Analisando o berço do mundo

Analisando o berço do mundo

Pesquisadores apresentam a mais ampla análise genética já realizada na África. O estudo pode explicar a maior suscetibilidade a doenças encontrada em algumas populações do continente e ajudar a recriar os fluxos migratórios do passado

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 04/12/2014 00:00
Ao deixarem a África para conquistar o mundo, os primeiros humanos espalharam peças de seu DNA pelos seis continentes. Por isso, hoje, é possível rastrear traços genéticos primitivos em populações de todo o planeta. Apesar disso, é o genoma africano que contém as informações mais semelhantes às originais, tornando-o uma importantíssima fonte de dados para a ciência. Buscando conhecer melhor a origem do homem moderno, uma equipe internacional de pesquisadores publicou, na revista Nature desta semana, a primeira iniciativa de caracterização abrangente da diversidade genética do continente.

Os dados podem informar médicos e cientistas sobre a origem da maior suscetibilidade ou resistência a doenças em certas populações, além de revelar como ocorreram os movimentos populacionais ao longo de milênios. Os autores, liderados pelo Wellcome Trust Sanger Institute, no Reino Unido, esperam auxiliar, especialmente, no combate a doenças altamente prevalentes na África.

Para levantar os dados, o Africa Genome Variation Project (AGVP) firmou uma parceria com médicos de diversos países, como Etiópia, Gana e Nigéria, que analisaram mais de 1,8 mil pessoas. Além disso, o trabalho sequenciou completamente o genoma de 320 indivíduos, permitindo a caracterização do perfil genético de 18 grupos etnolinguísticos da África Subsaariana.

Os testes revelaram 30 milhões de variantes genéticas, sendo que um quarto delas nunca foi identificado em nenhum outro grupo populacional, e mostraram regiões do DNA africano que podem ser associadas à suscetibilidade para hipertensão e doenças infecciosas muito comuns na região, como malária, febre de Lassa e tripanossomíase.

Na avaliação de Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Pasteur, os resultados são interessantes, mas é preciso ampliar a quantidade de genomas estudados. ;Embora tenham encontrado genes que aumentam as chances para hipertensão e outras doenças, não se pode falar muito sobre a população geral;, afirma o especialista, que não participou do estudo. Ele reconhece, entretanto, o mérito do AGVP, que é mostrar como a população de um mesmo continente pode ser diversa. ;Não adianta estudar todas as doenças na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, e não considerar outras variações também importantes.;

Guida diz que os dados podem ser utilizados para a criação de um painel que indique os traços genéticos mais comuns na África, permitindo a criação de tratamentos e medicamentos pensados especificamente para aquelas populações. ;É um estudo pioneiro muito importante. No Brasil, por exemplo, não temos nada parecido, a não ser pesquisas farmacogenéticas muito pontuais. Nossa situação também é complicada porque somos muito miscigenados, então, não possuímos uma mutação única que possa ser usada como alvo pela medicina. Para nós, é um fator de complicação;, completa.

Retorno
Os autores também encontraram evidências de ascendência europeia e do Oriente Médio nas populações africanas. É possível que elas tenham se espalhado há 9 mil anos, apoiando a hipótese de que europeus migraram de volta à África após o êxodo inicial. ;Existe, ainda, a influência das migrações mais recentes. Outra dinâmica, mais antiga, começou no primeiro milênio da era cristã e só terminou um milênio depois de Cristo. Nessa época, populações do Oriente Médio seguiram para o norte do continente africano, resultando na formação multifacetada de tipos humanos e descendências. Há uma grande troca com o Mediterrâneo, não somente mercantil, mas também humana;, diz Anderson Oliva, do professor de história da África da Universidade de Brasília (UnB).

Para o professor, conhecimentos sobre a genética ajudam a compreender melhor a origem da humanidade. Oliva explica que, em alguns casos, as variações podem estar ligadas às migrações internas de populações tentando subsistir nos ecossistemas em transformação. ;Há 10 mil anos, o deserto era menor. Pinturas rupestres revelam a presença de animais de grande porte em áreas que, hoje, são desertos. O que se sabe é que existe um histórico de migrações do nordeste africano para todas as direções, em tempos distintos;, conclui o professor.

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