff.

A campanha de jogar com o medo da população é uma decisão do comando da campanha, por mais questionável que possa ser. Nessa decisão, estão incluídos Lula e Dilma Rousseff. Na quinta-feira, durante conversa com cronistas esportivos, a presidente disse que a propaganda é do PT. ;É deles, que têm todo o direito. Meu papel é mais amplo, não se trata de propaganda de governo.; Epa! E quem é mesmo a candidata do partido? A propaganda não é apenas do partido. É dela também, pois.

Outra coisa
Por mais distantes que as manifestações de quinta-feira tenham ficado dos grandes picos de concentração de pessoas nas ruas das cidades brasileiras em junho do ano passado, o movimento assustou principalmente por causa da greve da polícia pernambucana, que parou o estado. Enquanto governistas tentam separar os protestos anti-Copa com as paralisações de categorias, é impossível não juntar os dois eventos. Afinal, até partidas de futebol foram canceladas no Recife. Nada mais simbólico.

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