Mentiroso contumaz

Mentiroso contumaz

postado em 17/05/2014 00:00
Ele gosta de rock e de Bob Marley, toca bateria, faz artesanato e participa de ações de movimentos sociais. O perfil comum a muitos jovens foi, até segunda-feira, o de Rômulo Nascimento. Naquela tarde, porém, ele decidiu mostrar uma face que ninguém conhecia. De forma fria e dissimulada, invadiu e incendiou uma casa em Ceilândia e provocou a morte de duas crianças.

A tragédia que chocou Brasília também abalou quem convivia com Rômulo. Amigos, parentes e até mesmo a mulher com quem ele morava não conseguem entender o que houve com o homem que nunca conheceu o pai e não concluiu o ensino médio. ;Ao vê-lo no jornal e na tevê, não o reconheço. Quando ele decidiu fazer aquilo, morreu para mim;, afirma Sandra Alves, 34 anos, namorada dele havia oito meses (Leia Três perguntas para).

Os dois se conheceram em julho do ano passado no Acampamento Brasília União Brasil, montado em frente ao Congresso Nacional para cobrar dos parlamentares a reforma política. Foi lá que ele também teve contato com grande parte dos 481 amigos que mantém em uma rede social. ;Ele parecia ser uma pessoa normal, que espalhava brincadeiras e sorrisos, paz e amor. Sempre falava que violência é para idiotas;, conta o tatuador Jimmy Lima, 18 anos, que dividiu barraca com Rômulo no gramado da Esplanada dos Ministérios.

Além de amigos, a atuação social rendeu um relacionamento amoroso. No começo, Sandra relutou em aceitar o namoro. Pensava que, pelo fato de ele ser 13 anos mais jovem, sofreria críticas por parte dos parentes.

Mesmo assim, em meados de outubro, o casal assumiu o compromisso, e ele foi morar com Sandra. Os dois passaram a dividir uma pequena casa nos fundos do lote da família dela. ;Era para ser provisório, até que ele encontrasse um lugar. A minha mãe chamou a minha atenção, mas o Rômulo cativou todos. Era gentil, lavava a louça, limpava a casa;, detalha ao Correio a monitora de telemarketing.

Na tentativa de incentivá-lo, a namorada comprou material para que ele desse início à produção de peças de artesanato, atividade que ele desenvolvia informalmente. Rômulo passava o dia na rua vendendo brincos, mandalas, pulseiras, colares e cachimbos.

Segundo a ex-namorada, ele não bebia nem usava drogas, pelo menos em casa. Apesar disso, algumas atitudes a deixavam preocupada. ;O Rômulo criava histórias e mentia muito sem necessidade alguma. A mãe dele me contou que isso acontecia desde a infânci;, revela. Apreensivas com o comportamento de Rômulo, ambas chegaram à conclusão de que seria bom ele frequentar um psicólogo, o que nunca aconteceu. Os hábitos estranhos afastaram o casal algumas vezes. Em uma das brigas, acontecida duas semanas antes do crime, Sandra o expulsou de casa. Dois dias depois, reataram.

A aparente tranquilidade do artesão também contrastava com um dos hábitos favoritos dele: assistir a filmes de terror. ;Sempre perguntava: ;Como você pode gostar tanto de ver pescoço voando?;. Ele dizia que era apenas por diversão;, conta Sandra. Na véspera do crime, Rômulo viu duas vezes a produção norte-americana A órfã, que, em uma das cenas, mostra a protagonista ateando fogo a uma casa. A ex-companheira lembra ainda que, ao fim dessa cena, ele teria feito o seguinte comentário: ;Massa, né?;

Desde segunda-feira, Sandra não consegue esquecer o momento em que os policiais disseram a ela que Rômulo havia confessado o crime. ;Foi como levar uma pancada com uma barra de ferro na cabeça. Não sinto mais nada por ele, e acho que precisa pagar cada minuto na cadeia;, conclui. (TC)



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