Avanço na vacina contra o zika

Avanço na vacina contra o zika

Pela primeira vez, cientistas do Brasil e dos EUA conseguem 100% de proteção em macacos imunizados com duas substâncias criadas a partir do vírus. Os resultados deixam pesquisadores mais perto de uma fórmula que seja eficaz em humanos

» Vilhena Soares
postado em 29/06/2016 00:00
 (foto: Jeff Miller/UW-Madison
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(foto: Jeff Miller/UW-Madison )

A disseminação dos casos de zika tem motivado pesquisadores a buscar formas de acabar, ou manter sob controle, a doença. E uma das maiores esperanças dos especialistas é a criação de uma vacina. Essa alternativa pode estar mais próxima depois dos resultados apresentados por um grupo de estudiosos do Brasil e dos Estados Unidos na edição desta semana da revista britânica Nature. A equipe desenvolveu duas substâncias que foram testadas com sucesso em ratos. Segundo Dan Barouch, da Universidade de Harvard e líder do estudo, trata-se da primeira demonstração de uma proteção contra o zika vírus obtida com uma vacina em um animal.

Para a equipe ; que conta com cientistas da Universidade de São Paulo (USP) ;, os resultados significam um grande potencial de uso futuro das fórmulas na proteção de humanos. ;Desperta esperanças de que uma vacina segura e eficaz é possível;, indicaram, em relatório divulgado. Foram criados dois tipos de vacina com base no vírus. ;Uma delas tem um plasmídeo, um pedaço do genoma vírus, que contém duas proteínas que agem de forma distinta ao entrar em contato com o sistema imune. A segunda possui todo o vírus silenciado;, explicou ao Correio Jean Pierre Peron, um dos autores do estudo e professor do Departamento de Imunologia da USP.

Os investigadores usaram as duas fórmulas em três linhagens de ratos. Quatro semanas após a infecção, os roedores foram expostos a duas estirpes do zika, uma brasileira e outra de Porto Rico. Todos os animais vacinados mostraram proteção total aos patógenos, o que se repetiu quando eles foram postos em contato com o vírus novamente oito semanas depois. ;O resultado positivo diante das duas linhagens de zika é muito interessante. Também temos visto que as variações entre as cepas não são muito grandes, mais um detalhe que contribui para a maior eficácia das vacinas. Outro ponto importante é que cada linhagem desses animais tem um perfil de resposta imune diferente, assim como os humanos, o que nos dá mais esperança de que elas venham a funcionar em testes futuros;, detalhou Peron.

Nos experimentos, os cientistas também perceberam que as reações do sistema imune dos ratos vacinados eram semelhantes ao efeito gerado por outras imunizações utilizadas em humanos. ;Mostramos que a proteção era o resultado de anticorpos induzidos pela vacina em níveis que são semelhantes aos de outras vacinas de flavivírus para humanos e bem-sucedidas. Isso nos oferece um otimismo substancial: quer dizer que temos um caminho livre para o desenvolvimento de uma fórmula segura e eficaz;, destacou Barouch.

Para Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília, e chefe do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa traz dados positivos ao usar uma estratégia já utilizada na criação de outras formas de imunização. ;Assim como no caso do sarampo e da rubéola, você usa o vírus como base para a fórmula. Isso porque, desativado e modificado, ele pode mostrar um efeito protetor;, explicou.

O especialista acredita que o trabalho precisa de mais testes a fim de que o resultado alcançado em ratos possa se repetir em humanos. ;Para desenvolver uma vacina, você precisa de várias fases de testes, principalmente para saber se ela não vai gerar efeitos colaterais graves. Precisamos de acompanhamento e isso demora alguns anos, como temos visto com a vacina da dengue. Essa é uma das melhores estratégias de combate ao zika, uma vacina seria a arma com maior potencial para diminuir o número de casos da doença;, frisou.

Microcefalia

Chebabo defende que um dos focos principais no desenvolvimento de fórmula imunizadora contra zika seja a proteção de grávidas, pois a infecção pelo vírus causa malformação fetal, incluindo a microcefalia. ;Na maioria dos estudos, não incluímos essas mulheres pelo risco envolvido; mas, nesse caso, isso muda porque que uma das principais vantagens que uma vacina para essa enfermidade deve ter é a proteção ao bebê;, defende.

Simon-Lori;re, pesquisadora do Instituto Pasteur, faz observação na mesma linha e sugere uma alternativa à pesquisa com mulheres. ;Temos que fazer testes em macacos e, especialmente, em animais em gestação para verificar se essas vacinas protegem contra a ameaça do zika, ou seja, da microcefalia, porque o objetivo é principalmente proteger o feto;, declarou à Agência France-Presse de Notícias (AFP), ao comentar a pesquisa.

Peron adianta que o próximo passo do estudo dará foco aos efeitos da vacina durante a gestação. ;Realizamos pesquisas anteriores que mostraram a ligação do zika na ocorrência da microcefalia e, agora, queremos tratar esse tema também nesse trabalho. Vamos testar ratas grávidas e ver se temos o mesmo efeito;, disse.

Para saber mais
Ao menos 60 estudos

De acordo com um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em abril, 60 laboratórios e agências nacionais de pesquisa trabalham em fórmulas de vacinas contra o zika vírus. Entre os trabalhos, 18 fórmulas de proteção têm como foco mulheres em idade de procriação. Assim como o estudo da Nature, o Instituto Walter Reed, do Exército norte-americano, trabalha em uma versão criada com base em uma forma inativa do vírus. O grupo planeja realizar testes com humanos antes do fim do ano.
Outra solução testada por cientistas para desenvolver uma vacina é criar uma forma sintética de DNA, alternativa escolhida pela empresa norte-americana Inovio Pharmaceutical em parceria com a companhia de biotecnologia sul-coreana GenOne Life Sciences. Após testes em laboratório com resultados positivos ; a fórmula criou anticorpos contra o vírus ;, o grupo recebeu recentemente uma autorização para realizar um experimento em estágio inicial com 40 pessoas a fim de testar os efeitos da imunização.

Relação comprovada

Em maio, os mesmos pesquisadores brasileiros mostraram, na Nature, a relação entre a microcefalia e o vírus zika ativo no país. Os cientistas infectaram camundongos com a cepa e notaram malformações congênitas semelhantes às detectadas em bebês de mães contaminadas. Também comprovaram os achados ao infectar minicérebros feitos com células humanas ; observaram a morte de células que dão origem ao órgão.

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