O Oscar continua branco

O Oscar continua branco

YALE GONTIJO
postado em 24/01/2015 00:00



Depois de algumas temporadas vivendo a tenente Uhura no seriado Star Trek, a atriz Nichelle Nichols resolveu pedir demissão do televisivo, com a intenção de fazer ;teatro sério; na Broadway. Nichelle chegou a entregar uma carta de demissão nas mãos do criador do programa, Gene Rodenberry, que se negou a aceitá-la e a mandou tirar alguns dias de folga para reconsiderar a decisão.

Coincidência ou não, dias depois Nichelle foi abordada por Martin Luther King, que se identificou como um trekkie (termo que designa os fãs do seriado). ;Você não pode sair agora. Não percebe a missão que está cumprindo aqui? Pela primeira vez na televisão estamos mostrando que somos inteligentes, qualificados, além de belíssimas pessoas que podem fazer muito mais do que cantar e dançar;, dissuadiu King.

Nichelle desistiu da demissão para entrar para a história como a primeira mulher negra da televisão americana a viver um papel não relacionado à escravidão ou a serviços domésticos. Ela também se notabilizou ao protagonizar o primeiro beijo inter-racial da tevê nos EUA, contracenando com o ator William Shatner (James T. Kirk). A história acima, ocorrida há mais de 40 anos, serve como parâmetro para o quão pouco a indústria do entretenimento caminhou em direção à inclusão de minorias. As evidências indubitáveis estão estampadas na pele dos artistas indicados aos prêmios Oscar deste ano. Entre 20 concorrentes nas categorias melhor ator e atriz ou ator e atriz coadjuvante, nenhum dos representantes é negro.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood continua sendo a instituição segregadora de sempre. Porém, desta vez teve de enfrentar o tsunami do ativismo digital na web. Na rede social Twitter ; o grande palco das manifestações contemporâneas em escala global ; a hashtag #oscarsowhite (Oscar tão branco) foi parar nos trending topics. Foi o contrário das manifestações contra a entrega do primeiro troféu concedido a uma atriz negra, dado a Hattie McDaniel pelo papel no clássico E o vento levou; em que Hattie levou de mucama de Scarlett O;Hara (a herdeira de um latifúndio no sul dos EUA durante a Guerra de Secessão).

Estatueta dourada
Entre os esnobados em 2015 estão os nomes do elenco inteiro do drama histórico Selma, película localizada nas passeatas dos movimentos civis nos Estados Unidos na década de 1960. O nome mais injustiçado foi o do ator David Oyelowo, intérprete do Dr. Martin Luther King, papel que exigiu transformações físicas que Hollywood tanto ama premiar. Em segundo lugar, está o nome da cineasta Ava DuVernay, deixada de fora dos selecionados a melhor diretor. O cineasta negro Spike Lee enxerga um ciclo nessas constatações de que a premiação não desenvolve a inclusão de negros e latinos. ;Quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado;, disparou Spike Lee ao site The Daily Beast. ;Uma vez a cada dez anos mais ou menos recebo telefonemas de jornalistas sobre como as pessoas estão aceitando filmes com pessoas negras. É um ciclo de 10 anos;, refletiu.

Se há pouca diversidade entre os indicados ao Oscar, é porque não há diversidade entre os votantes. Segundo levantamento publicado pelo Los Angeles Times, em 2013, a Academia tem mais de 6 mil membros. Sendo 94% deles brancos. Outra amostragem revela que cerca de 77% dos votantes são homens. As críticas forçaram um posicionamento por parte da atual presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, ela mesmo uma mulher negra. ;Eu, pessoalmente, adoraria ver a maior diversidade cultural entre os indicados das várias categorias da premiação;, lamentou. ;Em dois anos, fizemos grandes avanços nunca feitos no passado no sentido de tornar esta instituição diversificada e inclusiva, admitindo novos membros de todas as classes;, declarou, mostrando que o caminho para uma premiação feita por todas as cores ainda está longe de se firmar no feudo de Hollywood.

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