Choro diante da claque ruralista

Choro diante da claque ruralista

Citado por ter facilitado irregularidades na comercialização de lotes da reforma agrária, o ministro da Agricultura alega inocência durante audiência na Câmara

JOÃO VALADARES
postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Antonio Augusto/ Camara dos Deputados)
(foto: Antonio Augusto/ Camara dos Deputados)

O ministro da Agricultura, Neri Geller (PMDB-MT), que teve dois irmãos presos pela Polícia Federal na Operação Terra Prometida e foi citado por testemunhas como facilitador do esquema ilegal de vendas de terra da reforma agrária, usou a bancada ruralista da Câmara como claque para se defender. Durante audiência na Comissão de Agricultura, na manhã de ontem, Geller chorou, alegou inocência e pediu para não ser ;achincalhado;.

Os trechos dos depoimentos prestados à Polícia Federal em que o ministro é mencionado já foram encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) porque Geller tem prerrogativa de foro. As testemunhas alegam que ele utilizava o cargo para agilizar as negociações ilegais dos lotes de terra comercializados. Odair e Milton Geller, dois irmãos do ministro que continuam presos, são acusados de utilizar laranjas para fraudar a compra dos imóveis rurais. A investigação aponta que os Geller possuem, de maneira irregular, entre 15 e 18 lotes no Assentamento Itanhangá/Tapurah, principal alvo da operação.

Ontem, o ministro, que até então estava em silêncio, falou por 15 minutos. ;Posso ser investigado, mas não quero ser achincalhado e não vou ser;, afirmou. Emocionado, disse que é um homem honrado. ;Eu não sou, nunca fui e, se Deus quiser, nunca vou ser malandro.;

Ele afirmou que, se alguém errou, terá que ser punido. ;Eu saio na mídia como quadrilheiro, como líder de um grupo organizado e afirmo categoricamente que nunca tive um lote lá. Tenho um irmão mais velho que mora no assentamento. Somos 11 irmãos, pode existir um desvio e, se tiver, é maior (ide idade) e pode ser punido;, salientou.

O ministro ressaltou que, desde que assumiu o cargo, vem sendo perseguido politicamente. De acordo com ele, foram feitas quatro denúncias anônimas à PF. ;A investigação está acontecendo desde 2009. Eu poderia ter sido investigado pela PF e não fui. Eu assumi em 17 de março. A primeira denúncia anônima foi feita em 29 de abril;, destacou.

Ele aproveitou a presença da bancada ruralista para ressaltar o problema fundiário em Mato Grosso. ;Tem um erro do Estado que vem desde a década de 1980, que é a regularização fundiária. Faz 20 anos que as pessoas estão lá e não têm o título;, justificou.

Doação
O ministro, que recebeu, em 2010, durante campanha para deputado federal, doação eleitoral no valor de R$ 50 mil do empresário Marino José Franz, o braço financeiro da quadrilha, disse que conhece bem o assentamento investigado. ;Esse assentamento eu conheço. A minha família foi em 1984 para Mato Grosso; eu primeiro, com 15 anos. Trabalhava para ajudar a sustentar minha família no Rio Grande do Sul. Eu fui para lá por obrigação, porque tinha o sentimento de obrigação para ajudar minha família;, afirmou.

Durante o pronunciamento, a bancada ruralista, que prestou solidariedade integral ao ministro, aproveitou a oportunidade para levantar a bandeira da regularização fundiária. Amigo de Geller, o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT) jogou a culpa no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). ;O Incra e o governo têm sido covardes. No caso de Itanhangá tem terra com 20 anos sem ser legalizada. São terras ilegais porque o Incra não regulariza. Quem deveria estar preso é funcionário do Incra;, concluiu.


Entenda o caso


Fraude bilionária
Desencadeada há uma semana para desarticular uma organização criminosa que movimentou R$ 1 bilhão desde 2010, a Operação Terra Prometida, da Polícia Federal, prendeu 34 pessoas até o momento. Participam do esquema políticos, grandes empresários, servidores públicos e pistoleiros. Foram expedidos 52 mandados de prisão preventiva, 146 mandados de busca e apreensão e 29 medidas proibitivas em 10 municípios de Mato Grosso, além de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. A investigação comprova que os trabalhadores rurais beneficiados pela reforma agrária foram aliciados, coagidos e ameaçados para venderem ou entregarem os lotes de cerca de 100 hectares, avaliados em R$ 1 milhão cada.

O Ministério Público Federal informou que o foco da investigação são lotes do projeto de assentamento Tapurah/Itanhangá, em Mato Grosso, o segundo maior da América Latina. Possui 115 mil hectares e é dotado de 1.149 lotes. São terras de alta produtividade, localizadas próximo a municípios com grande produção de grãos. Conforme o MPF, a área foi alvo de crimes ambientais, de invasão de terras da União, de associação criminosa armada, de fraude documental nos processos do Incra, de estelionato, de corrupção ativa e passiva e de ameaça.


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